Homens têm maior probabilidade de sofrer AVC do que as mulheres

Perder subitamente a capacidade de falar, mover um braço ou uma perna, compreender o que acontece à sua volta ou até mesmo perder a consciência são algumas das consequências mais dramáticas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), uma doença que continua entre as principais causas de morte e incapacidade no mundo. Em Moçambique, os especialistas alertam que a realidade é preocupante, sobretudo porque a maioria dos factores de risco continua sem controlo e muitos doentes chegam tardiamente às unidades sanitárias.

O médico internista e docente de Medicina, Noé Filimão Massango, defende que o AVC não deve ser encarado como uma fatalidade, uma vez que a maior parte dos casos pode ser evitada através do controlo dos factores de risco, com destaque para a hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo.

Segundo o especialista, o maior desafio continua a ser o facto de muitas pessoas viverem com hipertensão arterial sem o saberem ou, mesmo conhecendo o diagnóstico, abandonarem o tratamento.

“Controlar a pressão arterial é, sem dúvida, o factor mais importante e também o mais negligenciado. A hipertensão é silenciosa, mas responde muito bem ao tratamento quando existe acompanhamento médico e adesão terapêutica”, afirma.

Massango explica que o AVC é uma emergência médica que pode afectar pessoas de qualquer idade, embora os idosos continuem a representar a faixa etária mais vulnerável. Contudo, sublinha que os estilos de vida actuais, associados ao aumento de doenças crónicas, têm contribuído para o aparecimento de casos em pessoas cada vez mais jovens.

Quando o cérebro deixa de receber sangue

O cérebro depende de um fluxo contínuo de sangue para funcionar correctamente e sempre que esse fornecimento é interrompido, as células cerebrais começam rapidamente a morrer.

Segundo o internista, existem dois mecanismos principais responsáveis pelo AVC.

O primeiro é o AVC isquémico, responsável pela maioria dos casos. Nesta situação, um coágulo bloqueia uma artéria cerebral, impedindo que o sangue chegue à região afectada. Sem oxigénio e nutrientes, as células entram inicialmente em sofrimento (isquemia) e acabam por morrer (necrose).

O segundo é o AVC hemorrágico, provocado pela ruptura de um vaso sanguíneo no cérebro. O sangue extravasa para o tecido cerebral e deixa igualmente de irrigar determinadas áreas responsáveis por funções específicas.

“O cérebro funciona como um verdadeiro mapa geográfico. Cada região controla uma determinada função, seja a fala, os movimentos, a memória, o comportamento ou a compreensão. Quando uma dessas regiões deixa de receber sangue, a pessoa perde exactamente a função correspondente”, explica.

De acordo com o médico, muitas vezes é possível identificar a área cerebral afectada apenas observando os sintomas apresentados pelo doente.

Hipertensão continua a ser a maior ameaça

Entre todos os factores de risco, a hipertensão arterial ocupa um lugar de destaque.

O médico Massango explica que, ao longo dos anos, a pressão elevada provoca alterações estruturais nas paredes dos vasos sanguíneos que, para resistirem à força exercida pelo sangue, os vasos tornam-se mais rígidos e acumulam placas de gordura.

Contudo, essas placas podem romper-se ou obstruir completamente a circulação, favorecendo tanto o AVC isquémico como o hemorrágico.

“Quando a pressão está constantemente elevada, o vaso sanguíneo perde elasticidade. Em determinados momentos pode romper-se ou ficar completamente obstruído”, afirma o especialista.

Segundo o médico, esta realidade torna urgente o reforço dos programas nacionais de rastreio e tratamento da hipertensão arterial.

Diabetes, colesterol e tabaco agravam o problema

O internista explica igualmente que a diabetes mal controlada aumenta significativamente o risco de desenvolver AVC.

Quando existe insuficiência de insulina ou resistência à sua acção, a glicose permanece em circulação no sangue sem entrar adequadamente nas células. Como consequência, o organismo passa a utilizar a gordura como principal fonte de energia, aumentando a concentração de lípidos na corrente sanguínea.

Essas gorduras acumulam-se nas paredes das artérias, favorecendo a formação de placas ateroscleróticas que podem provocar um enfarte agudo do miocárdio ou um AVC isquémico.

Além da diabetes, o médico destaca outros factores de risco importantes, como o colesterol elevado, sobretudo o LDL (mau colesterol), o consumo de tabaco, o excesso de peso, a alimentação rica em sal e gorduras e o sedentarismo.

Segundo recomenda, os adultos devem praticar pelo menos 150 minutos de actividade física por semana, reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, fritos, enlatados e carnes vermelhas, privilegiando frutas, legumes e carnes grelhadas.

HIV também pode favorecer o AVC

Um dos aspectos menos conhecidos, segundo Massango, é a relação entre o HIV e AVC.

O especialista explica que pessoas vivendo com HIV, sobretudo quando abandonam o tratamento e apresentam carga viral elevada, podem desenvolver inflamações nos vasos sanguíneos (vasculites), situação que favorece a formação de placas, obstruções ou mesmo a ruptura dos vasos cerebrais.

“Nem todos os AVC resultam exclusivamente da hipertensão. Existem doentes que desenvolvem inflamações vasculares associadas ao HIV, aumentando significativamente o risco da doença”, afirma.

Por isso, considera essencial que as pessoas vivendo com HIV mantenham o tratamento e realizem consultas de acompanhamento regularmente.

Homens apresentam maior risco antes dos 60 anos

Segundo Noé Massango, os homens apresentam maior predisposição para desenvolver hipertensão arterial e, consequentemente, AVC, quando comparados com as mulheres.

Contudo, a partir dos 60 anos essa diferença tende a desaparecer, tornando igualmente importante que ambos os sexos realizem rastreios periódicos.

O médico recorda ainda que o protocolo nacional recomenda que todos os cidadãos, a partir dos 25 anos de idade, sejam rastreados para doenças cardiovasculares. Os principais factores avaliados são a hipertensão arterial, diabetes mellitus, colesterol elevado e consumo de tabaco.

Raça negra apresenta maior predisposição genética

Noé Massango afirma que vários estudos internacionais demonstram que a população negra possui maior predisposição genética para desenvolver hipertensão arterial. Essa condição contribui para uma incidência mais elevada de doenças cardiovasculares quando comparada com outras populações.

Acrescenta que esta realidade torna-se ainda mais preocupante em países em desenvolvimento, onde persistem dificuldades no acesso ao diagnóstico precoce, à medicação e ao acompanhamento clínico.

O especialista cita dados nacionais que apontam que um em cada quatro moçambicanos vive com hipertensão arterial, tornando esta uma das principais ameaças à saúde pública.

Aluta para reconstruir a vida

As estatísticas ajudam a compreender a dimensão do problema, mas são histórias como a de Jonas Simbine, de 45 anos de idade, que revelam o verdadeiro impacto da doença.

Durante quatro anos conviveu com limitações provocadas por um AVC que afectou os movimentos e a fala. Na altura, era o principal sustento da família e viu a sua vida mudar radicalmente.

“Quando perdi os movimentos dos braços e a fala pensei que fosse o fim do mundo. Mas com o tratamento, disciplina e vontade de viver consegui recuperar. O maior desafio foi voltar ao mercado de trabalho”, regozija-se.

Hoje, Jonas voltou a trabalhar, dedicando-se ao comércio na sua residência, mas reconhece que o processo de recuperação exigiu enorme persistência e apoio familiar.

A prevenção continua ser a melhor estratégia

Apesar dos avanços na medicina, o médico Massango considera que a prevenção continua ser a forma mais eficaz de reduzir os casos de AVC.

Para isso, o especialista defende uma combinação entre educação para a saúde, rastreios regulares, alimentação equilibrada, prática de exercício físico, abandono do tabaco e cumprimento rigoroso da medicação prescrita.

O médico especialista revelou ainda que o Ministério da Saúde está a reforçar a implementação do Plano Estratégico Multissectorial para as Doenças Não Transmissíveis, apostando igualmente na expansão do tratamento da hipertensão arterial e na sensibilização das comunidades. Para o médico, a mensagem é simples: o AVC pode ser evitado. “Quanto mais cedo identificarmos e controlarmos os factores de risco, maior será a possibilidade de salvar vidas e evitar incapacidades permanentes. A prevenção continua ser o melhor tratamento”. 

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