Residência artística une Moçambique e Ilha Reunião

by Sérgio Tinga

Unir a pintura feita na atmosfera zen aos bordados e crochet e o design de moda e um desfile é o que se propõe numa residência artística que culminará no Fashion Show – Embroidered Emotions (Emoções Bordadas), no Centro Cultural Sabura, em Maputo, no dia 15 de Julho.

A proposta estabelece uma ponte entre Moçambique e Ilha Reunião, por via da colaboração entre RegiIs (Moçambique) e Sylvie Rimlinger (Ilha da Reunião), financiado pela Comissão do Oceano Índico (COI), que promove o diálogo entre pintura, bordado, moda e inclusão social através da arte.

Com efeito, durante a residência, será realizado um “workshop” de dois dias, dedicado às emoções das mulheres, reunindo 15 participantes, entre estudantes e mulheres pertencentes a grupos em situação de maior vulnerabilidade. Num espaço de escuta, partilha e criação, as participantes serão convidadas a transformar as suas emoções, memórias e vivências em arte.

A artista moçambicana é uma autodidata, em início de exposição, que descobre na pintura, na composição e conjugação de formas abstractas a expressão mais profunda de si. E a sua sensibilidade com as cores que é a raiz da sua arte.

Recorrendo à criação para um reencontro de si alia-se, simultaneamente, à meditação zein, fazendo do corpo um veículo de transmissão de energias, o florescer de auras e de portais espirituais. É neste sentido que as suas obras resultam de preocupações genuínas. Com experiência no Corporate, em gestão de projectos, sendo ela engenheira informática, expressa a presença da mulher nesses espaços, convida a emancipação tendo como horizonte a liberdade.

Por sua vez, Vie464 (SylVie Rimlinger), artista multidisciplinar, trabalha a colagem, desenho, pintura, linogravura, entre outras. Diz que o seu trabalho é inspirado na dinâmica intrínseca entre a fragmentação e organização.

A sua busca, lê-se no seu portal, é por uma jornada consciente que a conduza a uma autonomia plena e feliz. E desta forma vai se expressando por via de projectos e o seu portifólio está recheado de séries.

Por outro lado, este projecto co-criado pelas artistas envolvidas, remove a cortina sobre o Índico que banha ambos territórios, até porque aquele território insular é cercado pelo oceano e possui ligações históricas por via do tráfico escravocrata. Com o patrulhamento do Atlântico por parte da Marinha britânica, a partir da segunda metade do século XX há um fluxo no negócio no Sul do Índico envolvendo Portugal e França para o plantio de cana-de-açúcar. Neste contexto, há registos de que os recrutamentos podem ter decorrido na Ilha de Moçambique, Inhambane, Quelimane e, fundamentalmente, das ilhas existentes em Cabo Delgado.

Esta colaboração, que se consubstancia na mobilidade artística, invoca essa memória que acaba silenciada de uma proximidade que transcende a geografia notável na cultura, nos instrumentos musicais, entre outras similaridades. Aliás, amplia uma série de movimentos que já se vem desenhando há alguns anos, justamente a partir do loby do sector cultural. Foi neste contexto que no dia 2 de Junho de 2022 os municípios de Maputo e Saint Pierre (Ilha Reunião) assinaram um acordo de cooperação. Bem como o Centro Cultural Franco-Moçambicano, o Museu Mafalala, o Kinani e o Azgo tem feito e apresentado colaborações cada vez mais numerosas deste tipo, entretanto, este tem a particularidade de ser de uma artista emergente e independente.

Fonte: Jornal Noticias

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