Dúvidas não há de que quem dança seus males espanta, afinal, pelo seu carácter descontraído, diz-se que esta arte performativa melhora a saúde mental, serve de terapia e deixa o corpo em forma. E quando se fala de dança contemporânea (um género que rompe com os padrões tradicionais, não se limita a um conjunto de técnicas padronizadas, e permite liberdade criativa), não só se espantam os males, como também se rompem vicissitudes e forma-se uma sociedade mais inclusiva e instruída.
A propósito de formar, a dança contemporânea funciona como ferramenta de transformação social, na medida em que, através dela, se instaura uma sociedade mais culta. Este ponto de vista é defendido por Ídio Chichava, bailarino, coreógrafo e professor de dança com carreira sólida em Moçambique e além-fronteiras.
Num dedo de conversa com domingo, o artista, que tem desenvolvido actividades artísticas na periferia, concretamente no bairro da Polana-Caniço, afirma que levar a dança contemporânea para esses lugares permite que as pessoas estejam abalizadas sobre a mesma e, assim, “a comunidade fica preparada, formada e culta na recepção de tudo que é um produto cénico”.
Para ele, quando a periferia passa a acolher eventos “que pensamos que só podem ser recebidos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, já se cria na comunidade um lugar de apropriação, e eles sentem-se donos e autorizados a assistir tudo que seja produção local”, diz.
Na perspectiva do artista, quando um bailarino se instala na periferia e começa a fazer performances, mostrando ao público local o que é a dança contemporânea, como é feita, como as pessoas choram e riem com o corpo, isso pode impactar as emoções e transformar a mentalidade, porque “esse espaço não é só para dança, é para confrontação e dar opções ao público”, destaca.
Apesar de dançar em grandes palcos internacionais, o bailarino declara que não existe um lugar melhor para recorrer à riqueza do que um material bruto que é a periferia, um lugar sem condições técnicas, mas permite ao artista ser mais autónomo a receber qualquer que seja improvisação.
Além disso, “tem elegância em poder transmitir ao público de forma mais precisa as necessidades artísticas, de produção com pouco ou sem nada”, afirma.
Fora as zonas periféricas, de forma geral, como profissional da área, Ídio Chichava julga necessário posicionar a dança contemporânea num lugar “muito sério”, no sentido de valorizar o trabalho existente por detrás da mesma.
Defende que a sociedade devia, de certa forma, ter consciência de que ao assistir a um espectáculo de dança contemporânea está a pagar por uma prestação de serviço, tal como acontece aos outros profissionais.
Sustenta que “a dança contemporânea é um lugar de muita produção. Não implica só os próprios bailarinos, mas todo um escritório por detrás. Implica uma equipa de produção, administrativa, técnica… então o público tem que ter consciência de que está a pagar por toda uma indústria”.
Entretanto, observa que alcançar tal nível não depende somente do público ou do Estado, mas, principalmente, do artista, sobretudo no que concerne à vontade de trabalhar em associativismo, em comunidade e de ter uma consciência colectiva.
“Um quilómetro de dança”
De vários modos, a dança contemporânea influencia a periferia e, de 21 a 26 de Setembro próximo, Polana-Caniço será transformado num lugar dançante com o evento “Um Quilómetro de Dança”. Pretende-se, de acordo com Ídio Chichava, usar o espaço público, do jeito que ele é, e transformá-lo em palco.
O conceito existe a nível internacional, concretamente na França, em que, num quilómetro de distância, vários espaços são activados ao mesmo tempo. Então, “o que acontece é que o público vai se trocando”, ou seja, “dança-se aqui, ali e do outro lado. Se, por exemplo, a dança contemporânea não lhe interessa, vai para a de salão ou uma salsa, uma kizomba, dança urbana ou pandza. O público vai circulando. É como se fosse uma montra”, explica.
Nas ruas daquela comunidade, 60 bailarinos entrarão em cena. Dos sete espaços previstos para as apresentações, três acolherão performances em simultâneo. “O que vai acontecer é que haverá um espaço com 29 bailarinos, outro com um artista e noutros estarão três artistas a dançar”, descreve.
O evento será uma espécie de passeio coreográfico que, tal como no KINANI, o mesmo público vai descobrindo espaços. Nesse panorama, “tentamos acolher o ‘um quilómetro de dança’ com aquela ideia de despoletar diferentes espaços ao mesmo tempo. O conceito será itinerante”, diz.
Mais do que entreter, com este passeio coreográfico quer-se proporcionar ao público local uma programação de sábado diferente, isto porque Chichava nota que, aos fins-de-semana, maior parte das pessoas daquela comunidade diverte-se em meio a barracas ou ambientes de bebedeira, uma situação que considera importante mudar.
“Queremos que nesse sábado Polana-Caniço seja realmente um palco de dança, um terreno de jogo para a dança, tanto que esperamos ver um público que se integre e viva também a música e dança. Ter esse impulso fica-se a concepção de elitista. “É o que tentamos fazer como acção dentro da Polana-Caniço e das outras periferias”.
“Tradicional” deve estar no menu global
As performances de Ídio Chichava cruzam a dança contemporânea com elementos da dança tradicional, aliás, do seu ponto de vista, a dança tradicional moçambicana é um forte material para educar o corpo, e pelo potencial, que também considera forte, merece ser ensinada a nível mundial.
“A dança tradicional moçambicana tem de fazer parte do menu de ensino de dança no globo. Não só a dança clássica ou moderna”, acrescenta que, “ela não ensina só o movimento, não tem só uma direcção técnica e desportiva, tem uma dimensão que é espiritual, energética, estética e é histórica. Tudo isso numa dança”, ademais, “tu não danças só passos, danças personagens, danças uma emoção”, justifica.
Assim, parte-se do princípio que, a partir da “tradicional”, há maior flexibilidade e facilidade para os corpos bailarem perfeitamente outros tipos de dança.
“Dou aulas internacionalmente e porque tenho noção da capacidade da dança tradicional moçambicana como um material forte para o corpo, levo esse discurso para o mundo”, diz.
A nível nacional, Chichava defende que a dança tradicional deve fazer parte das disciplinas obrigatórias no ensino primário, com vista a evitar criar elites incultas. Nesse sentido, explica que, dessa forma, “quando o artista for falar com um CEO de uma empresa grande, este ser capaz de saber que ele está a pagar por alguém que ensina, que trabalha pela arte”, ou seja, “ele vai valorizar a dança, o teatro, a música, de uma outra forma”, além do mais, “só incutindo isso na primária é que a dança, a música e o teatro serão levados de forma séria, não só aquele valor simbólico de entretenimento, mas como um produto, como
Mucutubua escreve sobre Dom Jaime
Gabriel Mucutubua lançou, última quinta-feira, na cidade da Beira, a sua primeira obra literária, intitulada “O Único Pecado de Dom Jaime”, um livro que revisita o papel desempenhado por Dom Jaime Gonçalves na promoção da paz e da reconciliação nacional durante os anos do conflito armado em Moçambique.
Mais do que uma biografia, a obra propõe uma reflexão sobre a história política e social do país após a independência, procurando contribuir para o debate académico e intelectual sobre um dos períodos mais marcantes da história de Moçambique.
Na apresentação do livro, Gabriel Mucutubua explicou que o livro resulta da sua curiosidade em compreender a trajectória de Dom Jaime Gonçalves, marcada por críticas e perseguições durante a guerra civil, bem como de conversas mantidas com pessoas que conviveram de perto com o antigo arcebispo da Beira.
Segundo o autor, não fazia sentido que uma personalidade reconhecida pelo seu empenho na construção da paz tivesse sido alvo de tantos ataques.
“É aí que começa o pecado de Dom Jaime: insistir na construção de um bem maior para os moçambicanos”, afirmou.
Mucutubua esclareceu ainda que o livro não se centra na vida privada do antigo prelado, mas no seu pensamento, na sua intervenção pública e no legado que deixou na busca de um país mais justo, reconciliado e pacífico.
Ao apresentar a obra, Samuel Simango considerou que o livro oferece uma perspectiva inovadora sobre o processo de paz em Moçambique, destacando o papel desempenhado por Dom Jaime na defesa do diálogo entre as partes em conflito.
Na ocasião, o presidente do Conselho Municipal da Beira, Albano Carige, afirmou que o sonho de paz defendido por Dom Jaime continua actual e desafia todos os moçambicanos.
“O sonho de Dom Jaime ainda não está plenamente concretizado. Cada um de nós pode contribuir para a sua realização, e livros como este inspiram-nos a dar continuidade ao legado que ele nos deixou”, afirmou.
Em representação do governador da província de Sofala, a directora provincial da Cultura e Turismo, Florença Manuel, destacou a importância da publicação para a preservação da memória histórica do país.
“Esta obra resgata a memória colectiva e revisita uma parte importante da história de Moçambique. Dom Jaime foi um homem que não teve medo de falar da paz em tempo de guerra”, sublinhou.
Fonte: Domingo