Quando Samora Moisés Machel proclamou a Independência de Moçambique, na madrugada de 25 de Junho de 1975, diante de uma multidão reunida no então Estádio da Machava, hoje Estádio da Independência, o país iniciava uma nova etapa da sua história. Depois de quase cinco séculos de dominação colonial portuguesa e de uma década de luta armada conduzida pela Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), nascia um Estado soberano, carregado de expectativas e sonhos de liberdade, justiça social e desenvolvimento. Passados 51 anos, Moçambique celebra hoje mais um aniversário da sua Independência num contexto marcado por profundas contradições. Por um lado, o país construiu instituições, expandiu a rede escolar, aumentou o acesso aos serviços de saúde, desenvolveu infra-estruturas e consolidou a sua soberania.
Por outro, continua confrontado com elevados níveis de pobreza, desigualdades sociais, desemprego juvenil, corrupção, crises políticas recorrentes e uma crescente sensação de frustração entre muitos cidadãos. A data é celebrada oficialmente com discursos, desfiles e homenagens aos combatentes da Luta de Libertação Nacional. Mas, para além das cerimónias, a efeméride suscita uma reflexão inevitável: até que ponto as promessas da Independência foram concretizadas? Da libertação à construção do Estado A Independência nacional encontrou um país profundamente fragilizado. A saída em massa de colonos portugueses deixou sectores inteiros sem quadros qualificados. A economia estava fortemente dependente da Administração Colonial e as infraestruturas eram insuficientes para responder às necessidades de uma população maioritariamente rural e pobre. Nos primeiros anos da Independência, o novo Governo apostou num modelo de orientação socialista, nacionalizando sectores estratégicos e promovendo campanhas massivas de alfabetização.
Milhares de moçambicanos tiveram, pela primeira vez, acesso à educação e aos serviços básicos. Entretanto, a guerra civil que eclodiu em 1977 mergulhou o país num dos períodos mais difíceis da sua história. Durante 16 anos, o conflito entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) provocou milhares de mortos, destruiu infraestruturas, deslocou populações e comprometeu seriamente os esforços de desenvolvimento. A assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma, em 1992, abriu caminho para a democratização do país e para a realização das primeiras eleições multipartidárias, em 1994. Desde então, Moçambique conheceu períodos de crescimento económico assinalável, impulsionados por investimentos estrangeiros, grandes projectos mineiros e, mais recentemente, pela descoberta de vastas reservas de gás natural na Bacia do Rovuma. Contudo, muitos dos benefícios desse crescimento continuam a não ser sentidos pela maioria da população.
A geração da Independência e geração do desencanto da liberdade e das oportunidades. Para Sónia Chissano, de 25 anos de idade, a Independência representa sobretudo a conquista da liberdade e das oportunidades. “Eu não vivi o colonialismo nem a guerra de libertação, mas reconheço os sacrifícios feitos pelos nossos pais e avós. Graças a essa luta, hoje podemos estudar e construir os nossos próprios sonhos”, afirma. A jovem destaca a expansão da educação como uma das maiores conquistas do país, afirmando que “os meus avós tiveram poucas oportunidades de frequentar a escola. Hoje existem universidades em várias províncias e milhares de jovens têm acesso ao ensino”. Também reconhece avanços significativos no sector da saúde, embora admita que persistem dificuldades, sobretudo nas zonas rurais, anotando que “temos mais hospitais, mais centros de saúde e melhores campanhas de vacinação, mas ainda há muito por fazer”.
Apesar disso, Sónia acredita que a Independência continua a ser uma obra inacabada, observando que “a liberdade política foi conquistada, mas ainda precisamos de alcançar uma maior justiça social”. Recursos abundantes e benefícios limitados Uma visão mais crítica é apresentada por Benedito Machava, que anota que o principal problema de Moçambique não é a falta de recursos, mas a incapacidade de transformar essa riqueza em prosperidade colectiva. “Temos gás, carvão, rubis, grafite, terras férteis, recursos pesqueiros e uma localização estratégica. O problema é que a riqueza produzida não melhora significativamente a vida da maioria dos cidadãos”, lamenta. Segundo Machava, os jovens continuam a enfrentar enormes dificuldades para encontrar emprego. “Muitos concluem a Universidade e acabam por permanecer anos sem trabalho, outros sobrevivem através do sector informal”.
Na sua opinião, o país desperdiçou diversas oportunidades de desenvolvimento ao longo das últimas décadas. “É difícil compreender como um país tão rico continua a apresentar indicadores sociais tão preocupantes”, afirmou. Juventude procura alternativas Num contexto de desemprego crescente, o empreendedorismo surge como uma das principais estratégias de sobrevivência. Lhambasse Magagule, estudante universitário, considera que a juventude moçambicana tem demonstrado capacidade de adaptação. “Hoje vemos jovens a criar negócios próprios, pequenas empresas, plataformas digitais e iniciativas comunitárias. Há criatividade e vontade de vencer”, afirmou. Segundo ele, a Independência significa significa liberdade para inovar e construir novos caminhos. Inclusão ainda longe de ser realidade Para Mirrely Emanuela Timbane, filha de uma cidadã com deficiência auditiva, os ganhos da Independência ainda não chegaram a todos os sectores da sociedade. “Existem leis, existem políticas públicas, mas muitas vezes a inclusão fica apenas no papel”, lamenta.
A jovem denuncia a insuficiência de programas voltados para pessoas com deficiência, afirmando que “há muitas crianças surdas nas escolas sem apoio necessário para aprender. Continuamos a enfrentar enormes barreiras no acesso à educação e à informação”. A visão de quem viu nascer a Nação Mário Augusto tinha 18 anos quando Moçambique se tornou independente. Hoje, aos 69 anos, recorda os momentos de entusiasmo que marcaram aquele período, assegurando que “havia esperança e acreditávamos que a Independência resolveria muitos problemas”. Augusto reconhece que houve avanços significativos, sobretudo na educação, saúde e infra-estruturas, mas considera que o país ainda está distante das aspirações iniciais. “O crescimento económico existe, mas os benefícios não chegam de forma equilibrada”, afirma, questionando igualmente a gestão de algumas instituições públicas e tão dos recursos nacionais.
Gertrudes Conjo, uma das entrevistadas mais idosas da nossa reportagem, recorda com saudade os primeiros anos após da Independência nacional, afirmando que “no tempo de Samora Machel sentíamos maior proximidade entre os governantes e o povo”, embora reconheça que cada época enfrenta desafios próprios, lamentando o aumento do custo de vida. “Hoje tudo é caro. A alimentação, o transporte, a saúde. Muitas famílias passam por dificuldades”, lamentou. Cabo Delgado, “dívidas ocultas” e novos desafios Nos últimos anos, o país enfrentou desafios adicionais que vieram agravar as dificuldades económicas e sociais. A crise das “dívidas ocultas”, revelada em 2016, afectou a credibilidade internacional do Estado e teve consequências profundas para a economia. Mais recentemente, a insurgência armada em Cabo Delgado provocou milhares de mortes, deslocou centenas de milhares de pessoas e comprometeu projectos estratégicos ligados à exploração de gás natural.
Ao mesmo tempo, fenómenos climáticos extremos, como ciclones e secas, continuam a afectar milhares de famílias em diferentes regiões do país. O futuro continua em aberto Aos 51 anos de Independência, Moçambique apresenta um percurso complexo, feito de conquistas e contradições. O país preservou a sua soberania, expandiu o acesso à educação e à saúde, consolidou as instituições e tornou-se um actor relevante na região austral de África. Porém, continua confrontado com desafios estruturais que limitam o bem-estar da população. Entretanto, enquanto os discursos oficiais destacam os avanços alcançados, muitos cidadãos continuam a perguntar quando a riqueza nacional se traduzirá em melhores condições de vida para todos.
Mais de metade da população moçambicana nasceu depois da assinatura do Acordo Geral de Paz. Trata-se de uma geração que não viveu a Luta de Libertação Nacional nem a guerra civil, mas que carrega novas expectativas e novas exigências. Cinco décadas e um ano depois da Independência, permanece actual a pergunta que atravessa gerações: que país os moçambicanos sonharam em 1975 e que país desejam construir nos próximos 51 anos? As respostas variam, mas uma certeza parece reunir as diferentes vozes ouvidas pela nossa reportagem: a Independência continua a ser um património colectivo, cuja verdadeira realização dependerá da capacidade do país transformar liberdade política em desenvolvimento, inclusão social e dignidade para todos os cidadãos.
Fonte: Zambeze