Atletismo é apenas o rosto desorganização das modalidades

by Sérgio Tinga

À excepção do futebol e do basquetebol, as modalidades em Moçambique atravessam uma fase bastante delicada, marcada pela falta de organização, orientação, metas, foco e fundos.

Algumas menos desorganizadas que as outras, mas a tónica dominante é a mesma. Quase todas, partindo do atletismo, que chegou a ostentar o estatuto de terceira modalidade prioritária, depois do futebol e basquetebol, indo para o andebol, boxe, judo, natação, ténis, karaté, tae-kwon-do, voleibol, desaguando na ginástica, pouco ou nada se faz a cada ano senão lamúrias de falta de dinheiro.

Ora, essas modalidades acima mencionadas na sua maioria não cumprem com o calendário competitivo que elas mesmas elaboram a cada ano, sendo as associações provinciais as entidades que carregam maior fardo desse fracasso.

Na verdade, neste momento o país não está bem financeiramente e o desporto não é uma ilha. Leva por tabela, daí que o Fundo de Promoção Desportiva (FPD), entidade governamental que é o braço financeiro do movimento associativo desportivo, esteja actualmente com contas no vermelho, para a frustração dos fazedores do desporto.

Dito doutra forma, não há dinheiro para se distribuir às federações para movimentarem provas, assim como para as selecções nacionais.

Até aí tudo bem. O que a nós nos preocupa é o facto de os dirigentes dessas modalidades, volvidos vários anos de dirigismo e do mesmo cenário de escassez de fundos, nunca se reinventar.

Fora ao Governo, através do FPD, há muitas alternativas na praça. Existem por aí empresas que se querem expor e sedimentar-se no mercado, patrocinando uma e outra actividade desportiva.

No desporto o destaque vai para as empresas especializadas em apostas desportivas, um negócio novo entre nós mas que está a ser muito lucrativo. Muitas federações e associações não exploram essas linhas de parcerias e limitam-se a fazer o mais fácil e menos viável: continuar a pedir dinheiro a um FPD que não tem dinheiro e quando não têm sucesso optam por desistir.

Acontece, porém, que a sabedoria popular define a desistência como uma opção dos fracos.

Quando alguém é eleito líder de uma federação ou associação tem de estar ciente de que aquele tipo de cargos não é para ter regalias, mas sim para colocar mãos à obra.

Nenhuma instituição ou empresa se junta a uma entidade que não se faz respeitar. A partir do momento em que se fica um ou dois anos sem se movimentar sequer uma competição, nem sequer torneio de abertura, está a se dar tiro no próprio pé. Qualquer potencial investidor fica retraído e o dinheiro que iria ao desporto, ou seja, ao atletismo, andebol, natação, ginástica ou voleibol, é desviado para a cultura, as artes e outras áreas. O desporto, esse, fica cada vez mais pobre e menos atractivo, por culpa da incompetência dos seus dirigentes que, na sua maioria, quando se candidatam vão cheios de promessas, possíveis e impossíveis de cumprir.

Infelizmente, continuamos neste círculo vicioso, onde cada um promete e não cumpre e fica impune. Onde cada modalidade faz o que pode sem respeitar o próprio calendário competitivo que ela mesma elaborou.

A desorganização não está apenas na área competitiva ou desportiva. Administrativamente também não há grande coisa nestas nossas modalidades. São federações e associações sem estatutos actualizados, sem contas bancárias, sem uma sede ou endereço físico, com todos os “dossiers” a andarem na pasta ou no carro do respectivo presidente.

As estruturas também são fracas e muitas fora de mandato. Quando são eleições os candidatos encabeçam listas longas mas, uma vez eleitos, os rostos visíveis são apenas do presidente e do secretário-geral.

É assim no atletismo, no boxe, no andebol, no voleibol, no xadrez, na ginástica, no ténis, na natação, no judo, no tae-kwon-do, karaté, etc.

Algo deve mudar. No caso do voleibol, quando há competições na Praia da Costa do Sol não raras vezes, e por muitos anos, vemos o presidente da federação a ir comprar lanches e a distribuir pelos candidatos, técnicos e pessoal de apoio adstrito às provas em causa.

Portanto, em muitas federações e associações só existem o presidente e quando muito também um secretário-geral, duas figuras que têm a missão de cuidar de tudo, do mais elementar ao essencial.

E quando faltam dirigentes competentes surgem oportunistas e gente sem história numa determinada modalidade para dirigirem e, muita das vezes, saírem com a casa ainda pior, como quem diz: “nós é que abrimos a porta da nossa casa para o inimigo”. Nos últimos anos várias modalidades passaram por isso. Aí, a pergunta que não quer calar é: quando irá aparecer um “Messias” para salvar as nossas moribundas modalidades?

Fonte: Jornal Desafio

You may also like

-
00:00
00:00
Update Required Flash plugin
-
00:00
00:00