Um “ato de desespero” levou Putin a tomar uma decisão que também serve de aviso para a Europa

by Vanessa Massingue
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Fonte: CNN

Ataque de Moscovo contra a Ucrânia fez 22 vítimas mortais e dezenas de feridos nas últimas horas. Especialistas ouvidos pela CNN Portugal acreditam que se tratou de “um ato de desespero”, já que Putin pode estar com um grave problema interno entre mãos

Mais de duas dezenas de mortos, um grande rasto de destruição e centenas de feridos. Este é o balanço da última noite negra de intensos bombardeamentos russos contra várias cidades ucranianas. O ataque, no entanto, não se traduziu em ganhos militares russos no terreno, o que pode indicar que o objetivo de Moscovo era, afinal, outro.

“Foi um ato de desespero. Putin ainda acredita que, através deste tipo de ataques, consegue levar a Ucrânia a capitular”, explica à CNN Portugal o coronel José Carmo, salientando que o presidente russo “vive numa bolha”.

Segundo Moscovo, o ataque tratou-se de uma resposta ao “ataque terrorista” contra um dormitório da Universidade de Lugansk, que terá causado 21 mortos, embora a Ucrânia negue qualquer envolvimento na ofensiva.

“Durante a noite, em resposta aos atos terroristas do regime de Kiev, as Forças Armadas da Federação Russa realizaram um ataque maciço utilizando armas de alta precisão de longo alcance aéreas, terrestres e marítimas”, revelaram os responsáveis russos através de comunicado.

No entanto, o especialista militar que falou com a CNN Portugal aponta outras razões para o ataque que terá causado pelo menos 22 mortos em Kiev, Dnipro ou Kharkiv. “O objetivo primeiro era restaurar uma capacidade de dissuasão da Rússia face ao incremento dos ataques ucranianos em alvos como cidades ou estruturas do país”, começa por salientar.

Outro eixo identificado passa pela dimensão interna russa. Segundo o coronel, existe a necessidade de reforçar uma narrativa que está a ser posta em causa: “o facto de haver muitos bombardeamentos ucranianos visíveis já em cidades russas” está a corroer a ideia de uma Rússia forte e capaz de defender o seu território, sendo que os dados que chegam da Ucrânia também apontam para perdas territoriais de Moscovo.

Por outro lado, José Carmo aponta ainda um objetivo de natureza estratégica e militar mais ampla: “degradar a estrutura económica, militar e política na Ucrânia”. “A Rússia já está a prever que irão existir negociações em breve. Com estes ataques, partem para as conversações mais fortes e deixam a Ucrânia mais macia com medo destes bombardeamentos maciços”.

Enquanto isso, Cátia Moreira de Carvalho, especialista em relações internacionais, aponta para sinais de crescente desgaste interno na Rússia. “Está-se a começar a percecionar descontentamento”, afirma à CNN Portugal, explicando que a população começa a sentir mais diretamente os efeitos da guerra.

Os ataques ucranianos a refinarias e outras infraestruturas estratégicas, bem como os cortes de internet, estão a alterar o quotidiano dos russos. “As pessoas veem que as suas vidas não estão a melhorar” e isso poderá indicar que “alguma coisa dentro da Rússia poderá estar a acontecer e que ainda não está a transparecer cá para fora”.

Cátia Moreira de Carvalho admite que poderá existir um nível de contestação superior ao que é visível publicamente. “Penso que poderá ser um descontentamento maior da população. (…) As pessoas que veem os seus familiares a morrer e que são contra a guerra” podem estar a contribuir para um ambiente de crescente pressão sobre o Kremlin, admite.

A investigadora destaca também que existem indicações de que Putin tem surgido mais resguardado, o que tem alimentado especulações sobre possíveis movimentações internas. “Vários artigos têm levantado a ideia de que haverá conversações para tentar, de alguma forma, substituir Putin”, algo que a também comentadora da CNN Portugal considera “bastante difícil”.

Na sua leitura, a ofensiva serviu mais para consumo interno do que para alcançar ganhos no terreno. “Isto que aconteceu agora foi uma boa desculpa da Rússia para mostrar que continua forte”, numa altura em que “está a perder mais homens do que aqueles que consegue repor”.

O último balanço feito pelas autoridades ucranianas dava conta de 22 mortos e mais de 100 feridos. O cenário mais grave registou-se em Dnipro, onde, segundo o governador regional Oleksandr Hanzha, 16 pessoas perderam a vida e pelo menos 35 ficaram feridas.

Moscovo quer que Kiev “desvie as suas defesas aéreas”

Outro dos objetivos de Moscovo identificados pelo especialista militar José Carmo passa por explorar as dificuldades ucranianas nas linhas da frente, num contexto em que Kiev “está a conseguir isolar as linhas de comunicações por detrás das frentes de combate”. Esta situação obriga, segundo o especialista, a Ucrânia a “concentrar defesas na capital, que é simbólica, e nas grandes cidades”, onde se concentram infraestruturas críticas, levando à necessidade de “desviar defesas aéreas”.

José Carmo sublinha ainda que este cenário é agravado pela diminuição da capacidade ucraniana de intercetar mísseis balísticos. “Neste momento, a capacidade de intersecção de mísseis balísticos pela Ucrânia está muito diminuída, porque não tem interceptores suficientes”.

O especialista acrescenta que também o fornecimento internacional tem vindo a diminuir. “Os Estados Unidos baixaram muito o fornecimento, mesmo de material comprado”, enquanto da Europa chegavam apenas “dezenas mensais”, um apoio que, ainda assim, considera limitado, embora melhor do que a ausência total de recursos.

Neste contexto, a Ucrânia vê-se obrigada a gerir cuidadosamente os meios disponíveis. “Tem de fazer um roteio dos mísseis que utiliza para interceptar este tipo de mísseis balísticos”, aponta, descrevendo ataques em que “muitas vezes é preciso lançar dois” para garantir a interceção, num cenário em que a defesa aérea exige cada vez maior contenção e precisão.

O especialista sublinha, contudo, as limitações deste tipo de ofensivas, explicando que “estes ataques não podem ser feitos todos os dias, porque a Rússia não tem capacidade”, recordando que “os mísseis que foram lançados nas últimas horas são metade da produção mensal” e que, no caso dos mísseis Zircon, “é a produção de quase três meses”, embora tenham sido lançados apenas oito.

Entretanto, e horas depois dos intensos ataques, Volodymyr Zelensky falou aos ucranianos com os olhos postos nos parceiros europeus. Através de uma mensagem publicada na rede social X, o presidente ucraniano defendeu que a Europa deve reforçar urgentemente a sua capacidade de defesa antibalística, na sequência de uma das mais intensas vagas de ataques aéreos russos registadas nos últimos meses contra território ucraniano.

“A Europa precisa da sua própria defesa antibalística para que esta guerra possa finalmente chegar ao fim”, escreveu Zelensky numa mensagem divulgada na rede social X, onde descreveu a ofensiva lançada durante a noite pela Rússia.

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