III Fórum cultural e criativo: Da preservação do património à escassez de espaços culturais

A Cidade de Maputo e a Ilha de Moçambique, em Nampula, são alguns exemplos de locais com potencial turística e cultural, mas que têm um problema comum: a necessidade constante de preservar espaços históricos e de criar novas infra-estruturas artísticas.
Esta é uma das constatações feitas pelo III Fórum Cultural e Criativo, que decorreu recentemente no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), na capital do país. O evento reuniu, durante dois dias, artistas, empreendedores, gestores culturais, académicos, entre outras figuras ligadas às ICC.
Definindo-se como uma oportunidade para reflectir sobre os desafios e oportunidades das ICC no país, o fórum foi promovido pelo Cultiv’Arte, um projecto de fortalecimento do sector cultural em Moçambique.
Sob a moderação do jornalista Ouri Pota, os oradores Cláudio Zunguene, Osvaldo Faquir e Joaquim Matavele falaram de “Parcerias entre municípios, territórios e sector privado: que oportunidades reais para as ICC?”. Defenderam uma abordagem mais integrada entre cultura, economia local e desenvolvimento urbano.
A Ilha de Moçambique, declarada património mundial da humanidade desde 1991, e a cidade de Maputo, onde os artistas sempre se queixam da escassez de espaços de apresentação, foram, na ocasião, usadas como exemplo sobre como se pode usar um território, sobretudo histórico, para dinamizar as ICC.
Para Cláudio Zunguene, coordenador do Gabinete de Conservação da Ilha de Moçambique (GACIM), entidade subordinada ao Ministério da Educação e Cultura, a preservação daquele património notável não se limita à conservação física de monumentos e edifícios históricos.
“O nosso papel é garantir a gestão patrimonial, manter a relação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e trabalhar com as comunidades locais para assegurar que a ilha permaneça na lista do património mundial”, explicou.
Como coordenador do GACIM, conta que, inicialmente, o foco da instituição esteve apenas concentrado na preservação de infra-estruturas históricas, incluindo a Fortaleza de São Sebastião, o Museu da Ilha de Moçambique, entre outros edifícios históricos.
No entanto, com o passar dos anos, notou ser evidente que se devia mudar de abordagem, afinal por detrás de tanta riqueza patrimonial também existe uma realidade marcada por desafios sociais profundos como a pobreza.
“Como podemos pedir às pessoas que priorizem a conservação do património quando muitas delas enfrentam dificuldades para garantir a sua alimentação diária?”, questionou.
Neste diapasão, o GACIM começou a investir mais nas comunidades locais, afinal elas devem sentir que o legado patrimonial os beneficia. Assim, a instituição passou a investir nas ICC como instrumento de desenvolvimento económico e social.
“Se uma pessoa consegue atrair o público e obter renda através de um espectáculo de tufo, por exemplo, ela compreende que está inserida num contexto de património mundial e passa a sentir-se motivada a protegê-lo”, explicou.
Apesar de ser uma entidade pública, o GACIM tem procurado estabelecer uma nova forma de actuação, baseada na criação de parcerias com organizações privadas, associações culturais e instituições internacionais.
Assim, desde 2020, a instituição tem conseguido mobilizar diversos financiamentos internacionais destinados à valorização do património e fortalecimento das ICC. Zunguene conta que, graças a um fundo do projecto Procultura, por exemplo, foi possível criar na Ilha de Moçambique um novo espaço cultural, a Casa dos Contos.
Precisam-se infra-estruturas à altura
O Ritmo da conversa facilmente conduziu a uma reflexão sobre a falta de espaços adequados para a prática artística. Joaquim Matavele, coordenador do Girassol, agremiação que há mais de duas décadas organiza o Festival Internacional de Teatro de Inverno (FITI), considera a ausência deste tipo de infra-estruturas um dos maiores entraves ao desenvolvimento sociocultural. Para Mano Quim, como é carinhosamente tratado, embora seja possível organizar actividades relevantes como o FITI, a questão central permanece a mesma: estar dependente de espaços de terceiros.
“Sempre que precisamos de utilizar um espaço temos de pagar. Muitas vezes não dispomos de recursos financeiros para suportar esses custos de forma contínua”, disse quem defende maior envolvimento dos municípios na criação e gestão de infra-estruturas.
Segundo a fonte, o planeamento urbano deve integrar a cultura como elemento estratégico no processo de desenvolvimento, havendo necessidade de mapear os artistas, identificar as vocações culturais dos diferentes bairros e localizar espaços que possam ser recuperados ou adaptados para actividades culturais.
“Precisamos de olhar para a ligação entre cultura, território e desenvolvimento local”, destacou, referindo que muitas áreas urbanas subaproveitadas podem ganhar uma nova função social através da cultura.
Um dos exemplos é o Jardim 28 de Maio, mais conhecido por Jardim dos Madgermanes, que, apesar da sua dimensão e potencial, ainda não possui uma infra-estrutura cultural capaz de dinamizar actividades regulares.
“Pode-se requalificar aquele espaço e transformá-lo num verdadeiro centro cultural”, sugeriu.
Aliás, a mesma lógica poderia ser aplicada a outros jardins públicos que foram anteriormente concessionados a particulares, mas encontram-se abandonados. [Continue Lendo]
Segundo Matavele, a arte tem esta virtude de reconstruir laços comunitários, revitalizar espaços urbanos e devolver significado a áreas marcadas por experiências negativas.

Fonte: Jornalnotícias

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