China testa raro míssil balístico lançado por submarino no Pacífico

by Sérgio Tinga

Teste no Pacífico aumenta tensão com países da região. Pequim não revelou que tipo de míssil foi utilizado

A China realizou esta segunda-feira um raro teste de um míssil balístico lançado por submarino no Oceano Pacífico, provocando críticas da Nova Zelândia e da Austrália, que consideram que a ação ameaça a paz e a estabilidade na região.

Um submarino da Marinha do Exército de Libertação Popular (PLA) “lançou um míssil estratégico com uma ogiva simulada em direção a uma área relevante de alto-mar no Oceano Pacífico, atingindo com precisão as águas designadas”, afirma um comunicado de Wang Xuemeng, porta-voz da Marinha chinesa.

“Este lançamento de teste fez parte da programação anual de treino militar da China”, afirma Wang, acrescentando que os “países relevantes” foram informados antecipadamente.

“A operação decorreu em conformidade com o direito internacional e com a prática internacional, não tendo como alvo qualquer país ou objetivo específico”, acrescenta.

A CNN pediu um comentário ao Ministério da Defesa da China sobre o teste.

Pequim não revelou que tipo de míssil foi utilizado.

A Marinha chinesa opera dois tipos de mísseis balísticos lançados por submarino: o JL-2 e o JL-3. Segundo especialistas em mísseis, o JL-3 tem alcance suficiente para atingir o território continental dos Estados Unidos a partir das águas ao largo da costa chinesa, incluindo o Mar do Sul da China.

O principal submarino de mísseis balísticos da China é o Type 094, também conhecido como classe Jin, da qual o país possui seis unidades.

Pequim raramente divulga os seus testes de mísseis. No entanto, de acordo com o Missile Defense Project, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), o JL-3 foi testado pela primeira vez em 2018 e voltou a ser testado um ano depois.

“Indesejado e preocupante”


O ministro dos Negócios Estrangeiros da Nova Zelândia, Winston Peters, afirma que a China disparou o míssil na segunda-feira para águas da Zona Livre de Armas Nucleares do Pacífico Sul, criada em 1986 pelo Tratado de Rarotonga. A China assinou os Protocolos II e III desse tratado em 1987.

O Protocolo II determina que os signatários não utilizem nem ameacem utilizar armas nucleares contra outros países ou territórios dentro da zona. O Protocolo III proíbe testes nucleares nessa área.

“Hoje, mais cedo, a China informou-nos dos seus planos para lançar um míssil balístico de longo alcance para o Pacífico Sul”, afirma Peters.

“A Nova Zelândia considera este desenvolvimento indesejado e preocupante. Tal como os nossos vizinhos de outros países do Pacífico, não temos qualquer interesse em que a China utilize o Pacífico Sul como local de testes para a sua capacidade de mísseis”, acrescenta.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Penny Wong, classificou o teste como “desestabilizador para a região”.

Segundo Wong, o teste deve ser analisado “no contexto de um rápido reforço militar por parte da China, que carece da transparência e das garantias quanto às suas intenções que a região espera”, acrescentando que cabe a Pequim “explicar quais são essas intenções”.

Peters afirma ainda que o teste chinês faz recordar o lançamento experimental, em 2024, de um míssil balístico intercontinental (ICBM) pela PLA na mesma região.

“Nós, enquanto região, não devemos assistir passivamente e permitir que este tipo de testes se torne normal ou rotineiro”, defende.

No entanto, testes de mísseis fazem parte da rotina das potências nucleares.

Por exemplo, em setembro do ano passado, a Marinha dos Estados Unidos realizou quatro testes de míssil balístico lançado pelo submarino Trident, ao largo da Florida, segundo um comunicado oficial.

A Índia testou um míssil balístico lançado por submarino em dezembro e a Rússia realizou um teste semelhante em outubro do ano passado.

A China tem vindo a reforçar a sua frota de submarinos de propulsão nuclear, no âmbito da expansão das suas capacidades nucleares.

O último teste chinês de um míssil balístico intercontinental lançado para o Pacífico ocorreu em setembro de 2024, quando Pequim disparou um míssil DF-31B, com capacidade nuclear, a partir da ilha de Hainan, no Mar do Sul da China, para uma zona do Pacífico próxima da Polinésia Francesa. Foi o primeiro teste chinês de um ICBM em mar aberto em 44 anos.

Um relatório do Departamento de Defesa dos Estados Unidos refere que a China realiza habitualmente testes de mísseis dentro do seu próprio território. O documento destaca que, em dezembro de 2024, o país lançou vários mísseis balísticos intercontinentais em rápida sucessão a partir de uma base de treino no oeste da China, “demonstrando capacidade para lançar rapidamente múltiplos ICBM baseados em silos”. O relatório do Departamento de Defesa norte-americano sobre o poder militar da China, publicado em dezembro de 2025, afirma que o Exército de Libertação Popular encara este tipo de testes como “uma opção para operações de dissuasão nuclear de média a elevada intensidade”.

Fonte: CNN News

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