O Centro Cultural do Teatro do Oprimido de Maputo realizou um colóquio internacional, que tinha como título “Teatro como arte marcial”. O docente universitário Edson Macuácua defendeu que o Teatro do Oprimido exige muita disciplina, coragem e ética, “o uso da força, e em algumas vezes também a força de opressão, transformando energia criativa em resiliência”. Por outro lado, Aires Ali disse que o Teatro do Oprimido não nasceu por acaso, é herdeiro de uma tradição muito mais antiga, daqueles que acreditaram que a palavra pode vencer o medo.
A classe do teatro juntou-se, recentemente, na mesa para um colóquio cultural de nível internacional, com maior destaque para o Teatro do Oprimido, no Centro Cultural do Teatro do Oprimido de Maputo.
O mega evento teve como lema “Teatro como arte marcial”. O colóquio propõe um encontro entre arte, pensamento e compromisso social, reafirmando o papel da cultura na consolidação da paz, da unidade nacional e da participação democrática.
O docente universitário Edson Macuácua, que falava na qualidade de orador, disse que “este é um momento de conhecer a força do Teatro do Oprimido como arte e identidade cultural. Mas, acima de tudo, como expressão de cidadania, como uma manifestação artística por meio de diálogo social e de luta e paz social”.
Macuácua frisou que “o Teatro do Oprimido é uma forma de luta em que o corpo, a voz e a imaginação são as ferramentas fundamentais. Uma luta social; o combate é travado contra opressões invisíveis, violência, preconceito do dia-a-dia e as desigualdades. Assim como nas artes marciais, o Teatro do Oprimido exige disciplina, coragem, ética e uso de força da opressão, transformando a energia criativa em resiliência”.
Ainda na explanação de Macuácua, o Teatro do Oprimido é uma expressão de diálogo social que trouxe mudanças e transformação social. Onde havia exclusão, ele trouxe a inclusão; o medo trouxe a coragem. “Essa arte teatral ensina uma lição fundamental. A união faz a força, pois ninguém liberta ninguém, e ninguém se liberta sozinho”, disse.
Por seu turno, o orador Aires Ali defendeu que a cultura ensina uma criança a reconhecer o rosto da sua própria comunidade.
“Celebramos a permanente capacidade da cultura para transformar a população em povo, em território, nação e memória no futuro. Ao longo de 25 anos, milhares de moçambicanos descobriram através dessa metodologia que o palco pode ser muito mais que um lugar de representação, pode ser um lugar de escuta de aprendizagem de reconciliação”, disse Ali.
Por outro lado, Ali disse que o Teatro do Oprimido não nasceu por acaso é herdeiro de uma tradição muito mais antiga, daqueles que acreditaram que a palavra pode vencer o medo.
“O diálogo pode vencer a violência. A imaginação pode vencer a designação, numa sociedade que se transforma verdadeiramente, enquanto os seus cidadãos permanecem espectadores da sua história. Esta viagem começa quando o povo descobre que a sua maior riqueza não está na terra, mas dentro da sua cultura”, disse Ali.
Na explanação da pesquisadora Bárbara Santos, o Teatro do Oprimido de Maputo tem um papel importante na pesquisa metodológica.
A mesma acrescentou que “o Teatro do Oprimido tem esses desafios de pensar no que acontece agora, na guerra no Irão e o que acontece longe. As consequências e os impactos acontecem no nosso dia-a-dia, na bomba de gasolina, no aumento de preço de gasóleo e em muitas outras coisas no nosso quotidiano que nos afectam”.
Por sua vez, o dramaturgo David Abílio disse que o impacto da peça Xiconhoca foi um total catalisador por aprofundar metodologia de criação colectiva e de representação em espaço não convencionais e improvisados.
“O que vínhamos ensaiando desde o tempo de Xiconhoca encontrava ali a sua validação teórica, que é ensinar a opressão e a realidade quotidiana com o objectivo de transformá-la, despertando a consciência crítica dos cidadãos, levando as comunidades a compreender que as soluções dos seus problemas estavam nas suas próprias mãos”, disse David Abílio.
Frisou que “desta forma consolidavam novas formas de fazer teatro em Moçambique, levando à plateia a transformação e a arte teatral a todas as sessões comunitárias. Um teatro de ruptura epistemológica, que eliminava barreiras físicas e ideológicas entre o palco e a plateia, diluindo a distância entre o actor e o público”. Noutro desenvolvimento, o nosso interlocutor deixou claro que a eficiência do teatro invisível atingiu o seu auge nos anos subsequentes da independência, num contexto de severa escassez de produtos alimentares, agravado pelas redes de especulação.
Fonte: Magazine Independente