PR admite diálogo com os terroristas, mas exige identificação das lideranças

by Dilan Abdala

Daniel Chapo diz que a via militar e o diálogo podem caminhar em simultâneo na busca da paz em Cabo Delgado, enquanto a SADC reafirma a aposta na segurança, integração e desenvolvimento regional.

O Presidente da República, Daniel Chapo, afirma que o Governo moçambicano está aberto ao diálogo como uma das vias para pôr fim ao terrorismo na província de Cabo Delgado, mas advertiu que qualquer processo de negociação depende, primeiro, da identificação dos grupos, das suas lideranças e das motivações que estão por detrás da insurgência.

A posição foi reiterada por Chapo à margem da 46.ª Cimeira Ordinária dos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), realizada em Durban, África do Sul. O encontro decorreu a 17 de Agosto de 2026, sob o tema “Industrialização sustentável e inclusiva através do desenvolvimento de infra-estruturas e da transformação agrícola e de minerais críticos, em prol de um mundo justo”.


Questionado sobre a recomendação de peritos das Nações Unidas em relação à necessidade de explorar o diálogo para a resolução do conflito em Cabo Delgado, o Chefe de Estado moçambicano sustentou que “tanto a via armada como a via do diálogo são solução”.


Chapo recordou que a experiência internacional e a própria História de Moçambique demonstram que o diálogo desempenha um papel fundamental na resolução dos conflitos.


Como exemplo, evocou a guerra dos 16 anos, que terminou com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma, a 4 de Outubro de 1992.


Contudo, no caso concreto do terrorismo em Cabo Delgado, o Presidente da República considerou necessário, antes de qualquer negociação, esclarecer quem são os interlocutores.


“É muito difícil dialogar com quem não se conhece”, afirmou, defendendo que o primeiro passo passa por identificar as pessoas envolvidas, as lideranças existentes no terreno e as motivações que alimentam o conflito.

Segundo Chapo, uma vez criadas estas condições e existindo abertura das partes, o Estado moçambicano estará disponível para avançar para um processo de diálogo que possa produzir resultados concretos.


Apesar da abertura ao diálogo, o Chefe de Estado deixou claro que Moçambique não pretende suspender as operações militares enquanto não existir um caminho concreto para uma solução negociada.


Daniel Chapo argumentou que é responsabilidade do Estado defender a vida e a segurança da população, razão pela qual as Forças Armadas continuarão empenhadas no combate aos grupos terroristas.


“O mais importante para nós é a paz e a segurança para o desenvolvimento do nosso país”, afirmou.


Na sua perspectiva, a componente militar e o diálogo não são necessariamente caminhos incompatíveis. Enquanto o Estado procura compreender melhor os actores envolvidos e as causas do conflito, as Forças de Defesa e Segurança continuarão no terreno para proteger as populações.


A posição do Presidente da República surge numa altura em que o debate sobre uma eventual abertura de canais de diálogo com os insurgentes tem ganho espaço no país. Em Julho, Chapo já havia manifestado disponibilidade para recorrer a “todos os meios possíveis” para alcançar a paz em Cabo Delgado, incluindo a possibilidade de diálogo.


O Chefe de Estado relacionou ainda esta posição com o processo de Diálogo Nacional Inclusivo em curso no país, considerando-o uma demonstração da importância que o Governo atribui à negociação como instrumento para a estabilidade política, a reconciliação e a construção da paz.

Durante a Cimeira, Moçambique apresentou igualmente o ponto de situação sobre a segurança em Cabo Delgado, tendo recebido manifestações de solidariedade e apoio dos Estados-membros.


Segundo Daniel Chapo, os países da região reiteraram a disponibilidade de continuar a apoiar Moçambique no combate ao terrorismo.


Para o Presidente da República, a ameaça terrorista em Cabo Delgado não deve ser encarada apenas como um problema moçambicano, mas também como um desafio para a estabilidade da África Austral.


Ao longo dos últimos anos, a SADC tem manifestado apoio aos esforços de Moçambique para restaurar a paz e a segurança em Cabo Delgado, tendo anteriormente aprovado missões e operações regionais de apoio ao combate contra grupos terroristas e extremistas violentos.


Chapo voltou a defender que não pode haver desenvolvimento sustentável sem paz, estabilidade e segurança, considerando estes factores fundamentais para a concretização dos programas de integração e desenvolvimento regional.

Ramaphosa aposta em infra-estruturas e integração


Por seu turno, o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, que passou a liderar a SADC, defendeu a transformação da vontade política dos Estados-membros em resultados concretos para as populações.


No discurso de encerramento da Cimeira, Ramaphosa destacou que a prosperidade, a segurança e o desenvolvimento dos países da região estão directamente ligados ao avanço da integração regional.

O Presidente sul-africano colocou o desenvolvimento de infra-estruturas entre as prioridades da nova Presidência da organização, defendendo a melhoria dos corredores regionais, das redes ferroviárias, das estradas e dos sistemas logísticos.


Segundo Ramaphosa, a intenção é transformar os corredores de desenvolvimento em verdadeiras artérias da integração regional, ligando os países sem acesso ao mar aos portos e permitindo uma circulação mais rápida e menos onerosa de pessoas, mercadorias e serviços.


A agenda da 46.ª Cimeira incluiu, entre outros temas, a operacionalização do Fundo de Desenvolvimento Regional da SADC, a implementação do Plano Indicativo Estratégico de Desenvolvimento Regional 2020-2030, a segurança alimentar, a resposta a desastres, a paz e segurança e os impactos das transformações geopolíticas sobre a região.

Moçambique quer papel estratégico nos corredores regionais


Para Moçambique, a agenda de infra-estruturas apresenta uma importância particular, tendo em conta a localização geográfica do país e a existência dos corredores de Maputo, Beira e Nacala.


Daniel Chapo defendeu que os portos, caminhos-de-ferro e estradas moçambicanos podem desempenhar um papel estratégico na facilitação do comércio regional e no acesso dos países do interior aos mercados internacionais.

A industrialização foi igualmente apontada como uma prioridade para a região. Os líderes defendem uma transformação estrutural que permita à África Austral deixar de ser apenas fornecedora de matérias-primas e passar a produzir, transformar e exportar bens de maior valor acrescentado.

Neste sentido, Ramaphosa destacou o potencial da região nos sectores dos minerais críticos, agricultura, energias renováveis e mão-de-obra jovem.


Afirmou que a meta é transformar estes recursos em indústrias, empregos, produção agrícola, exportações e oportunidades económicas.


“Os nossos cidadãos não nos julgarão pelo número de resoluções adoptadas, mas pela diferença que essas resoluções fazem nas suas vidas”, defendeu o Presidente sul-africano.

Migração e violência também marcaram a Cimeira


Outro dos assuntos abordados durante o encontro foi a situação dos migrantes, particularmente depois dos episódios de violência registados recentemente na África do Sul.

Daniel Chapo manifestou preocupação com os ataques contra cidadãos moçambicanos e de outras nacionalidades, defendendo que a violência não pode ser uma resposta aos desafios migratórios.


O Presidente moçambicano explicou que o Governo organizou a recepção e triagem dos cidadãos que regressaram da África do Sul, procurando identificar as suas origens, profissões e possibilidades de reinserção social e profissional.


Segundo Chapo, entre os regressados existem profissionais como carpinteiros, serralheiros, electricistas, pedreiros e canalizadores, cujas competências poderão ser integradas em projectos nacionais e no mercado de trabalho.


Para o efeito, o Governo está a organizar uma base de dados através das instituições ligadas ao emprego e a trabalhar com o sector privado para facilitar oportunidades de integração.


O Chefe de Estado apelou igualmente aos moçambicanos que vivem no estrangeiro para respeitarem as leis dos países onde residem, sublinhando que a migração deve ocorrer de forma segura, ordenada e legal.


Por sua vez, Cyril Ramaphosa reconheceu perante a Cimeira a complexidade do fenómeno migratório e defendeu uma resposta baseada na cooperação, compreensão e unidade entre os países da região.


O Presidente sul-africano agradeceu a solidariedade demonstrada pelos Estados-membros e defendeu que os desafios da migração devem ser enfrentados colectivamente, sem permitir que criem divisões entre povos irmãos.

Fonte: Jornal Zambeze

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