Cidade nas mãos: Periferia como espaço de inspiração artística

by Vanessa Massingue

O festival chama-se Cidade nas Mãos, mas não se limita ao espaço urbano. A julgar pelas reflexões deixadas nesta festa
multidisciplinar, nota-se a ideia de olhar para os subúrbios como consequência da criação das cidades.

Este terá sido o motivo para a plataforma Catalogus, que organiza o festival em parceria com a Embaixada da Espanha,
dar vida a uma segunda edição cujo pano de fundo é a intrínseca relação entre a cidade e a periferia.

A festa aconteceu na semana finda, em vários espaços de Maputo e da Matola, com o intuito de promover as artes e cultura, diálogos, exposições e outras formas de expressão epensamento que espelham as diferentes formas de viver as
duas urbes.

Foi nesta perspectiva que o jornalista e guionista Elton Pila e a poeta e activista Énia Lipanga discutiram a poesia que nasce
no subúrbio e sobe para a cidade; Chanila Saíde, Carlos Serra e Adelium Castelo abordaram o futuro das cidades; a
arquitecta Elis Mavie ensinou a desenhar uma cidade; e José dos Remédios, Jorge Matine, Elvira e Ivan Laranjeira focaramse nos espaços culturais da cidade e periferia.

Uma das mesas mais concorridas foi “Subúrbios: gravitar à volta da cidade”. Moderado por Ouri Pota, o debate juntou os
artistas visuais Gonçalo Mabunda e Carina Capitine, e o escritor Hélder Faife, que, à sua maneira, procuram resgatar
a arte frequentemente considerada perdida no espaço suburbano.

A periferia e o espaço urbano ocupam um lugar especial na obra de Hélder Faife. Autor de livros como “Poemas em Sacos
Vazios que Ficam de Pé” e “As Armadilhas da Floresta”, Faife detém uma escrita que estabelece uma relação artística com
vários elementos e referências suburbanas.

“A minha arte tem uma relação com o espaço da periferia. Eu amo estes elementos e identifico-me com eles. Então,
desenvolvo uma relação com eles. Isso também tem a ver com aquilo que, do ponto de vista urbanístico, podemos
entender como subúrbio”, comentou.

É nestes espaços onde encontra a matéria-prima para a sua poesia e prosa, afinal encara o nascimento destes lugares
como uma tentativa de corrigir a cidade, criando assim outras formas de gestão e sobrevivência “Os ‘dumba-nengues’ (mercados informais), ‘chapas’ 100 e o movimento diário das pessoas mostram que o subúrbio é
como a circulação sanguínea da cidade e não é algo exterior a ela”, explicou.

Refere que todos esses elementos lhe servem de inspiração. Muitos dos seus livros abordam precisamente essas dinâmicas
permanentes da periferia em constante reinvenção. E é a viajar por estes espaços que se depara com vulnerabilidade,
também visível nos seus textos e entendida como porta de entrada para outras reflexões sociais.

“Não abordamos os problemas e deixamos tudo nas mãos de quem lá está. Então, no final do dia, a pergunta é: para além
de chamar a atenção, que nome estamos a dar a essa discussão? Como é que a nossa arte olha para aquela cultura e tenta promover uma transformação?”, questionou.

Na sua opinião, cabe ao artista provocar debates sobre a precariedade da vida e as desigualdades sociais. Ou seja,
mais do que denunciar problemas, a arte deve oferecer possibilidades de mudança.

“É assim que se começa a construir uma narrativa diferente. Vai-se buscar o barro porque o mestre vive lá, porque é um
local bonito e positivo. Mas também reconhecendo que quem vive lá enfrenta barreiras, limitações e dificuldades”,
considerou.

Fonte: Jornal Notícias

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