NASA estuda “afundar” a Estação Espacial Internacional.

Comunidade cientifica marinha alerta para riscos ambientais

A retirada de órbita terrestre controlada da Estação Espacial Internacional (ISS – sigla em inglês), prevista para meados de 2030, está a levantar preocupações entre especialistas em conservação marinha e alertam para possíveis impactos no oceano.

É do conhecimento público o fim da vida útil da Estação Espacial Internacional, com a Agência espacial norte-americana (NASA) a prepara-se para pôr fim a uma das maiores infraestruturas alguma vez construídas no espaço. O plano, que prevê uma retirada de órbita controlada nos próximos anos, está agora sob escrutínio – não apenas por questões técnicas, mas também por questões ambientais.

Segundo informações avançadas na página electrónica da Space.com, que divulga notícias sobre várias atividades ligadas ao espaço, a NASA delineou um processo em várias fases para a retirada da ISS.

Numa primeira etapa, prevista para o início ou meados de 2028, a estação espacial deverá começar a perder altitude, recorrendo a uma combinação de arrasto atmosférico natural e manobras conduzidas pelo segmento russo da estação.

Mais tarde, em 2029, entrará em ação um Veículo de ‘Desorbitação’ dos Estados Unidos (USDV), desenvolvido pela SpaceX e financiado pelo governo norte-americano. Este veículo deverá acoplar-se à estação e utilizar, segundo a empresa de Elon Musk, 46 propulsores Draco para guiar a ISS até à reentrada final na atmosfera terrestre.

Ilustração artística da variante da Dragon da SpaceX que servirá como veículo de retirada de órbita da Estação Espacial Internacional. (Crédito da imagem: SpaceX)

Destino: o “Ponto Nemo”

É a primeira vez que se retirar do espaço e fazer cair na Terra uma infrastreutura do tamanho de um campo de futebol. Um feito que, se mal gerido e calculado, pode trazer graves consequências.

O objetivo é fazer com que os destroços da ISS caiam numa zona remota do Pacífico Sul conhecida como Ponto Nemo — o local mais distante de qualquer costa habitada e frequentemente utilizado como “cemitério” de veículos espaciais.

O “Ponto Nemo” (marcado a vermelho), no sul do Oceano Pacífico, é o local mais distante da costa do que qualquer outro ponto na Terra. Ele também abriga o maior “cemitério de naves espaciais” do mundo.(Crédito da imagem: PGC/NASA IBCAO Landsat/USGS/Google)

De acordo com o plano, grande parte da estrutura deverá desintegrar-se durante a reentrada. No entanto, como refere a Space.com com base num relatório do Escritório de Responsabilidade Governamental dos EUA (GAO), os componentes maiores e mais densos poderão sobreviver e atingir o fundo do mar. Algo que não agrada os defensores da preservação oceânica.

A escolha desta localização procura minimizar riscos para populações humanas. Ainda assim, levanta outras questões menos discutidas.

Preocupação crescente entre especialistas

A Ocean Foundation, uma organização dedicada à proteção dos oceanos, considera que este plano “levanta sérias preocupações para a saúde marinha”, como sublinhado pelo presidente, Mark Spalding, citado pela Space.com.

Entre os principais problemas está a falta de conhecimento sobre os impactos diretos da queda de detritos espaciais de grande escala nos ecossistemas oceânicos (Créditos imagem: NASA / StockTrek Images via AFP).

“Não sabemos exatamente que materiais sobreviverão à reentrada nem que efeitos terão nos ecossistemas marinhos”, referiu Spalding, apontando a incerteza científica como um dos maiores riscos.

Outro ponto crítico identificado pelos especialistas prende-se com o enquadramento legal. Segundo explicado no artigo da Space.com, a Convenção sobre Responsabilidade Espacial de 1972 obriga os países a compensar danos causados por detritos espaciais em território de outros Estados. No entanto, essa proteção não se estende aos oceanos.

Isto significa que, ao direcionar a queda para o alto-mar, as agências espaciais não enfrentam obrigações legais de compensação ambiental — uma “lacuna estrutural preocupante”, nas palavras de Spalding.

“O facto de o oceano estar longe da presença humana não significa que tenha menos valor ou seja menos vulnerável”, alertou o responsável.

Impactos ainda por estudar

Para além dos efeitos no fundo do mar, existem também dúvidas sobre o impacto da reentrada na atmosfera terrestre. Tratando-se da maior operação de uma retirada de orbita, de uma estrutura espacial, alguma vez realizada, alguns especialistas defendem que deverá ser alvo de estudos mais aprofundados.

Nesse contexto, ganha relevância o recente Acordo BBNJ (Biodiversity Beyond National Jurisdiction), que prevê avaliações de impacto ambiental para atividades com efeitos potenciais nos oceanos fora das jurisdições nacionais.

Segundo os críticos, é legítimo questionar se a retirada de orbita da ISS não deveria estar sujeita a esse tipo de avaliação.

A Ocean Foundation defende que, antes da execução do plano, sejam tomadas várias medidas, incluindo:

  • Uma avaliação completa dos impactos ambientais, tanto no oceano como na atmosfera;
  • A divulgação pública dos materiais que poderão atingir o fundo do mar;
  • Uma análise jurídica detalhada à luz do direito internacional marítimo.

Para os especialistas, o caso da ISS pode tornar-se um precedente importante. “Os oceanos não têm um soberano que possa exigir responsabilidades”, concluiu Spalding, citado pela Space.com. “E este é precisamente o tipo de situação que mostra por que razão essa lacuna precisa de ser resolvida.”

Fonte: RTP Noticias

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