Assassinado de Dom Osório e prisão do padre Adelino Novais: O crime paroquial

Continua a fazer correr muita tinta, o assassinato do bispo de Quelimane, Dom Osório Citora Afonso, ocorrido a 06 de Junho na residência Episcopal, na capital da província da Zambézia.

E é notória a linha investigativa para afastar qualquer colagem do assassinato a uma encomenda política, apesar de ter sido essa a primeira suspeita quando o prelado foi achado tombado e sem vida. A detenção do padre Adelino Novais, o principal suspeito é, até agora, a diligência mais saliente deste crime paroquial.

O Padre Adelino Novais Amado, chanceler da Diocese de Quelimane (responsável pela gestão administrativa e financeira da Diocese), terá coordenado a entrada do homem que “atirou” contra o Bispo.

É o que diz a investigação preliminar. Mas segundo apurou o Canal de Moçambique, há mais um suspeito da igreja e que está sob investigações, com os telemóveis apreendidos pelo Serviço de Investigação Criminal (SERNIC): Dom Estêvão Ângelo Fernando, actual bispo da Diocese de Alto Molócuè. Para além de responder como bispo da diocese de Quelimane, Dom Estêvão, é também Administrador Apostólico da Diocese de Quelimane.

Foram encontrados a partir dos telemóveis do Dom Estêvão transferências de dinheiro recebidos do Padre Adelino Novais. As transferências entre contas bancárias e carteiras móveis ultrapassam um milhão de meticais, não se sabendo qual era a sua finalidade.

O padre Adelino Novais terá pedido recorrentemente ao Bispo do Alto-Molócuè que o levasse consigo para àquela Diocese, sobretudo quando começaram desinteligências com o Dom Osório que o colocou na mira pelos comportamentos descritos como sendo “heréticos”.

Tem mais: um telemóvel que foi enterrado no subsolo por um guarda da diocese de Quelimane, que por sinal, teria recebido bebidas do padre Adelino Novais e com as quais se embriagara juntamente com seu colega jardineiro no dia em que Arcebispo foi morto.

O celular já foi desenterrado e está na posse dos investigadores. Segundo apurou o Canal de Moçambique de uma fonte da Diocese de Quelimane, que solicitou anonimato, a morte de Dom Osório Citora Afonso terá ocorrido num contexto de clivagens internas que se agravaram nos últimos tempos, tendo de um lado o próprio Bispo de Quelimane e do outro, o padre Adelino Novais e a sua companhia.Para além de desvios do património da igreja devidamente sindicados pelo Dom Osório, há um caso que deu ignição a todo o ambiente turvo que se passou a viver na Diocese e na residência Episcopal.

Está relacionada com uma jovem novícia. Novícia é o nome que se dá a quem está no noviciado, ou seja, no período de estágio ou iniciação na ordem religiosa católica antes de fazer os votos definitivos como “irmã”. A referida jovem aspirante à vida religiosa foi afastada do convento após ter ficado grávida nas instalações da igreja.

A gravidez foi atribuída ao padre Adelino Novais Amado, circunstância que teria motivado procedimentos disciplinares no seio da Igreja. Padre Novais, na verdade, tem mais de uma mulher. Dom Osório, considerou as suas incursões sexuais incompatíveis com a disciplina e a moral eclesiásticas.

O comportamento herético do Padre Novais e da sua cúpula que compunha cúria diocesana de Quelimane, tendo o próprio padre Adelino Novais à cabeça já tinha sido colocado em nota. Em finais de Maio, o Dom Osório decapitou toda a cúria incluindo o próprio Padre Adelino Novais e para não criar ondas justificou com a necessidade “de responder aos desafios da evangelização e promover um trabalho em rede, agilizar processos administrativos e sobretudo colocar os dons e carismas de todos os baptizados ao serviço da missão”.

O processo disciplinar aberto contra o Padre Adelino Novais, já tinha uma decisão comunicada ao bispo pelas autoridades competentes do Vaticano. A fonte acrescenta que o sacerdote visado se encontraria particularmente inquieto nos dias que antecederam a morte do prelado.

Como exemplo desse estado de espírito, refere um jantar organizado pouco antes do crime, para o qual teriam sido convidados vários sacerdotes e uma religiosa que, segundo a mesma versão, desempenhara um papel importante no esclarecimento do caso da aspirante à vida religiosa.

Ainda segundo o relato, a religiosa recusou comparecer ao encontro. A fonte interpreta essa ausência como reveladora de um clima de desconfiança existente à época, embora não tenham sido encontrados elementos independentes que permitam confirmar as razões da sua decisão.

A mesma fonte refere que, durante o jantar, teria sido reservado um lugar específico para a religiosa ausente e que o organizador teria insistido várias vezes na sua presença, por meio de telefonemas, na presença de outros convidados. Tais episódios são apresentados pela fonte como indícios de acontecimentos que, na sua perspectiva, poderão ter relevância para a compreensão do contexto que antecedeu a morte do bispo.

Relativamente à noite do crime, a fonte descreve uma sequência de acontecimentos que considera suspeita. Segundo essa narrativa, o padre Adelino Novais Amado regressou ao Paço Episcopal ao início da noite e manteve um convívio prolongado com funcionários da residência.

A fonte sustenta que, durante esse período, o ambiente decorreu de forma aparentemente normal e descontraída. Ele ofereceu bebidas ao guarda e ao jardineiro, até estes ficarem bêbados. Nota biográfica Dom Osório Citora Afonso, nascido em 1972, foi bispo da Diocese de Quelimane, cargo para o qual foi nomeado pelo Papa Francisco. Natural de Ribaúe, Nampula, realizou a sua formação filosófica e teológica nos seminários católicos do País, tendo sido ordenado sacerdote antes de exercer diversas funções pastorais e administrativas na Igreja.

Ao longo do seu ministério destacou-se pelo acompanhamento das comunidades cristãs, pela promoção da formação do clero e pela sua intervenção em matérias de carácter social e moral.

Os que com ele trabalharam descrevem-no como um homem de convicções firmes, disciplinado no exercício das suas funções e atento aos desafios enfrentados pela Igreja e pela sociedade moçambicana. Osório e Adelino eram bastante íntimos.

Osório amava baste o padre detido. Mesmo depois de propor a sua expulsão, ofereceu-lhe uma bolsa de estudo, para continuar com os estudos n A sua morte provocou profunda consternação na comunidade católica de Moçambique e suscitou numerosas manifestações de pesar provenientes de instituições religiosas e civis.

Padre Adelino Novais Amado O padre Adelino Novais Amado, nascido em 1986, é sacerdote da Diocese de Quelimane. Natural de Quelimane, foi ordenado presbítero em Novembro de 2017, após concluir a sua formação sacerdotal.

Ao longo do seu percurso exerceu actividades pastorais ligadas à vida paroquial e ao acompanhamento dos fiéis da diocese. Conhecido nos meios eclesiásticos locais, participou em diversas iniciativas religiosas e comunitárias, integrando o corpo sacerdotal da Diocese de Quelimane.

O seu nome veio a público na sequência das investigações relacionadas com a morte de Dom Osório Citora Afonso. Importa sublinhar que, à luz dos princípios fundamentais do Estado de Direito, qualquer pessoa mencionada em processos de investigação beneficia da presunção de inocência até decisão judicial transitada em julgado. Entretanto, há um ambiente de cortar à faca dentro da igreja católica local.

Dom Cláudio Dalla Zuanna, Arcebispo da Beira durante quase catorze anos, distinguiu-se igualmente, por uma postura exigente em matérias de disciplina eclesiástica e de responsabilidade pastoral do clero. A

sua renúncia ao governo da arquidiocese foi oficialmente atribuída a problemas de saúde que exigem tratamento prolongado fora do País. Contudo, nos meios eclesiásticos e junto de algumas fontes próximas da Igreja, persistem especulações segundo as quais o prelado enfrentava resistências decorrentes de processos disciplinares e de medidas adoptadas no exercício do seu ministério, que o obrigaram a abrir processos disciplinares,

Até ao momento, porém, não foram apresentados elementos públicos que permitam estabelecer uma ligação comprovada entre essas alegações e a sua renúncia. Sem embargo, Dom Osório exercia desde 16 de Abril a função de administrador apostólico da arquidiocese da Beira. A sua missão se prolongaria até a nomeação do novo arcebispo.

Fonte: Canal de Moçambique

Related posts

Retornados da África do Sul: Governo sem plano de reinserção social paraas 738 vítimas de xenofobia

Serviço militar obrigatório: Pelo menos 570 recrutas seleccionados na cidade de Maputo

Aumenta fluxo de migrantes que regressam da África do Sul através de Moçambique