Sérgio Langa e Joana Matenga criticam pobreza semântica e sensacionalismo das televisões moçambicanas em novo livro

by Telma Mandlate

Os académicos Sérgio Jeremias Langa e Joana André Matenga, docentes da Escola Superior de Jornalismo (ESJ), lançam esta quarta-feira, 24 de Junho, em Maputo, a obra INFOVULA: do Pauperismo Semântico à Qualidade da Informação da Televisão em Moçambique, um livro que procura diagnosticar os problemas da informação televisiva no país e apresentar uma alternativa teórica para melhorar a qualidade dos conteúdos difundidos pelos canais nacionais.

Com cerca de 170 páginas e prefácio do investigador e especialista em comunicação Ernesto Nhanale, a obra resulta de uma investigação conjunta entre especialistas das áreas da Comunicação e da Ciência da Informação.

O livro apresenta o conceito de “Infovula” como uma proposta epistemológica para enfrentar aquilo que os autores classificam como o “pauperismo semântico” da televisão moçambicana.

Em entrevista, Sérgio Jeremias Langa explicou que a obra é resultado de uma longa trajectória de estudos sobre os media e, em particular, sobre a televisão em Moçambique. Segundo o investigador, a nova publicação surge na sequência de trabalhos anteriores que analisaram a influência da hegemonia mediática global e a forte dependência das televisões moçambicanas em relação aos conteúdos importados.

“Tenho me dedicado muito à investigação sobre televisão. Este é o terceiro livro que escrevo sobre a televisão moçambicana e o quarto da minha carreira académica”, afirmou.

No livro Rebanho Desorientado: dos Enlatados Televisivos à Moçaxiologia, lançado anteriormente, Langa discutiu as implicações culturais e educativas da presença massiva de programas estrangeiros nas grelhas televisivas nacionais. Agora, em parceria com Joana Matenga, especialista em Ciência da Informação, o foco desloca-se para a qualidade da informação produzida e difundida pelas televisões.

“Nós queríamos compreender até que ponto a informação transmitida pela televisão contribui para a produção de conhecimento.

A televisão não serve apenas para entreter; também informa e educa. Por isso, era importante analisar a qualidade dessa informação”, explicou. Pauperismo semântico.

A investigação concluiu que grande parte dos conteúdos televisivos apresenta limitações significativas em termos de profundidade e riqueza informativa.

Para os autores, esta pobreza manifesta-se na circulação de discursos superficiais, pouco contextualizados e incapazes de contribuir para uma compreensão mais aprofundada da realidade social. “Constatámos que os conteúdos são pobres do ponto de vista semântico.

A isso chamamos pauperismo semântico”, afirmou o académico. A partir deste diagnóstico, o livro apresenta o conceito de “Infovula”, uma teoria desenvolvida pelos investigadores como alternativa ao problema identificado.

A designação resulta da fusão entre a palavra “info”, derivada de informação, e “vula”, termo da língua changana associado ao acto de falar e comunicar.

“O Infovula é uma proposta epistemológica que procura reforçar a relação entre informação e comunicação, contribuindo para uma televisão que produza conhecimento e promova um debate público mais qualificado”, explicou Langa. Televisão legitima discursos.

Um dos aspectos centrais da obra é a análise do papel da televisão enquanto espaço de legitimação social. Segundo o investigador, tudo aquilo que é transmitido pela televisão tende a ser recebido pelo público como verdadeiro e credível, o que aumenta a responsabilidade dos profissionais envolvidos na produção de conteúdos.

“A televisão é um espaço de legitimação de discursos. Quando um discurso pobre ou mal fundamentado é legitimado pela televisão, ele passa a influenciar a forma como as pessoas compreendem a realidade”, defendeu.

Na sua perspectiva, um dos problemas actuais está relacionado com a crescente presença de comentadores e intervenientes sem preparação adequada para abordar temas complexos, o que pode contribuir para a desinformação e comprometer a função educativa dos media.

“Quando colocamos alguém sem competência numa determinada área para comentar assuntos complexos, estamos a legitimar um discurso problemático que pode gerar mais desinformação do que conhecimento”, alertou o comunicólogo. Os autores associam igualmente a degradação da qualidade informativa à expansão de práticas sensacionalistas e à procura constante por conteúdos de forte impacto emocional.

Na visão de Langa, este fenómeno alimenta aquilo que define como “infodemia”. “Uma televisão que desinforma não produz conhecimento. E quando essa desinformação é reproduzida por outros órgãos de comunicação, entramos num ciclo de infodemia”, afirmou. “O jornalismo está a morrer”.

Durante a entrevista, o académico retomou uma posição que já havia manifestado anteriormente, ao defender que o jornalismo atravessa uma crise profunda, não apenas em Moçambique, mas em todo o mundo.

Para sustentar a sua tese, apontou a crescente incapacidade das televisões de captar e manter a atenção dos públicos, sobretudo dos mais jovens.

“Quantos jovens conseguem hoje ficar uma hora a assistir televisão? Nem trinta minutos. Isso já é um sintoma de que existe alguma coisa que não está bem”, observou. O investigador revelou ainda que há mais de um ano deixou de consumir televisão tradicional de forma regular, privilegiando plataformas digitais e conteúdos seleccionados de acordo com os seus interesses.

Apesar disso, defende que a actual crise dos media deve ser analisada cientificamente e não apenas com base em percepções ou opiniões.

“Não podemos resolver um problema que ainda não conseguimos diagnosticar. O nosso papel, enquanto cientistas, é compreender e explicar os fenómenos sociais para abrir caminhos que permitam encontrar soluções”, sustentou.

Além do lançamento do INFOVULA, Sérgio Jeremias Langa revelou que se encontra na fase final de preparação de uma nova obra científica, actualmente concluída em cerca de 95%.

Trata-se de um livro colectivo que reunirá diversos autores e investigadores, cada um responsável por um capítulo específico. A publicação deverá ser lançada ainda este ano por uma editora internacional.

Fonte: Evidências 

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