MIA Couto é escritor por causa da voz da sua mãe. Apesar de o pai, Fernando Leite Couto, ter sido poeta e editor, tendo publicado e feito publicar vários livros, foi a dona Maria de Jesus, sua falecida mãe, quem costumava contar-lhe histórias em casa. Mas em tudo isto, qualquer coisa de fascinante: ela era “quase analfabeita”, nas palavras de Mia.
“Essas histórias eram absolutamente fascinantes. Nós ficávamos presos àquilo que sabemos que era inventado, que era mentira. Para dizer a verdade, era mentira”, contou Mia Couto, que falava de “Literatura.
Africanidade, CPLP”, no Camões – Centro Cultural Português, na Beira. Na conversa, dirigida por Cristóvão Seneta, o escritor explicou que, apesar de já ter falecido, Maria de Jesus continua presente no seu mundo.
Nascido na Beira, Mia Couto é de origem portuguesa. A sua família emigrou para Moçambique na década de 1950. O seu falecido pai era opositor do regime fascista em Portugal e, por isso, chegou a ser preso. Casou-se com Maria de Jesus, que nalgum momento foi rejeitada pela família do esposo por ser quase analfabeita.
“Estávamos em plena ditadura colonial fascista e o meu pai não podia ir para Portugal. (…) Então, a minha mãe percebeu que os filhos nunca iam conseguir conhecer os avós (…) e, por isso, inventou personagens que
preenchiam esse vazio”, contou.
Parece ficção de um autor de várias outras: E Mia tem consciência disso. Este é outros factores, que nem sequer revelou, terão contribuído para moldá-lo enquanto escritor. Por exemplo, na Beira, onde o escritor nasceu e cresceu, aconteceu algo igualmente curioso.
“Cada vez que o meu pai tinha um problema com um vizinho, mudava de zona. Então, nós vivemos em dez bairros daqui da cidade. E o que acontecia aqui, nessas casas todas, os meus avós e tios estavam presentes pela força que tinham as histórias que a minha mãe contava”, recordou.
Através das histórias narradas pela mãe, Mia percebeu que uma história, quando é contada com amor, torna presente até mesmo quem está ausente. “E essa foi a razão porque eu escrevi”, frisou.
Perder um prémio às vezes não é perder o caminho
O escritor deslocou-se à Beira para também participar na cerimónia de atribuição do Prémio Literário Mia Couto, que distingue o melhor livro do ano e, como o nome sugere, o homenageia. Os vencedores deste ano foram
Sangare Okapi, distinguido pela obra “Ubas”, enquanto Eduardo Quive venceu na categoria de Prosa com “Mutiladas” (contos).
Mia Couto contou que, quando surgiu a ideia de criar o galardão, apenas queria prestar apoio à iniciativa e não ser o patrono. Ou seja, não queria ter o seu nome associado ao prémio, por entender que essa não é a sua maneira de estar no mundo.
“Eu só tenho o meu canto, sou reservado. Apesar de ser uma figura pública, sei que sou, mas não quero estar no palco. E a coisa foi assim: ou tem o seu nome ou não há prémio”, recordou, que acabou por reconsiderar a sua posição, afinal, como diz um ditado, “não há regra sem excepção”.
“Não posso dar tanta importância aos meus próprios argumentos. Será melhor que haja prémio. Então, sim, não mudo por causa disso, mas há um prémio que talvez tenha o maior valor monetário entre todos os prémios de Moçambique (cada vencedor recebe um prémio de 400 mil meticais)”, explicou.
O prémio Mia Couto, em termos pecuniários, só fica atrás do “José Craveirinha”, que distingue a carreira de um escritor e organizado pela Associação dos Escritores Moçambicanos, com o patrocínio da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Aliás, falando de prémios, Mia Couto defende que estes devem ir além da atribuição de galardões.
“Acho que um prémio que simplesmente existe só para atribuir um valor monetário não funciona como deveria funcionar”, disse.
Na sua opinião, os galardões devem valorizar o projecto literário e contribuir para a promoção do livro. Além disso, os finalistas, e não apenas o vencedor, devem receber algum tipo de reconhecimento.
“Nos grandes prémios do mundo, como o Booker Prize (dos mais prestigiados), os finalistas aparecem na capa dos livros e isso já ajuda a vender melhor a obra, por exemplo. Acho que o prémio não deve beneficiar apenas um livro. Todos os finalistas, cinco ou dez deles, deviam também ser promovidos, beneficiando do prestígio associado ao prémio”, analisou.
Explica que escritores de projecção mundial também já perderam prémios, ficando em segundo ou terceiro lugar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Fernando Pessoa, provavelmente um dos maiores escritores da língua
portuguesa, que ficou em segundo lugar num concurso.
“Ninguém sabe o nome do vencedor, e ele (Fernando Pessoa) ficou em segundo lugar. A mesma coisa aconteceu com Guimarães Rosa, talvez o maior escritor do Brasil, que ficou em segundo lugar num prémio (…).
Portanto, é preciso não ficar cego com os prémios. Perder um prémio, às vezes, não é perder o caminho”, observou.
Não seremos substituídos por máquinas
Mia Couto admite ter os seus receios quando reflecte sobre o avanço tecnológico, sobretudo numa época em que muito se discute a possibilidade de a inteligência artificial substituir as pessoas. No entanto, traz um
contraponto.
“Também sou biólogo e cientista. Tenho a certeza de que aquilo que nos faz ser quem somos, aquilo que nos torna humanos, nunca será substituído por nada”, comentou.
Revelou que a sua paixão por gatos e pelo facto de um dos seus irmãos não conseguir pronunciar o nome Emílio.
Em 1971, mudou-se para Maputo, então Lourenço Marques. Trabalhou no jornalismo, onde passou pela revista Tempo e, em 1981, mudou-se para o jornal Notícias.
Em 1985, abandonou a carreira de jornalista para regressar à universidade e estudar Biologia, com especialização em Biologia Marinha.
O seu primeiro romance “Terra Sonâmbula” surgiu em 1992 e foi agraciado com o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos e é considerado um dos melhores livros africanos do século XX.
Fonte: Jornal Notícias