O assassinato violento do bispo da Diocese de Quelimane, Dom Osório Citora Afonso, continua a gerar das mais várias repercussões interna e internacionalmente. Não era para menos: o bispo foi assassinado com recurso a uma arma de fogo em plena casa pastoral em Quelimane e há padres detidos em conexão com o crime. Uma delegação da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) deslocou-se ao Vaticano a convite do Papa Leão XIV para prestar informações relativas ao assassinato do prelado.
As partes exigem que a verdade seja dita, para além de um rápido e transparente esclarecimento do assassinato do bispo por parte das autoridades moçambicanas, tendo deixado garantias de colaboração em tudo o que for necessário.
A equipa missionária que seguiu para Roma foi composta pelo bispo metropolitano de Nampula, que também exerce as funções presidente da CEM, Dom Inácio Saure, acompanhado pelo bispo da Arquidiocese de Maputo e vice-presidente da CEM, Dom João Carlos Nunes e pelo bispo emérito da Diocese da Beira, Dom Cláudio Dela Zuanna.
A audiência teve lugar na passada sexta-feira (03) e esta quinta-feira os bispos fizeram o rescaldo da viagem em conferência de imprensa, na capital do país. O presidente da CEM, Dom Inácio Saure, disse que a Santa Sé confortou a Igreja Católica em Moçambique e apelou para que não caia em desespero. Manifestou disponibilidade da CEM em colaborar com as autoridades moçambicanas rumo ao rápido e transparente esclarecimento do assassinato de Dom Osório Citora, no passado dia 5 de Junho, no Paço Episcopal, residência oficial do bispo.
O bispo metropolitano de Nampula sublinhou a necessidade de as autoridades nacionais dizerem a verdade sobre o assunto. “Deve-se dizer a verdade, nada mais que a verdade”, frisou.
Por seu turno, o bispo da Arquidiocese de Maputo e vice-presidente da CEM, Dom João Carlos, disse que a morte de Dom Osório representa uma profunda preocupação para a Igreja, sobretudo por ter ocorrido dentro da sua própria residência, local considerado seguro. Segundo Dom João Carlos, quando a Igreja forma sacerdotes, entrega a bíblia e não a arma, como aquela que foi usada para o cometimento do crime. Referiu que a Igreja não tem nenhum centro de formação bélico, sublinhando a necessidade de se dizer a verdade sobre o assassinato do bispo de Quelimane. A delegação da CEM, que escalou ao Vaticano, foi recebida pelo secretário de Estado da Santa Sé, Pietro Parolin, antes de manter um encontro com Papa Leão IV.
Regra geral, o Papa costuma reunir-se com as Conferências Episcopais em visitas denominadas ad limina, (expressão latina que significa ‘visita à entrada [dos túmulos] dos Apóstolos) e constitui uma obrigação dos bispos da Igreja Católica de, a cada cinco anos, se dirigirem até Roma para encontrar o Papa, sucessor de São Pedro, e venerarem pessoalmente os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo. A última visita ad limina da CEM ao Vaticano foi em 2024, com Papa Francisco. No referido encontro ad limina, os bispos apresentam ao Sumo Pontífice o relatório sobre a situação das suas dioceses e depois recebem conselhos e sugestões do Papa. No entanto, desta vez não se tratou de visita ad limina, mas sim de uma visita que visava colocar o líder máximo da Igreja Católica a par daquilo que abalou a família católica no país.’
Estranho nervosismo de Dom Estêvão
Numa inusitada carta de repúdio, o administrador apostólico da Diocese de Quelimane, Dom Estêvão Ângelo Fernando, criticou a postura da imprensa por investigar e divulgar informações sobre o bárbaro assassinato de Dom Osório Citora Afonso, ocorrido no passado dia 5 de Junho, na residência episcopal, em Quelimane, província da Zambézia.
Na referida carta, Dom Estêvão Fernando, que exerce igualmente o cargo de bispo de Alto Molócuè, fala de violação do segredo de justiça e apela aos órgãos de comunicação para se absterem de publicar tais factos antes do veredicto judicial. O prelado está numa encruzilhada, por ser parte interessada no processo e estar sob investigação do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC).
A posição do bispo e dos seus consultores não colhe consensos, não só no seio da própria Igreja, mas também na sociedade no geral, que entendem que o prelado está a coarctar o básico direito de acesso à informação de um crime público violento, que abalou a sociedade moçambicana e o resto do mundo. O SAVANA recebeu cartas de conforto e de encorajamento dos seus leitores após a promulgação da carta do administrador apostólico de Quelimane, apelando ao jornal para prosseguir com o seu trabalho investigativo, que também serve como instrumento de pressão às autoridades, de modo que apresentem resultados em tempo oportuno. Assinalam que, contrariamente ao veemente repúdio exteriorizado pelo bispo, ele deveria manter uma atitude de neutralidade, concentrando-se na oração e na recuperação moral e psicológica do seu rebanho, abalado pelo macabro assassinato de Dom Citora.
É consensual que Dom Estêvão Ângelo Fernando está numa posição bastante frágil para emitir aquele tipo de parecer, por pretender ser juiz em causa própria. Sabe-se que Dom Estêvão Ângelo Fernando, nomeado Administrador Apostólico de Quelimane a 13 de Junho do presente ano, está a ser investigado por supostas ligações com o padre Adelino Novais Amado, principal suspeito pelo assassinato de Dom Osório. Novais está, neste momento, detido no Estabelecimento Penitenciário Provincial da Zambézia juntamente com mais três indivíduos, neste caso, o padre Celso Bissane, o jardineiro e o segurança.
O SAVANA está na posse de informações de que o SERNIC apreendeu os telemóveis do bispo Estêvão Fernando, depois da descoberta do rastreio do telefone do padre Novais Amado e de transferências monetárias avultadas efectuadas pelo sacerdote ora detido. Na realidade, as investigações visam perceber a origem e a finalidade dos dinheiros.
Há ainda informações que apontam que, após a chegada de Dom Osório à Diocese de Quelimane, o padre Novais Amado terá suplicado, por várias vezes, a Dom Estêvão que o levasse para a Diocese de Alto-Molócuè.
Estes dados demonstram claramente o quão Dom Estêvão Fernando deveria demarcar-se de emitir opiniões sobre o trabalho da imprensa relativo às investigações do assassinato de Dom Osório Citora, tendo em conta o possível conflito de interesses.
Ademais, o mínimo que se podia esperar do bispo era o esclarecimento sobre as alegadas transferências monetárias feitas pelo padre Novais, o confisco dos seus telemóveis e toda a investigação à sua pessoa.
Na sua missiva, o bispo fala da violação do segredo de justiça, sendo necessário esclarecer que os jornalistas não são repositórios de segredos de justiça, por não serem sujeitos processuais. Essa tarefa cabe aos magistrados judiciais, do Ministério Público, advogados ou agentes do SERNIC que trabalham na instrução dos processos até à elaboração da acusação final.
Mãe da filha do padre Novais abandona Quelimane
O padre Novais Amado é descrito como principal suspeito do macabro assassinato do bispo Osório Citora, onde é acusado de ter contratado o referido assassino, ter patrocinado álcool para embriagar o segurança e o jardineiro da residência episcopal, casa oficial do bispo e sede da igreja católica local. Novais foi exonerado a 30 de Maio do presente ano do cargo de chanceler e ecónomo da Diocese de Quelimane, cargo que exerceu durante dois anos, período durante o qual aquela circunscrição religiosa não dispunha de um bispo em consequência da resignação de Dom Hilário Massinga em 2023. No âmbito das suspeitas que envolvem o padre Novais Amado, o SERNIC iniciou uma investigação às supostas esposas do sacerdote, sendo que uma delas, que trabalha num Banco comercial local, com a qual tem uma filha menor, foi dada como fugitiva. Informações postas a circular apontam que a referida senhora deixou o seu emprego numa das agências do Banco Comercial de Investimentos (BCI) e abandonou a cidade de Quelimanenão se sabendo do seu paradeiro.
Fonte: Savana