Diz uma frase famosa que “a gratidão é a memória do coração”. Foi precisamente este pensamento atribuído ao filósofo grego Antístenes (440 – 365 a.C.) o escolhido para caracterizar o livro de crónicas “Metamorfoses da Terra”, do jornalista moçambicano Victor Máquina.
Recorreu-se a este pensamento por se considerar a obra, lançada na quarta-feira, na cidade de Maputo, como um retrato de Nampula, uma das províncias mais populosas do país, uma terra acolhedora e empenhada no crescimento dos seus filhos e que, ainda assim, poucos se lembram de agradecê-la.
“Nampula é muito procurada pelos benefícios que oferece, mas nem sempre é assumida como parte da identidade daqueles que nela encontram oportunidades. Muitos não a assumem”, considera o professor João Saltiel, que deixou ficar alguns comentários sobre o livro de 31 crónicas distribuídas por 210 páginas.
Segundo o académico, do ponto de vista literário, a “Metamorfoses da Terra” destaca-se pela linguagem emotiva e pelo recurso constante à personificação. “É um convite à reflexão sobre pertença, identidade, gratidão e cidadania selectiva. O autor desafia os leitores a reconhecerem o valor de Nampula como uma comunidade que merece respeito, valorização e compromisso de todos aqueles que nela constroem as suas vidas”, afirmou.
Outro aspecto destacado por Saltiel é a “metáfora da arquitectura”, que não se refere apenas a edifícios, mas sobretudo à capacidade de conceber ideias, organizar projectos colectivos e moldar destinos.
“O autor considera que a história de Moçambique não pode ser compreendida sem regressar à visão daquela geração que conseguiu unir povos, culturas e interesses diversos em torno de um objectivo comum: a libertação nacional”, explicou, acrescentando que, em termos literários, esta metáfora é extremamente rica por permitir a ligação entre diferentes dimensões da experiência humana.
“Cada decisão política é apresentada no livro como um traço no desenho de uma obra colectiva, cujas consequências podem durar décadas”, comentou.
Por seu turno, o professor Agostinho Livieque, desafiado a apresentar a obra, considera “Metamorfoses da Terra” uma leitura social e política de Moçambique, baseada em mais de 20 anos de experiência jornalística de Victor Máquina.
“Nessa perspectiva, este livro simboliza a inconformidade perante o absurdo, a negação de um pacifismo aparente e a exaltação da grandeza de um povo que constitui o maior grupo etnolinguístico do país, o povo emakhuwa”, observou, destacando temas transversais como educação, sociologia, teoria do conhecimento, psicologia e política.
Segundo Livieque, as citações presentes no livro revelam a frontalidade e o inconformismo do autor, qualidades usadas para fazer da crónica social um instrumento essencial na construção de uma sociedade mais justa, representativa e racional.
“Vivemos numa sociedade composta por pessoas que anseiam pela verdade, mas que odeiam ou ofendem aqueles que a dizem. O caminho de quem fala a verdade sempre foi difícil. Basta recordar que, segundo as escrituras, Jesus Cristo veio à Terra para salvar a humanidade e acabou crucificado”, considerou.
Entretanto, Máquina afirmou que “Metamorfoses da Terra” procura captar o pulsar da política naquele que é o maior círculo eleitoral do país, discutindo, por exemplo, a elevada abstenção registada nas eleições autárquicas de 2023.
“Nampula inscreveu pouco mais de 3,2 milhões de eleitores. Fomos a província com o maior número de inscritos e, ainda assim, menos de um milhão participou no processo”, lamentou. O autor aborda igualmente questões ligadas à gestão municipal e fenómenos como a pobreza material e mental. Neste contexto, desafia as percepções sociais com uma pergunta provocadora: “Aqui surge a minha questão: viver bem em Moçambique é, necessariamente, sinal de que alguém é ladrão?”, questionou.
Fonte: Jornal Noticias