Desenvolvimento de Moçambique entra na fase mais exigente: transformar estratégia em resultados

A Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável recoloca no centro do debate nacional uma questão decisiva: Moçambique já dispõe de visão estratégica suficiente, mas precisa de elevar a capacidade de execução, coordenação e monitoria para transformar crescimento em prosperidade efectiva.

Questões-Chave Salim Valá defende que os planos nacionais de desenvolvimento devem deixar de ser instrumentos formais e passar a produzir resultados concretos na vida dos cidadãos.

A Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique surge no encerramento simbólico do ciclo da Agenda 2025 e no arranque da ENDE 2025 2044.

O desafio central é reduzir o fosso entre planificação, orçamentação, execução e monitoria das políticas públicas. Banco Mundial, FMI e BAD convergem na leitura de que Moçambique enfrenta desafios estruturais ligados à pobreza, produtividade, emprego, vulnerabilidade climática e capacidade institucional.

A oportunidade do gás natural e dos grandes investimentos só será transformadora se gerar encadeamentos produtivos, emprego, receitas públicas sustentáveis e diversificação económica.

Da Visão Estratégica À Capacidade De Execução Moçambique voltou a colocar no centro do debate nacional uma das questões mais decisivas do seu percurso económico: como transformar planos, estratégias e visões de longo prazo em resultados concretos para os cidadãos.

A Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique, realizada em Maputo, trouxe para o mesmo espaço o Estado, parceiros de cooperação, sector privado, academia, sociedade civil, jovens e mulheres, numa tentativa de alinhar prioridades em torno de um novo ciclo de desenvolvimento nacional.

O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defendeu na abertura do evento que os planos nacionais de desenvolvimento devem deixar de ser apenas instrumentos de planificação e passar a traduzir-se em acções concretas, com impacto efectivo na vida da população.

Para o Ministro, “o maior risco não está em planificar com ambição, está em deixar um fosso entre planificar, orçamentar, executar e monitorar”. Esta formulação sintetiza uma preocupação recorrente no debate público moçambicano: o País não sofre necessariamente de ausência de diagnósticos, de planos ou de ambição estratégica.

O problema mais profundo reside na consistência da implementação, na coordenação institucional, na qualidade da despesa pública, na capacidade técnica do Estado e na transformação de prioridades nacionais em projectos executáveis, mensuráveis e monitoráveis.

A Conferência, conforme os seus Termos de Referência, surge precisamente no quadro de um novo ciclo estratégico, marcado pela aprovação da Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044, pelo alinhamento com o Pensar Moçambique 2050 e pela operacionalização através do Programa Quinquenal do Governo 2025–2029.

O objectivo declarado é realizar um balanço do percurso de desenvolvimento das últimas décadas, retirar lições da Agenda 2025 e construir consensos sobre prioridades, metas e mecanismos de acompanhamento para o futuro.

O País que cresceu, mas ainda precisa de se transformar O debate ocorre num momento em que Moçambique se confronta com um paradoxo conhecido: houve avanços relevantes em infra-estruturas, acesso a serviços, telecomunicações, energia, integração regional e atracção de grandes investimentos, mas a transformação estrutural da economia permanece insuficiente para reduzir de forma acelerada a pobreza, gerar emprego de qualidade e elevar a produtividade da maioria da população.

No discurso de abertura da Conferência, o Presidente da República, Daniel Chapo, reconheceu que Moçambique consolidou conquistas importantes entre 2000 e 2025, incluindo paz, reforço das instituições do Estado, expansão da rede escolar e sanitária, alargamento do acesso à energia, telecomunicações, estradas e outras infra-estruturas essenciais.

Mas também sublinhou que persistem pobreza, desigualdades territoriais e sociais, limitações de produtividade, dificuldades de industrialização e desafios na geração de rendimento e emprego digno, sobretudo para jovens e mulheres. A leitura converge com avaliações recentes de instituições internacionais.

O Banco Mundial observa que a expansão económica moçambicana continua concentrada em sectores intensivos em capital, com limitada criação de emprego formal, num contexto em que a informalidade domina o mercado de trabalho e a agricultura absorve mais de 70% da população, embora com baixa produtividade e elevada vulnerabilidade climática.

O FMI, na sua avaliação de 2026 sobre Moçambique, também assinala um ambiente macroeconómico complexo, marcado por crescimento fraco, vulnerabilidades fiscais e de dívida, redução da ajuda externa, necessidades sociais elevadas, limitações de capacidade institucional e exposição recorrente a desastres naturais.

Ao mesmo tempo, reconhece que o sector dos recursos naturais continua a oferecer uma oportunidade relevante, desde que as futuras receitas sejam geridas de forma prudente e canalizadas para responder às necessidades de desenvolvimento.

A questão, portanto, não é apenas crescer. É crescer de forma diferente. Crescer com produtividade, emprego, inclusão territorial, diversificação produtiva, empresas nacionais mais fortes e instituições públicas capazes de executar políticas com previsibilidade. O Fosso entre planificar e entregar Ao colocar a execução no centro da sua intervenção, Salim Valá tocou num dos pontos mais sensíveis da governação económica.

O ciclo de desenvolvimento que se inicia com a ENDE 2025–2044 exige mais do que documentos bem estruturados. Exige um sistema de implementação capaz de ligar prioridades políticas a orçamentos realistas, projectos tecnicamente preparados, mecanismos de monitoria, responsabilização institucional e avaliação independente de resultados.

É neste ponto que a planificação deixa de ser apenas um exercício técnico e passa a ser um instrumento de governação. Planificar significa escolher. Orçamentar significa hierarquizar. Executar significa coordenar recursos, instituições e capacidades. Monitorar significa medir se aquilo que foi prometido está efectivamente a chegar às escolas, hospitais, estradas, sistemas de abastecimento, redes de energia, empresas, agricultores, jovens e famílias.

A Conferência foi concebida, de acordo com os seus documentos de enquadramento, para produzir resultados concretos, incluindo um balanço do desenvolvimento 2000–2025, consensos sobre a visão estratégica, um mapa de prioridades de aceleração, um roteiro nacional de transformação e uma declaração política de alto nível. O valor desses resultados dependerá, porém, da sua capacidade de influenciar decisões reais.

A Declaração que sair de uma Conferência deste tipo só ganhará relevância se for convertida em prioridades orçamentais, reformas sectoriais, metas institucionais e mecanismos de prestação de contas. Sem essa ponte, o risco é transformar um momento de elevada qualidade política e técnica em mais um exercício declaratório. Recursos naturais não bastam Um dos temas estruturantes do debate é o papel dos recursos naturais, em particular o gás natural, na transformação económica de Moçambique. O País dispõe de uma das maiores oportunidades energéticas do continente, mas a experiência internacional mostra que riqueza extractiva não se converte automaticamente em desenvolvimento.

O próprio Presidente Daniel Chapo sublinhou que a abundância de recursos, por si só, não produz desenvolvimento. O desafio da actual geração, afirmou, é transformar riqueza natural em riqueza nacional e crescimento económico em desenvolvimento inclusivo e sustentável. Esta distinção é decisiva.

Riqueza natural é potencial. Riqueza nacional é capacidade acumulada: empresas, competências, infra-estruturas, tecnologia, receitas públicas bem geridas, emprego produtivo, capacidade exportadora e melhoria efectiva das condições de vida. O gás pode elevar o PIB, melhorar as receitas fiscais futuras e aumentar a relevância geoeconómica do País.

Mas só será transformador se gerar ligações profundas com a economia doméstica. Isso implica fortalecer conteúdo local, desenvolver cadeias de valor, preparar pequenas e médias empresas, melhorar formação técnica, planear infra-estruturas complementares, reforçar transparência fiscal e evitar que o crescimento extractivo conviva com uma economia interna de baixa produtividade.

A questão central não é apenas quanto o gás acrescentará ao PIB, mas quanto acrescentará à capacidade produtiva nacional. O Banco Africano de Desenvolvimento projecta uma recuperação gradual da economia moçambicana, apoiada pelo sector extractivo, consumo privado e investimento, mas alerta que os riscos continuam associados a factores como segurança, choques climáticos, tensões externas e fragilidades estruturais. Juventude, produtividade e emprego como teste da estratégia O verdadeiro teste do novo ciclo de desenvolvimento estará na capacidade de criar oportunidades para a juventude.

Os Termos de Referência da Conferência destacam que mais de 400 mil jovens entram anualmente no mercado de trabalho, colocando enorme pressão sobre a economia, o sistema educativo, a formação técnico-profissional e a capacidade do sector privado de absorver mão-de-obra qualificada.

Este é talvez o ponto mais crítico da agenda nacional. Um país jovem pode transformar a sua estrutura demográfica numa vantagem competitiva se conseguir investir em educação de qualidade, saúde, competências digitais, formação profissional, empreendedorismo e emprego produtivo.

Mas a mesma dinâmica pode tornar-se uma fonte de pressão social se a economia continuar a crescer sem gerar postos de trabalho em escala suficiente. Por isso, a inclusão não pode ser vista apenas como protecção social ou distribuição de benefícios. Inclusão significa integrar pessoas na economia produtiva.

Significa permitir que jovens, mulheres, agricultores, pequenos empresários e trabalhadores informais tenham acesso a conhecimento, financiamento, mercados, tecnologia e infra-estruturas. Significa reduzir a distância entre a economia moderna dos grandes projectos e a economia quotidiana onde vive a maioria dos moçambicanos.

O Banco Mundial tem insistido que a agenda de crescimento inclusivo em Moçambique depende, em larga medida, da capacidade de desbloquear oportunidades económicas, reforçar o papel do sector privado e gerar empregos em escala.

A nova estratégia do Banco Mundial para Moçambique, referente ao período fiscal 2026–2031, coloca precisamente a criação de crescimento inclusivo, resiliente e intensivo em emprego entre os seus eixos centrais.

O Desenvolvimento como pacto Nacional A presença de diferentes actores na Conferência confirma que o desenvolvimento já não pode ser concebido como tarefa exclusiva do Governo.

A execução cabe ao Estado, mas a transformação exige um pacto mais amplo: empresas que investem e inovam, universidades que produzem conhecimento útil, parceiros que financiam com alinhamento estratégico, sociedade civil que fiscaliza, jovens que participam, comunidades que se apropriam das prioridades e instituições que prestam contas. No seu discurso, Daniel Chapo afirmou que nenhuma estratégia nacional terá sucesso se não for apropriada por toda a sociedade.

A Conferência, nesse sentido, pretende culminar numa Declaração de Maputo que sintetize uma visão partilhada, prioridades estratégicas e compromissos colectivos para acelerar um desenvolvimento mais inclusivo, sustentável e transformador.

Esta ideia é particularmente importante num país marcado por assimetrias regionais, vulnerabilidade climática, pressão demográfica, fragilidades institucionais e dependência de grandes projectos.

O desenvolvimento sustentável exige continuidade. Não pode ficar preso a ciclos eleitorais, mudanças administrativas ou agendas sectoriais isoladas. Precisa de coordenação, estabilidade, transparência e capacidade de execução ao longo do tempo.

A Nova etapa será medida por resultados A Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique é relevante não apenas pelo que discutiu, mas pelo momento em que acontece.

O País encerrou simbolicamente o ciclo da Agenda 2025, celebrou 51 anos de Independência Nacional e inicia uma nova etapa em que a ambição de independência económica se torna mais exigente.

O ponto essencial é que Moçambique já sabe, em grande medida, quais são os seus desafios: pobreza persistente, baixa produtividade, fraca industrialização, informalidade elevada, vulnerabilidade climática, dependência de recursos naturais, capacidade institucional limitada e insuficiente criação de emprego formal.

Também conhece muitas das suas oportunidades: gás natural, localização estratégica, corredores logísticos, agricultura, energia, turismo, juventude, economia azul, integração regional e recursos minerais.

O que agora se coloca é a qualidade da execução. A diferença entre o Moçambique projectado nas estratégias e o Moçambique vivido pelos cidadãos dependerá da capacidade de transformar visão em orçamento, orçamento em projectos, projectos em serviços e serviços em melhoria real da vida das pessoas.

É por isso que a mensagem de Salim Valá tem particular peso político e económico: os planos precisam sair do papel. A nova fase do desenvolvimento moçambicano será julgada menos pela ambição dos documentos e mais pela capacidade de entregar resultados concretos, mensuráveis e sentidos no quotidiano da população.

Fonte: O.Económico

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