Pressionado pelas cheias, inundações e saída da Mozal: Rating empresarial recua para 38.6% no primeiro trimestre

O rating empresarial e financeiro de Moçambique registou uma queda de 1.77 pontos percentuais no primeiro trimestre de 2026, fixando-se em 38,623 pontos, contra os 39,8 pontos do último trimestre de 2025. Os dados foram apresentados nesta quinta-feira, em Maputo, pelo economista-chefe da Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC), Clésio Foia, que apontou fragilidades estruturais persistentes no sector empresarial do país. “As empresas em Moçambique continuam a enfrentar fragilidades estruturais pressionadas pelos níveis reduzidos de actividade económica, custos financeiros elevados, baixa intensidade de utilização de capital e confiança económica fraca”, afirmou Foia durante a sessão temática sobre sistema financeiro e competitividade empresarial.

Crédito existe mas sem profundidade Segundo o relatório da FUNDEC, o índice de crédito situa-se em 0,49%, ou seja, 49%, indicando que, apesar de existir crédito disponível, este “ainda não tem a profundidade suficiente para se traduzir em financiamento ao tecido empresarial”. A análise revela ainda uma elevada selectividade na concessão de crédito pelos bancos comerciais. Sectores considerados estratégicos, como a agricultura e a indústria, recebem apenas 5% e 9,5% respectivamente do crédito total, enquanto o comércio, transportes e comunicações são privilegiados no acesso ao financiamento. “Sob o ponto de vista de crédito relativo, ainda temos uma profundidade de crédito modesta, frágil e aquém daquilo que é suficiente para poder colmatar os nossos desafios estruturais”, sublinhou o economista.

Cheias e Mozal afectam desempenho O recuo no rating empresarial foi explicado principalmente por fenómenos que afectaram a dinâmica económica no primeiro trimestre. As enchentes que assolaram o país prejudicaram as safras agrícolas e danificaram infra-estruturas de transporte, colocando pressões sobre o comércio, logística e abastecimento de bens alimentares, especialmente na região sul. Outro factor determinante foi o anúncio, a 15 de Março, da entrada da Mozal em regime de conservação e manutenção, o que “colocou um elevado nível de incerteza para os empresários e agravou a escassez estrutural de divisas”. Segundo Foia, o país registou um backlog [facturas pendentes] de mais de 800 milhões de dólares apenas no primeiro trimestre de 2026.

Dívida do Estado estrangula empresas O não pagamento de dívidas do Estado aos fornecedores do sector privado foi apontado como um dos principais estrangulamentos da actividade empresarial. “Temos déficit de tesouraria, ou seja, não conseguimos pagar salários porque temos facturas por receber pendentes com o Estado”, denunciou Clésio Foia. O economista revelou que a FUNDEC vai realizar, em Agosto, um fórum conjunto com o Ministério das Finanças para debater o pagamento aos fornecedores do sector privado e as contratações públicas, com vista a “dinamizar e flexibilizar a capitalização no sector privado que se encontra descapitalizado”.

Sinais positivos insuficientes Apesar de registar alguns sinais favoráveis em termos de qualidade de crédito com níveis satisfatórios de non-performing loans, comportamento da inflação mantida na casa de um dígito e capitalização bolsista, o economista considerou que estes aspectos positivos “ainda são insuficientes para retirar o sector empresarial das fragilidades estruturais que enfrenta”. O relatório apresentado pelo economista conclui que o sector empresarial moçambicano permanece “financeiramente condicionado por baixa confiança económica, fraca dinâmica de actividade económica, custos de financiamento elevados e reduzida densidade de capital”, cenário que, para a economia, “significa menos emprego, menos produção e maior dependência das importações”.

Fonte: Mediafax

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