Documentos de importação, registos aduaneiros, matrículas alteradas e peças dispersas entre membros da mesma corporação estão a desmontar a versão oficial, apresentada esta segunda-feira, segundo a qual um agente do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) adquiriu “de boa-fé” a Toyota Hilux D4D pertencente a Benjamim Zacarias Bié, conhecido por “Cowboy”. A viatura desapareceu no mesmo dia em que o empresário foi dado como desaparecido e reapareceu meses depois nas mãos de um agente do SERNIC, já pintada de outra cor, com matrícula nacional e acompanhada por documentação que indica uma suposta importação por via do Porto de Maputo, ocorrida semanas depois do homicídio.
Pelo caminho, surgem ainda referências a um segundo agente alegadamente na posse das jantes originais da carrinha e a um processo-crime cujo paradeiro permanece envolto em dúvidas, num caso que expõe contradições profundas e levanta novas questões sobre o eventual envolvimento de elementos da própria instituição encarregue de investigar o crime.
Era manhã (cedo) de 28 de Abril de 2026 quando pescadores que se encontravam nas margens do rio Incomáti, no distrito de Marracuene, avistaram um corpo desovado junto à improvisada barreira de protecção de pneus ali existente. O cadáver, em avançado estado de decomposição, apresentava sinais de violência. Os braços estavam amarrados por uma corda grossa e o corpo exhibia indícios compatíveis com tortura, para além de um bloco amarrado dando a entender que o objectivo era evitar que o corpo flutuasse.
A vítima desaparecera no dia 24 de Abril e a família, em desespero, já havia percorrido esquadras e apresentado queixas, fornecendo ao Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) todos os dados da viatura que desaparecera juntamente com o dono. Trata-se de uma Toyota Hilux D4D branca, com chassis AHTCS12G007514819, motor 2KD7393467 e registo sul-africano activo com matrícula CD 71 GB GP.
O processo-crime, instaurado na Direcção Provincial do SERNIC de Maputo, recebeu o número 608/10-08/D/2026, mas, como se veria mais tarde, esse processo tinha os dias contados, não por arquivamento, mas por um misterioso desaparecimento físico das gavetas da corporação.
Pouco depois, familiares fizeram o reconhecimento. Tratava-se de Benjamim Zacarias Bié, conhecido no seu círculo de amigos por “Cowboy”. O homicídio chocou a comunidade, mas o que parecia ser apenas mais um caso de assassinato violento transformou-se, dois meses depois, num escândalo institucional que ameaça voltar a colocar o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) no centro de suspeitas de encobrimento e cumplicidade com o crime.
No mesmo dia em que Benjamim Bié desapareceu, desapareceu também a sua Toyota Hilux. Após a descoberta do corpo, enquanto a família chorava o seu morto e o SERNIC garantia estar a investigar o caso, o carro seguia um percurso completamente diferente.
Segundo informações recolhidas pelo Evidências, a viatura foi levada para uma oficina de pintura na cidade de Maputo, onde recebeu uma ordem expressa para mudar de cor, passando de branco para cinzento.
Um crime quase perfeito e dados que não batem
Apesar da alteração das características, familiares e amigos de Benjamim Bié avistaram a Hilux cinzenta a circular em Marracuene. Apesar das alterações, reconheceram imediatamente a viatura.
“Mudaram apenas a tinta e as jantes. Quem conhecia o carro conseguia identificá-lo à primeira vista”, relatou um amigo da vítima.
A surpresa transformou-se rapidamente em indignação quando os familiares descobriram que quem se encontrava ao volante era um agente do Serviço Nacional de Investigação Criminal. Confrontado no local, o agente terá alegado ter adquirido a viatura de boa-fé a um indivíduo identificado apenas como nas como Timóteo Benjamim Bene.
A mesma versão seria mais tarde reproduzida pelo SERNIC em comunicado oficial, no qual a instituição assegura estar a realizar diligências para localizar o alegado vendedor e determinar o eventual envolvimento do agente no caso.
“No decurso do interrogatório preliminar ao agente do SERNIC encontrado na posse da viatura, declarou ter adquirido de um cidadão identificado pelo nome de Timóteo Benjamim Bene. Igualmente, afirmou que comprou a referida viatura nas condições em que a mesma se encontra actualmente e a utilizava para fins pessoais, até ao momento em que foi interpelado por familiares do legítimo proprietário. Face aos elementos até aqui apurados, o SERNIC prossegue com as diligências investigativas destinadas a esclarecer o grau do eventual envolvimento do agente na prática dos factos que lhe são imputados, bem como tendentes a localizar o alegado vendedor da viatura. Paralelamente, as investigações visam o esclarecimento das circunstâncias que culminaram com a morte do cidadão Benjamim Zacarias Bié e a responsabilização criminal de todos os envolvidos, mesmo que sejam membros do SERNIC”, escreve o SERNIC.
Documentos rebatem versão apresentada pelo agente e que o SERNIC propalou
O problema, que fez ruir a suposta tentativa do SERNIC de ilibar o seu agente, é que a documentação consultada pelo Evidências torna esta explicação extremamente difícil de sustentar. Os documentos aduaneiros e de legalização da viatura indicam que a Toyota Hilux deu entrada em Moçambique apenas em Junho de 2026, através da Terminal Internacional de Automóveis 2, no Porto de Maputo.
O Documento Único e a Autorização de Saída, emitidos sob o número 26377961294, apontam para uma data de avaliação de 5 de Junho e uma autorização de saída emitida a 8 de Junho de 2026, ou seja, dois meses depois do homicídio e depois de ter sido pintada em Maputo. O importador é, curiosamente, o agente do SERNIC, Manuel Rodrigues Mabeuane Langa.
A cronologia levanta uma contradição quase impossível de explicar. Como pode uma viatura que desapareceu em Abril, juntamente com o seu proprietário assassinado, ser formalmente importada para Moçambique apenas em Junho, pelo porto de Maputo?
A explicação é muito simples. Documentos de trânsito do veículo mostram os registos originais e os movimentos de entrada do veículo. O último movimento tinha sido no dia 12 de Janeiro, pela fronteira de Namaacha, segundo mostra a Licença de Importação e Exportação Temporária de Veículos.
A pergunta que não quer calar é: Como pode um veículo que já circulava em Maputo surgir, nos documentos oficiais, como se tivesse acabado de desembarcar de um navio?
As inconsistências não terminam aí. A documentação consultada pela reportagem trata a Hilux como uma importação comum de “veículo usado”, apesar de o automóvel possuir um histórico documental anterior e estar registado na África do Sul em nome de Benjamim Zacarias Bié.
Os papéis indicam ainda como importador e consignatário Manuel Rodrigues Mabeuane Langa, identificado por fontes próximas do processo como sendo o próprio agente do SERNIC encontrado na posse da viatura. O processo de despacho aduaneiro foi conduzido pelo despachante Muhammad Al Amin, titular do NUIT 300261620, cujo nome consta tanto da documentação alfandegária como do processo de emissão da nova matrícula nacional.
Há ainda mais elementos que alimentam as suspeitas
A situação torna-se ainda mais embaraçosa para o SERNIC devido a outro elemento revelado por fontes próximas das investigações e a cujos documentos o Evidências teve acesso. Durante as diligências, terão sido encontrados na posse do agente tanto os documentos originais sul-africanos da viatura, em nome de Benjamim Bié, como os novos documentos emitidos em Moçambique, já com a matrícula nacional CD-71GB-GP.
Com estas evidências cai por terra a tese de uma compra inocente ou de boa-fé. Afinal, como explicar que um comprador alegadamente de boa-fé tenha simultaneamente na sua posse a documentação original do legítimo proprietário e a nova documentação emitida após a alteração da identidade do veículo? Ademais, por que teria em sua posse documentos originais do carro se o mesmo entrou via Porto de Maputo, supostamente vindo do Japão?
Mas há outro detalhe que torna este caso ainda mais perturbador. Familiares da vítima afirmam que têm encontrado enormes dificuldades em obter informações sobre os autos inicialmente instaurados pelo SERNIC e falam mesmo do desaparecimento físico do processo relacionado com o homicídio.
A reportagem não conseguiu confirmar de forma independente o paradeiro actualdo processo número 608/10-08/D/2026, mas a simples existência desta suspeita contribui para aumentar a desconfiança da família.
“Primeiro desapareceu o nosso irmão. Depois desapareceu o carro. Agora temos medo que desapareça também a verdade”, afirmou um familiar.
No seu comunicado, o SERNIC assumiu o compromisso com o combate ao crime e garante que não haverá impunidade, mesmo que os envolvidos sejam membros da instituição. Mas o comunicado não esclarece as principais dúvidas do caso.
Não explica quem mandou pintar a viatura. Ocultou a existência de documentação de importação falsificados. Não fala de investigação sobre como um carro que nunca pisou o Porto de Maputo obteve documentos e processos de importação. Não aborda a alegada existência de um segundo agente na posse das jantes. É que se fala do envolvimento de um outro agente do SERNIC na posse das jantes especiais da mesma viatura, uma coincidência tão remota que roça o absurdo, sugerindo que houve um plano coordenado para desmantelar o carro e distribuir as peças entre elementos da corporação, como se estivessem a repartir os espólios de um grande assalto.
O caso pode expor mais do que a trama de um homicídio, mas também como opera a rede de falsificação de documentos de importação de viaturas e atribuição de matrícula, envolvendo as alfândegas, o INATRO, os gestores dos sistemas electrónicos de desembaraço aduaneiro, os intervenientes na verificação física do produto, entre outros.
O filme até o caso chegar ao Língamo
Quando o agente foi detido após ser neutralizado por familiares e populares, que exigiam mais respostas, houve uma guerra sem quartel na corporação, houve uma reunião interna onde os agentes se dividiram entre os que defendiam abafar o caso a todo o custo e os que exigiam transparência. Foram tensões tão altas que chegaram a verificar-se ameaças entre os próprios colegas, e foi nesse contexto que a Directora Provincial do SERNIC se deslocou a Marracuene, mas porque o caso já tinha chegado à imprensa e amplificado pelas redes sociais do jornalista Nádio Taimo, a “Boss” ordenou a transferência do agente arguido e da viatura para Língamo com a justificação peremptória de que “esse assunto já está na imprensa”, como quem assume já não ser possível controlar o dano intra-muros.
Fonte: Jornal Evidências