A Direção provincial da Migração em Gaza, entretanto, diz não ter registo oficial, por sua vez a ASTROGAZA fala de registo de mais de 10 mil cidadãos que regressaram nas últimas semanas. Cidadãos que voltam doentes, sem bens, sem emprego e com o desafio de recomeçar do zero.
A província de Gaza continua a registar a chegada de cidadãos moçambicanos que fogem da violência xenófoba na África do Sul. Contudo, apesar do crescente fluxo de regressados, os Serviços Provinciais de Migração afirmam não possuir qualquer registo oficial sobre o número de moçambicanos que regressaram à província.
O porta-voz dos Serviços de Migração em Gaza, Abeldo Nhanombe, explicou que o acompanhamento desta situação tem sido feito principalmente nos postos fronteiriços de Ressano Garcia e Ponta do Ouro.
“A província de Gaza não tem nenhum dado registado de cidadãos moçambicanos repatriados. O movimento tem sido acompanhado ao nível das fronteiras de Ressano Garcia e Ponta do Ouro. Aqui, registamos apenas o movimento migratório normal, embora estejamos preparados para responder a qualquer demanda nos postos de travessia da província”, afirmou.
Entretanto, dados recolhidos pela Associação dos Transportadores de Gaza (ASTROGAZA) traçam um cenário diferente. A organização refere que, nos últimos 12 dias, milhares de moçambicanos regressaram da África do Sul, muitos deles em situação de extrema vulnerabilidade.
Segundo a associação, vários cidadãos chegam debilitados, sem recursos financeiros, alimentos ou apoio familiar, sendo frequentemente abandonados à sua sorte após serem transportados para o território nacional.
“O número de chegadas continua elevado. Só nestas duas últimas semanas registámos mais de 10 mil pessoas. Muitos chegam debilitados e são deixados à deriva”, relatou, Adenaldo Mabote, representante da ASTROGAZA.
Entre os números apresentados pela associação e a ausência de informação oficial por parte das autoridades migratórias, persistem histórias de moçambicanos que regressam da chamada “terra do rand” com uma mão à frente e outra atrás, ou, melhor, de mãos vazias, após perderem bens, emprego e, em alguns casos, os laços familiares construídos ao longo de décadas.
É o caso de Alberto, que regressou recentemente à sua terra natal depois de 26 anos a viver na África do Sul. Sem património e sem perspectivas imediatas, trouxe consigo apenas as recordações da vida que construiu naquele país.
Para trás ficaram os filhos, a esposa de nacionalidade sul-africana e um projecto de vida que julgava consolidado.
A história de Alberto está longe de ser isolada. Há dezenas de outros cidadãos que regressam sem perspectivas de reintegração económica e social, enquanto alguns permanecem retidos do outro lado da fronteira, sem meios para regressar ao país.
Transportadores que operam na rota Gaza-África do Sul denunciam igualmente alegados casos de abandono de moçambicanos em território sul-africano. Segundo os relatos, muitos chegam doentes, sem alimentação adequada e sem condições mínimas para enfrentar o rigor do inverno.
“Há pessoas que ficam muito tempo sem apoio. Algumas estão doentes, outras não têm sequer cobertores. Todas as semanas chegam mais de 20 pessoas em condições de saúde preocupantes”, relatou um operador de transporte. As estatísticas apontam para uma tendência crescente de regresso de moçambicanos provenientes da África do Sul. Para muitos, porém, o retorno ao país não representa o fim do sofrimento, mas o início de uma nova batalha: reconstruir a vida do zero depois de perder quase tudo além-fronteiras.
Fonte: O pais