A agricultura concentra cerca de 75% da força de trabalho moçambicana, mas gera apenas 25% do valor acrescentado da economia. A disparidade mostra os baixos níveis de produtividade e as dificuldades estruturais que continuam a travar o desenvolvimento do sector. Os números foram apresentados pelo ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, nesta quarta-feira, 21 de Outubro, em Maputo, segundo um comunicado oficial.
O governante falava no lançamento do livro Agricultura e Transformação Económica em Moçambique: Evidências, Políticas e Caminhos para o Desenvolvimento, que reúne cerca de uma década de investigação sobre os desafios e as oportunidades do sector agrário.
“A agricultura concentra cerca de três quartos da força de trabalho nacional, mas gera aproximadamente um quarto do valor acrescentado da economia”, afirmou o ministro, sublinhando que o rendimento gerado por cada trabalhador continua a ser reduzido.
Segundo Salim Valá, apesar das condições naturais favoráveis e da terra disponível, o País continua a ter dificuldade em transformar o potencial agrícola em crescimento económico, produtividade e competitividade.
“Precisamos de transformar os recursos disponíveis em produtividade, excedentes comercializáveis, rendimento e oportunidades económicas”, defendeu. O ministro indicou que Moçambique dispõe de cerca de 36 milhões de hectares de terra arável, dos quais perto de três milhões são considerados irrigáveis.
Apenas 50 mil hectares, porém, têm efectivamente regadio. Também a comercialização é escassa: em média, cada agregado familiar agrícola vende apenas cerca de 12% do que produz, sinal do predomínio de uma agricultura virada para o autoconsumo.
Os dados do III Censo Agro-Pecuário (CAP 2023/24), divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), apontam no mesmo sentido.
Apenas 0,2% das pequenas e médias explorações agropecuárias tiveram acesso a crédito para financiar a actividade. Só 9,3% usam fertilizantes, 6,2% recorrem à rega, 6,7% beneficiam de serviços de extensão rural e 1,7% usam tractores. Em contrapartida, 59,9% das explorações usam carteiras móveis, o que abre caminho para alargar o acesso a serviços financeiros através de plataformas digitais.
Perante estes resultados, Salim Valá defendeu que é preciso acelerar o investimento em tecnologia, mecanização, irrigação e assistência técnica, e criar mecanismos de financiamento e de gestão de riscos adaptados à realidade dos pequenos produtores.
“Uma agricultura mais produtiva significa alimentos mais acessíveis, matérias-primas para a indústria, melhores rendimentos para as famílias e maior capacidade de resistência da economia aos choques externos”, afirmou.
Para o ministro, produzir mais não chega, por si só, para impulsionar o crescimento: são também necessárias melhores condições de financiamento, transporte, armazenamento, comercialização e transformação industrial.
“Aumentar a produção, sem assegurar mercados, financiamento, logística e processamento industrial, produz resultados económicos limitados”, advertiu, ao apresentar as principais conclusões dos estudos reunidos na obra.
Salim Valá sublinhou ainda a importância de cadeias de valor integradas e de mercados organizados, capazes de estimular a agro-indústria e aumentar o rendimento dos produtores.
“O verdadeiro valor económico da agricultura mede-se, também, pela indústria que alimenta, pelas empresas que dinamiza, pelos empregos que cria e pelos mercados que desenvolve”, disse.
O ministro recordou que a transformação agrícola ocupa um lugar central na Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044 e no Programa Quinquenal do Governo 2025-2029, que dão prioridade à modernização da agricultura, ao desenvolvimento das cadeias de valor e à promoção do investimento privado.
Entre as medidas prioritárias, apontou a melhoria das estradas de acesso às zonas de produção, a expansão dos sistemas de irrigação, a electrificação rural e o reforço das infra-estruturas de armazenamento. “O gás pode esperar por 2029; as famílias moçambicanas não podem.
A agricultura é o motor que já temos ligado”, afirmou, ao apresentar uma das principais ideias defendidas pelos investigadores. A obra, desenvolvida em parceria com o International Growth Centre (IGC) e o Instituto de Cereais de Moçambique (ICM), reúne contributos de 15 investigadores e procura aproximar o conhecimento científico das decisões de política pública.
Para Salim Valá, a transformação económica do País dependerá da capacidade de articular a produção agrícola com a indústria, o comércio, o financiamento e os mercados, de modo a converter os recursos disponíveis em riqueza e melhores condições de vida. “O nosso problema não é a ausência de potencial, mas a ausência das ligações que convertem potencial em rendimento”, concluiu, citando uma das principais mensagens do livro.
Fonte: Diário Económico