“Trump não esquece” e “cobra sempre”. EUA acabam de dar uma “oferta cruel” à Ucrânia

Na cimeira da NATO, sentado ao lado de Zelensky, o presidente dos EUA anunciou que Washington iria conceder uma licença de produção de Patriots a Kiev. À partida, este parecia ser um bom anúncio para o esforço de guerra ucraniano, mas afinal parece que não passa de um presente envenenado pela “crueldade de Trump”. Quanto aos acordos internacionais quase diários para a venda de drones ucranianos anunciados por Zelensky, surge apenas uma dúvida: como é que um país em economia de guerra há mais de quatro anos tem esta capacidade de produção em escala?

Mais de 1.500 dias de guerra depois, o mundo parecia já ter percebido que não existem game changers ou balas de prata que tenham um imediato e real impacto no conflito na Ucrânia.

Não aconteceu com javelins, nem com os Leopard-2, a história repetiu-se com os Storm Shadows, com os F-16 mais do mesmo e, ainda assim, quando, esta quarta-feira, ouvimos Donald Trump anunciar que os EUA vão conceder uma licença para a produção de Patriots defensivos à Ucrânia voltámos a pensar: será desta que Kiev vai prevalecer? Terá isto um impacto efetivo e palpável contra a ofensiva do Kremlin? A resposta curta é “não” e, se está a pensar que esta seria uma boa notícia para Kiev, caiu na artimanha retórica do presidente dos EUA ou, como lhe chama Tiago André Lopes, na “crueldade de Trump”.

Antes de qualquer análise mais detalhada importa esclarecer que este “não é caso único e a Ucrânia não vai ser o primeiro país a ter uma licença de produção de Patriots”, como lembra o especialista em Relações Internacionais. O major-general Agostinho Costa também dá o caso do Japão como exemplo, que tem um acordo em tudo semelhante com Washington. Todavia, ambos concordam: “Não vai mudar nada” para a Ucrânia. A isto acrescenta-se ainda o facto de que, 24 horas antes do anúncio de Trump, Zelensky exacerbou, também na cimeira da NATO, que achava “absurdo” que o Ocidente  seja incapaz de aumentar os níveis de produção dos mísseis Patriot perante uma demanda cada vez maior, por culpa das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente.

Trump pegou em tudo isto e criou “uma oferta cruel” que “parece que é interessante, mas, em bom rigor, é menos interessante do que parece”. Para Tiago André Lopes, a intenção de Trump é apenas demonstrar ao resto do mundo que “a produção de Patriots, por causa dos componentes, do custo e das questões logísticas, é mais difícil do que parece”. “E, portanto, decidiram ‘vamos dar-vos a licença’ e, daqui a meio ano ou um ano, quando os ucranianos disserem que não têm Patriots, Trump vai responder ‘não, dei-vos a licença, porque não estão a produzir?'”. O especialista em Relações Internacionais defende que esta foi a forma que Washington encontrou para “transferir politicamente a culpa da ausência de Patriots”. 

“Vamos ser racionais. Trump já se queixou que havia poucos Patriots para dar, por exemplo, a Israel, que é um aliado prioritário de Washington. Achamos mesmo que a licença é para favorecer a Ucrânia? Não é para favorecer ninguém. Isto é uma transferência de culpa para dizer mais à frente: os senhores tinham licença, não produziram, culpa vossa”, diz Tiago André Lopes, replicando que a postura do Kremlin face ao anúncio dá força a esta teoria: “Qual foi a reação da Rússia até agora? Nenhuma”.

Agostinho Costa, especialista militar da CNN Portugal, entende que o anúncio de Trump “não é nada que não esteja em linha com o que tem vindo a acontecer”: “A União Europeia paga, os EUA fornecem, a Ucrânia executa”.

Dito isto, Agostinho Costa confessa que tem “sérias dúvidas de que a fábrica de Patriots venha a ser instalada na Ucrânia” face à facilidade de penetração de ataques russos na capital ucraniana, tal como aconteceu ainda há poucos dias quando a “Rússia alegadamente provocou um rebentamento de uma fábrica secreta de mísseis de Flamingo” em Kiev.  “Quando instalam toda a indústria na capital, cada vez que os russos acertam numa fábrica, há um quarteirão que desaparece”.

O major-general destaca ainda que “é preciso ter uma estrutura oleada e a funcionar” para viabilizar um projeto desta dimensão. “Não é a levar com Iskanders, com Zircons e com Shaheds a toda hora e momento, de manhã, à tarde e à noite”, que se vai conseguir concretizar a complexa produção de Patriots, remata.

Tiago André Lopes reitera que “do ponto de vista da alteração do status quo na guerra da Ucrânia, no curto e médio prazo, isto não altera uma vírgula”: “Não é dinheiro, não é capacidade defensiva, não é capacidade ofensiva, não muda nada”. O professor universitário alerta que é “importante” que “não se confunda esta licença de produção com a utilização”, sendo que esta pode muito bem ser a peça-chave para a artimanha retórica do presidente dos EUA, porque, como lembra, uma pessoa com uma licença de produção de pão mas sem uma fábrica de produção de pão vai passar tanta ou mais fome do que uma pessoa sem uma licença de produção de pão. Tiago André Lopes entende que existe “toda uma decalage” que Trump ignorou propositadamente: “No limite, Trump o que está a criar é condições para a Ucrânia produzir mísseis Patriot que os EUA poderão vir a usar no futuro, por exemplo, nas campanhas do Médio Oriente”.

“Como é que se faz uma grande instalação de fabril, uma grande unidade de fabril, num país em guerra, com dificuldade de acesso a componentes e mais? Um país que, à medida que se for aproximando o inverno, tem dificuldades até de energia. Esta é a Ucrânia que passou o inverno todo, o ano passado, com apagões de 8, 10, 12 horas. Vai produzir Patriots como?”, questiona Tiago André Lopes.

No fim da conferência ao lado de Zelensky, Trump levantou o véu sobre o que Washington está a tentar fazer e parece confirmar a linha de raciocínio dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal: “Vamos dar-lhes a licença para produzir Patriots. Vamos mostrar-lhes como fazê-lo. Na verdade, é muito complexo, mas vão perceber rapidamente a complexidade. Desta forma, não podem queixar-se de que não lhes estamos a dar o suficiente e dizer: ‘Façam-nos vocês mesmos'”.

Os drones ucranianos e os contratos de exportação são “mera propaganda”

Depois de, na terça-feira, Zelensky ter anunciado acordos para a exportação de drones com a Dinamarca, Estónia e Países Baixos, foi a vez de Trump vir dizer que os EUA poderiam vir a comprar drones a Kiev. No entanto, também este facto parece levantar estranheza entre os analistas: como consegue um país que está sob invasão há quarto anos e a operar com uma economia de guerra produzir drones numa escala suficiente para saciar a demanda interna e ainda alavancar as exportações?

Agostinho Costa acredita que estamos perante “mera propaganda” ucraniana. “É mera campanha comunicacional”, o major-general insiste que o desenvolvimento em termos de veículos não tripulados “é produção europeia”.

“Estes drones pura e simplesmente são feitos na Europa e são montados na Ucrânia, porque o que temos são fábricas europeias, é dinheiro europeu, são 60 mil milhões europeus dos 90 mil milhões que a Ucrânia recebeu”, diz.

O antigo estratega militar, sem rodeios ou floreados, lembra que a Ucrânia é hoje “um país devastado pela guerra que, sobrevive ligado ao oxigénio europeu” e antevê mesmo uma escalada do conflito para os próximos tempos: “Isto vai agravar-se, vamos ter cenas pouco agradáveis e o resto não é apenas fantasia”.

“Estamos à beira de uma escalada. Quando ouvimos Peskov dizer que a ofensiva já deixou de ser uma operação militar especial, ficam a aguardar-se as cenas dos próximos capítulos, que não deverão ser muito apelativas. O problema dos russos não é a Ucrânia, é a nova arquitetura de segurança na Europa”, antevê Agostinho Costa.

Tiago André Lopes acredita que o entusiasmo com os drones russos pode ser uma operação Kursk 2.0, quando, em 2024, também ia ser game changer da guerra para a Ucrânia, mas acabou com duas ou três brigadas ucranianas destruídas e a Rússia a ocupar ainda mais território. “Os ucranianos correm esse risco, primeiro porque convidam a Rússia a ataques em profundidade – se a Ucrânia pode atacar Moscovo e mais longe, a Rússia pode-se sentir legitimada a atacar Lviv -; o problema número dois é que os drones não invertem as perdas na frente de batalha – mesmo com estes drones ucranianos, Kostiantynivka caiu”, lembra o especialista

Quanto à capacidade de exportação ucraniana deste tipo de armamento, Tiago André Lopes lembra que a “escala de produção vai ser sempre nesta fase residual e muito pouco significativa”, porque Kiev vai os usar os drones que tiver à sua disposição para atacar a Rússia sempre que possa. E, quando passar a ser significativa, há duas hipóteses: ou acabou a guerra ou “os drones deixaram de ser militarmente relevantes” – o que fará com que também não existam interessados.

Por fim, há um momento curioso em que Trump lembra que Putin o convidou para ir a Moscovo e diz que pensou no que Zelensky faria. “Irias a Moscovo?”, perguntou o presidente dos EUA. “É difícil e perigoso, há muitos drones ucranianos por lá”, respondeu o ucraniano. 

Tiago André Lopes diz que o mundo assistiu a uma conversa entre “dois homens em modo de bazófia”. O especialista em Relações Internacionais considera que Zelensky teve uma “uma resposta inteligente, mas é uma boa resposta apenas até ao momento em que Trump não queira virar a resposta contra ele”. Zelensky parece ter-se esquecido de uma traço de personalidade do homem que tinha à sua frente: “Trump não esquece. Trump já nos provou isso. Trump não esquece N-A-D-A”.  “Mais à frente, pode interpretar esta resposta como falta de vontade negocial. Assim que lhe der jeito, Trump vai dizer: ‘a Rússia até disse para ele ir a Moscovo, eu disse-lhe para ele ir a Moscovo e ele não foi a Moscovo'”, aponta o especialista, criticando o facto de o presidente da Ucrânia ter feito uma espécie de “gracinha” com esta pergunta. “Como se isto tivesse piada, como se o processo negocial para cessar uma guerra com mais de quatro anos tivesse alguma coisa de humorístico”, culmina Tiago André Lopes.

Fonte: CNN PORTUGAL

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