A FloMining, empresa detida por Florindo Nyusi, filho do antigo Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, que se dedica à extracção de ouro, é acusada de promover expropriação de terra das comunidade de Mutomboumwe, na localidade de Mharidza, posto administrativo de Machipanda, distrito de Manica. A empresa está literalmente a invadir propriedades privadas e só depois é que propõe compensações em valores ridículos. Para se ter uma ideia a empresa está a propor às comunidades indemnizações que variam entre 5 mil à 16 mil meticais, aproveitando-se da ignorância da maioria dos camponeses, incluindo a intimidação militar. Alguns camponeses que rejeitaram ser compensados pelos valores propostos pela empresa FloMining disseram que os prejuízos provocados pela destruição das suas machambas estão muito acima das compensações propostas.
A primeira fase das indemnizações abrange 52 famílias afectadas pela actividade mineira, sendo que os pagamentos contemplam a destruição das áreas agrícolas, deixando de lado, as compensações relacionadas com habitações em risco e em sistemas de irrigação destruídos pela exploração de ouro. Em declarações ao Canal de Moçambique, os moradores informaram que a empresa nunca explicou como foi feita a avaliação dos prejuízos, razão pela qual a famílias com perdas semelhantes, estão a ser propostas bastante diferentes. “Recebi 5.000,00 meticais, mas esse dinheiro não compensa o que perdi.
A minha machamba ficou destruída e foi coberta por pedras e areia e esse valor não chega para recuperar os prejuízos, e já não tenho como sobreviver nestas condições” disse Ana Matumbo. E acrescentou que a falta de critérios claros na atribuição das indemnizações está a alimentar o descontentamento entre as famílias. Disse também que existem pessoas que receberam 15 mil meticais, outros 16 mil meticais, enquanto outras famílias ficaram com cinco ou seis mil. “Ninguém explicou como chegaram a esses valores e isso está a criar revolta na comunidade”. Edmo Ngauda afectado pelas operações da empresa de Florindo Nyusi disse que houve pessoas que recusaram os valores apresentados pela empresa por entenderem que os prejuízos eram maiores em relação ao valor proposto para as compensações.
“Houve pessoas que não aceitaram os valores e pediram uma nova avaliação. Disseram que quem estava ali era apenas mandatário da empresa e não podia alterar os montantes”, afirmou Edmo Ngauda. Incumprimento das promessas Os afectados endereçaram uma carta dirigida ao administrador do Distrito de Manica, Paulo Quembo, acusando a FloMining de incumprir os acordos alcançados durante as negociações para resolver o conflito. No documento, os moradores afirmam que a empresa iniciou actividades sem concluir o processo de auscultação comunitária, contrariando o compromisso assumido de que os trabalhos apenas arrancariam depois da presença de uma equipa multissectorial composta por técnicos dos sectores de Ambiente e Infraestruturas. De acordo com a exposição, ficou acordado que a equipa para avaliar a situação no terreno, devia fazê-lo até ao dia 29 de Junho de 2026. Sucede que nenhum técnico se deslocou ao local. Ainda assim, a empresa colocou maquinaria e retomou a exploração mineira na área que ficou interditada pela comunidade.
Os camponeses denunciam igualmente a ausência de fiscalização institucional, alertam para os impactos ambientais e sociais provocados pela mineração e acusam a empresa de explorar recursos naturais sem o consentimento da população local. Na mesma exposição, a comunidade solicita ao administrador do distrito a suspensão imediata das actividades da FloMining, até que sejam cumpridos todos os procedimentos legais, incluindo a consulta comunitária. Os moradores pedem igualmente a realização urgente de uma reunião envolvendo o Governo distrital, a empresa e a comunidade para encontrar uma solução para o conflito. As denúncias surgem três meses depois da retoma das operações da empresa, cujas actividades estavam suspensas devido a fortes contestações populares contra os impactos ambientais da mineração.
Suspensão sucumbiu ao “lobby” político Recorde-se que no dia 30 de Setembro de 2025, o Conselho de Ministros suspendeu todas as licenças de mineração de ouro na província de Manica e criou uma Comissão interministerial para rever o regime de licenciamento e reforçar a fiscalização. Sucede que a maior parte dos detentores das licenças que estão a fazer estragos em Manica incluindo poluição de rios e destruição de machambas são nomes sonantes da nomenclatura política, como é o caso de Florindo Nyusi. Essas empresas fizeram uma grande pressão à Presidência da República que foi forçada a recuar na sua decisão perante todos elementos probatórios de que nada de significativo havia sido feito para alterar a situação que ditou o banimento.
Mas em Novembro de 2025, isto é dois meses depois, o Conselho de Ministros, recuou e anunciou a aprovação de um Decreto que anunciava o levantamento gradual da suspensão da actividade mineira na província de Manica. O porta-voz do Governo, Inocêncio Impisa alegou que o levantamento da suspensão das actividade visa dar continuidade à actividade mineira pelos titulares dos direitos mineiros que não exerçam actividade de exploração de ouro, encontrando-se em conformidade com as obrigações legais e ambientais do interesse público e económico nacional. A medida abrange quatorze empresas. “Da avaliação feita às empresas abrangidas, conclui-se que não utilizam químicos.
Estas empresas, cuja decisão hoje se anuncia, não utilizam químicos nos processos de exploração e processamento, não poluem rios e nem degradam o ambiente. Cumpriram as normas estabelecidas”, afirmou o porta-voz do Conselho de Ministros. Comissão Parlamentar de Inquérito com conclusões ligeiras No início deste ano, a Assembleia da República criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os estragos que as empresas de mineração estão a fazer em Manica.
A Comissão Parlamentar produziu conclusões ligeiras sem qualquer tipo de consequência e as comunidades mais uma vez foram deixadas à sua sorte. A CPI presidida por Aires Aly trabalhou nos distritos de Guro, Macossa, Bárue, Vanduzi, Gondola, Sussundenga, Macate, Manica e na cidade de Chimoio, durante os 12 dias. “A grande preocupação é a existência de produtos químicos usados na mineração, que são nocivos à saúde pública e ao ambiente. E constatamos que a situação é desafiante e difícil. Principalmente devido aos níveis de poluição das águas nos rios e na albufeira de Chicamba. E tudo isto, merece muita atenção, muito cuidado do nosso lado”, disse Aires Aly. E nada foi feito.
Fonte: Canal de Moçambique