O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, anunciou em Nacala investimentos de 4,2 mil milhões de dólares e defendeu uma nova relação entre a exploração dos recursos naturais e a economia moçambicana.
A estratégia privilegia o processamento de minerais, a participação das empresas nacionais e a criação de emprego. Os números da pobreza e a fraca capacidade de absorção de trabalhadores mostram a dimensão da tarefa. Moçambique possui carvão, gás natural, grafite, areias pesadas e pedras preciosas.
Exporta estes recursos para mercados internacionais, acolhe grandes investimentos extractivos e construiu infra-estruturas destinadas ao seu escoamento. Mas continua a ser um dos países mais pobres do mundo.
Em 2022, cerca de 63 em cada 100 moçambicanos viviam em situação de pobreza, segundo o Banco Mundial. Foi perante esta contradição que o Presidente da República, Daniel Chapo, apresentou em Nacala-Porto, a 20 de Outubro, uma estratégia para aumentar a transformação industrial dos recursos naturais.
A riqueza do subsolo e a pobreza à superfície
Na abertura da Conferência sobre Adição de Valor com Base em Minerais e Recursos Energéticos Disponíveis (CAVAME-d 2026), Chapo anunciou a …mobilização de investimentos avaliados em 4,2 mil milhões de dólares e a assinatura de 11 memorandos de entendimento.
A ambição é reduzir a dependência da exportação de matérias-primas e instalar no território nacional actividades industriais capazes de criar emprego e ampliar a participação das empresas moçambicanas. “Não basta conhecer o que existe no subsolo, é necessário converter este conhecimento em projectos concretos, bancáveis, geradores de renda e, sobretudo, de emprego e salários para o povo moçambicano”, afirmou.
A declaração resume uma das principais mudanças que o Governo pretende introduzir na política de aproveitamento dos recursos minerais. No lugar de concentrar os benefícios na extracção e exportação, a estratégia procura estender a actividade económica ao processamento industrial, à prestação de serviços, à formação profissional e ao fornecimento de bens por empresas nacionais. Os resultados do modelo actual ajudam a expli.car a aposta presidencial.
Segundo o Banco Mundial, a taxa nacional de pobreza passou de 48,4%, em 2014/2015, para 62,9%, em 2022. O agravamento corresponde a cerca de sete milhões de pessoas adicionais em situação de pobreza.
A crise das dívidas ocultas, a pandemia, os desastres naturais e outros choques económicos contribuíram para essa evolução. O crescimento da indústria extractiva não conseguiu compensar os seus efeitos sobre os rendimentos das famílias. A distribuição territorial da pobreza revela outro contraste.
Nampula e Zambézia concentram, juntas, aproximadamente 46% dos pobres do país. São duas províncias com recursos naturais, extensas áreas agrícolas e acesso a corredores de transporte que as ligam aos mercados regionais e internacionais.
A realização da conferência em Nacala, na província de Nampula, colocou os anúncios de investimento numa região onde o potencial económico convive com carências sociais profundas.
A dificuldade de transformar crescimento em emprego também está documentada. Num estudo publicado em Fevereiro de 2026, o Fundo Monetário Internacional concluiu que a expansão da economia moçambicana favoreceu a indústria extractiva, sobretudo os projectos intensivos em capital, em detrimento da indústria transformadora.
O mesmo estudo estima que mais de meio milhão de jovens entrem anualmente no mercado de trabalho. Cerca de 95% dos empregos existentes são informais, muitos deles com baixos rendimentos e reduzida protecção social.
A exploração mineira e os projectos de gás natural exigem grandes volumes de capital, equipamentos especializados e tecnologia, mas empregam relativamente poucos trabalhadores quando comparados com actividades industriais mais diversificadas.
O FMI assinala ainda que a indústria transformadora perdeu peso na economia desde o início dos anos 2000, enquanto o crescimento do sector secundário foi impulsionando sobretudo pela extracção de recursos naturais.
Fonte: Jornal Zambeze