O relatório técnico da Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC) apresenta um diagnóstico detalhado sobre os factores que ditaram a crise de combustíveis em Moçambique, demonstrando que o problema não se deveu a uma falta física de produto no mercado global, mas sim a estrangulamentos financeiros e cambiais internos.
Segundo se lê no documento, a escassez de moeda estrangeira em Moçambique tem raízes estruturais ligadas à perda de confiança internacional após 2016. Embora o país registe elevados volumes de exportação em sectores como o carvão, energia e gás, este valor não se traduz em liquidez cambial para a banca doméstica.
A maior parte das receitas dos megaprojectos fica retida em contas offshore ou destina-se ao pagamento de dívidas externas e dividendos, não circulando na economia nacional. A Mozal, por exemplo, responde por cerca de 27% das exportações em dólares, mas deixa apenas 3% de divisas no mercado interno.
A partir de 2022, o cenário agravou-se com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que fez disparar os preços do crude e os custos dos fretes marítimos. A factura nacional com a importação de combustíveis líquidos atingiu o pico de 1,966 mil milhões de dólares em 2022, mantendo-se pressionada nos anos seguintes devido à elevada dependência externa.
O Mecanismo de Importação e o Bloqueio nos Portos
A importação é centralizada pela IMOPETRO e adjudicada à Vitol, exigindo que as distribuidoras declarem as suas necessidades com antecedência. O grande estrangulamento ocorre na fase financeira: dias antes da chegada dos navios aos portos, as distribuidoras precisam de apresentar garantias bancárias ou cartas de crédito.
Com a escassez de dólares e a redução das linhas de crédito internacionais aos bancos locais (de-risking), o processo atrasa e o fornecedor activa o financial hold. O combustível fica retido nos terminais e, se o bloqueio não for levantado em 25 dias, a carga pode ser desviada para outros mercados.
Como o combustível é um insumo transversal, os atrasos e os custos propagam-se rapidamente. O encarecimento do gasóleo afecta a logística rodoviária de mercadorias, elevando os custos de produção na agricultura e na indústria, o que gera inflação alimentar.
Para travar a inflação, o Banco de Moçambique subiu a taxa MIMO, elevando as taxas de juro nos bancos comerciais para patamares entre 20% e 28%, o que encareceu o crédito e retraiu o investimento privado.
O Choque de Preços de Maio de 2026 e o Factor Comportamental
O mercado manteve relativa estabilidade até abril de 2026, mas as tensões no Médio Oriente e a crise cambial forçaram um reajuste acentuado em maio de 2026. A gasolina subiu para 93,69 MT/L e o gasóleo sofreu um agravamento expressivo para 116,25 MT/L.
Mesmo com esta subida, os preços internos continuaram abaixo dos praticados em vizinhos da SADC, como o Malawi e o Zimbabwe, estimulando o abastecimento transfronteiriço informal e pressionando ainda mais os stocks nacionais.
O pânico e o medo da falta de produto agravaram a situação, levando os automobilistas a fazer compras preventivas de larga escala para armazenamento doméstico. Este pico artificial da procura provocou longas filas e o esgotamento rápido dos postos de abastecimento.
Para o futuro, apontam-se soluções estruturais como a diversificação das exportações, a revisão das regras de retenção de divisas dos megaprojectos, o reforço das reservas estratégicas do Estado e o investimento em refinarias locais.
Fonte: Miramar