Manutenção de autocarros inquieta passageiros

by Biston Gule

A qualidade da manutenção dos autocarros das empresas municipais e cooperativas de transporte público de passageiros pelas entidades contratadas pelo Governo preocupa os utentes, que a classificam como sendo defeituosa. Nesse sentido, pedem responsabilização das oficinas envolvidas em casos de incumprimento. Num passado recente, as operadoras queixavam-se de vários problemas protagonizados pelas oficinas, dentre os quais a péssima qualidade dos serviços prestados, as peças pirateadas, o óleo sem qualidade e até abandono do contrato de manutenção sem a correspondente denúncia. Em consequência, houve casos de autocarros avariados na via pública, em pleno serviço de transporte de passageiros, devido a falhas mecânicas. Também se registaram casos de autocarros nos quais, depois de terem sido recebidos pelos proprietários, se detectou problemas de motor desde o fabrico. Um deles foi apresentado na oficina contratada para reparação, sem sucesso. E, para ultrapassar a questão, a solução foi a compra de um novo motor.

Utentes questionam a qualidade da mão-de-obra da nova empresa que ganhou o concurso de manutenção dos novos autocarros. Francisco Guerra é um dos utentes de transporte público, na cidade de Maputo, que está preocupado com o mau estado e avarias dos meios, devido à falta de manutenção. Alguns destes se encontram parqueados nas oficinas das empresas municipais de transporte e outras nos parques das cooperativas. Enumerando os problemas mais frequentes, apontou que alguns autocarros não têm vidros nas portas e janelas, noutros faltam espelhos. Há os que as portas já não fecham. Às vezes, perdem freios em movimento, colocando em risco a vida dos cidadãos. “O Governo continua a gastar dinheiro para alocar autocarros às empresas municipais. Pedimos que os gestores dessas empresas sejam responsabilizados em caso de paralisação dos meios.

Há muita negligência. Deve haver também rigorosidade na contratação dos motoristas”. Por sua vez, Timóteo Langa referiu que a falta de manutenção tem prejudicado os utentes. “Na semana passada, apanhei um autocarro na Praça dos Trabalhadores com destino a Matola-Gare que avariou na paragem da Manga, e não tivemos qualquer socorro”, afirmou. Em consequência, contou que os passageiros ficaram uma hora à espera de um outro transporte, sem sucesso. “Fiz ligações. Apanhei um autocarro até Machava-Socimol, e de lá um outro para o destino final. Além de me atrasar, gasta mais dinheiro.” Para aquele cidadão, esta situação revela que há deficiência na manutenção dos autocarros e ninguém é responsabilizado quando o passageiro é lesado pela avaria. “Para que os novos autocarros tenham maior tempo de vida, é preciso que a empresa responsável pela manutenção preste serviços de qualidade. Em casos de falhas, deve assumir a culpa, de contrário, em menos de um ano teremos estes carros parqueados nas oficinas”, prognosticou. “É frequente ver autocarros parados na via devido a falhas mecânicas.

Nunca tive o azar de apanhar um carro e avariar pelo caminho, mas assistimos a esse tipo de situações quase todos os dias. Temos a cultura de não responsabilizar judicialmente as pessoas pelos seus erros, por isso estes problemas são frequentes”, considerou Nelson Matombe, outro utente. Mesmo reconhecendo a importância que a nova empresa contratada terá na manutenção dos novos autocarros, o nosso entrevistado referiu ainda que o problema vai continuar, em caso de o Governo não responsabilizar as entidades que prestam péssimos serviços. “Quando trouxeram os anteriores machimbombos, entregues às cooperativas, havia garantia de que a manutenção seria subsidiada pelo Governo. Não foi executada, por isso assistimos a casos de autocarros que perdem controlo em movimento.  Nunca vimos que uma entidade foi responsabilizada por negligência”.

Oficina simba tranquiliza utentes A Reportagem do domingo visitou a oficina Simba, empresa que tem o acordo com o Governo para prestar os serviços, na cidade da Matola, província de Maputo. No local, estão alguns autocarros a serem preparados para a circulação. Na ocasião, foi assegurado que a instituição tem mecânicos profissionais, alguns destes idos da China, país onde foram adquiridos os autocarros. Uma fonte da empresa explicou que os problemas verificados nas primeiras semanas de circulação dos novos autocarros devem-se à falta de domínio no manuseio ou distracção por parte dos motoristas. Antes destes começarem a circular houve formação, por forma a evitar constrangimentos. As capacitações vão prosseguir até que todos os condutores tenham domínio do funcionamento dos veículos. Neste âmbito, a empresa conta com oficinas centrais distribuídas pelas três zonas do país. Assim sendo, a da Zona Sul está localizada na Matola; do Centro, na cidade da Beira; e da Zona Norte, em Nampula.

As intervenções destas unidades são reforçadas por oficinas móveis, que estão a atender as províncias que não têm as fixas. A empresa mostra-se preparada para responder ao mercado nacional e internacional. Tem ainda o plano de nos próximos anos estender os serviços de manutenção e alocação de autocarros no Reino do Eswatini. Referir que, até num passado recente, o Governo tinha rubricado um acordo com as empresas Matchedje e Sir Motors para garantirem a manutenção de autocarros, na altura, alocados às cooperativas de transporte de passageiros e empresas municipais de transporte público de passageiros. Contrato permite substituição O Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Agência Metropolitana de Transporte de Maputo, Fernando Andela, referiu que, em caso de problema de fabrico, o contrato prevê a substituição dos autocarros ou reposição de peças.

Explicou ainda que a empresa contratada tem experiência na manutenção de viaturas e trabalha directamente com o fornecedor dos autocarros. “Neste concurso, o Governo condicionou que o fornecedor tivesse oficinas capazes de garantir vida útil aos carros. A introdução de oficinas móveis em cada região é resposta a um estudo que visa facilitar o atendimento. No entanto, em função da gravidade da avaria, a viatura pode ser levada para a central, onde tem todo o equipamento”, referiu Andela. O dirigente assegurou que o Governo vai monitorar a manutenção dos autocarros, com vista a garantir mais anos de vida aos meios. O conceito que se criou desta vez é que o fornecedor é quem garante a manutenção dos autocarros.

Neste caso coincide com o fabricante. Falando sobre a fábrica Matchedje, Andela disse que esta não era fabricante, nem fornecedor, mas um operador que ganhou o concurso para prestar os serviços. Matola confiante Édson Ussaca, Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Empresa Municipal de Transporte Público da Matola (ETM), disse que a oficina trabalha com o município desde princípios de 2022. “A empresa vinha fazendo a manutenção dos autocarros movidos a gás da ETM. Estamos tranquilos porque os meios anteriormente intervencionados por esta empresa continuam a operar. Esta unidade veio alavancar o ramo do transporte de passageiros”.

O município da Matola recebeu este ano 50 novos autocarros movidos a gás, os quais reforçaram a frota e permitiram a abertura de novas rotas. Avança projecto de montagem de veículos O Governo vai lançar, brevemente, um concurso público internacional para seleccionar um parceiro privado destinado à implantação de uma unidade industrial de montagem de veículos automóveis, cujo objectivo é impulsionar a industrialização nacional e reduzir os custos do transporte público. O outro objectivo consiste na transferência de tecnologia e no desenvolvimento de capacidades técnicas nacionais ligadas à indústria automóvel. A implantação da montagem de veículo surge como medida para fazer face aos custos elevados da aquisição de autocarros, à dificuldade de concepção de autocarros ajustados à realidade do país e à flexibilidade na mobilização da frota.

A iniciativa foi anunciada recentemente na sessão do Conselho de Ministros, pelo porta-voz Ussene Isse. Na ocasião, referiu que vai, igualmente, estimular a participação do sector privado, promover a substituição de importações e criar novas oportunidades de emprego. “Pretendemos promover a industrialização, garantir a substituição de importações e estimular a economia nacional. A implantação da fábrica visa estimular o uso de energias limpas e sustentáveis para o transporte, como gás e energia eléctrica”, apontou. Ussene Isse defendeu ainda que a produção local poderá permitir uma redução significativa dos custos operacionais e de manutenção das frotas, contribuindo para uma resposta mais eficiente às necessidades de mobilidade da população.

Fonte: Jornaldomingo

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