O presidente do uMkhonto weSizwe (MK), Jacob Zuma, proferiu recentemente, num acto público do seu partido, um discurso que está a ser largamente interpretado como um apoio directo à perseguição de estrangeiros na África do Sul. O político, que presidiu o País de 2009 a 2018 – data em que renunciou sob forte pressão popular e do seu então partido, o Congresso Nacional Africano (ANC), após vários escândalos de corrupção – adoptou uma retórica inflamada que não apenas choca a região, como insulta sua própria trajectória enquanto combatente pela liberdade, não tivesse sido acolhido por vários países da África Austral em tempos do apartheid, com destaque para Moçambique.
“Afinal, de quem é este país? De quem é este país? Agora estamos a ser enganados por pessoas que falam demais: ‘Ah, tenham misericórdia destas pessoas [estrangeiros].’ Elas não tiveram misericórdia, em primeiro lugar, quando entraram aqui [África do Sul]”, afirmou Zuma com convicção messiânica, colhendo fortes aplausos da moldura humana do MK, partido que é apoiante declarado do movimento March & March, conhecido por liderar ataques bárbaros contra comunidades imigrantes, acções que já resultaram na morte de, pelo menos, cinco cidadãos moçambicanos.
Esta radicalização do discurso surge num momento crucial: a poucos meses da realização das eleições para as Assembleias Municipais na África do Sul, aprazadas para Novembro de 2026. O MK de Jacob Zuma afirmou-se como a terceira maior força política do país ao alcançar 14,6% dos votos nas eleições gerais de Junho de 2024, posicionando-se como a principal voz de oposição ao Governo de Unidade Nacional (GUN), formado pelo ANC e pela Aliança Democrática.
Grande parte da opinião pública sul-africana e analistas internacionais sugerem que Zuma está a surfar deliberadamente na onda de xenofobia por motivos meramente eleitorais. Mas será só isso?
A trágica ironia do passado em Moçambique
O endosso de Zuma à xenofobia reveste-se de uma trágica e profunda ironia histórica. O hoje líder do MK viveu anos a fio como refugiado político em tempos do apartheid, tendo encontrado protecção e solo seguro em Moçambique.
De acordo com a biografia oficial disponível na página da Presidência da República da África do Sul, após ter sido detido pelas autoridades de Eswatini em Março de 1976 e libertado graças à intervenção de Oliver Tambo, Zuma foi deportado para Moçambique em Abril do mesmo ano.
Em solo moçambicano, Jacob Zuma não só encontrou guarida contra o então regime segregacionista de Pretória, como ascendeu a postos de liderança sénior no exílio. Em 1977, foi nomeado para o Comité Regional de Maputo e cooptado para o Comité Executivo Nacional do ANC. Mesmo após a assinatura do Acordo de Nkomati, em 1984, entre Moçambique e a África do Sul, Zuma permaneceu em Maputo como Representante Chefe do ANC.
A hospitalidade do povo moçambicano, que pagou um preço alto de sangue e desestabilização por apoiar a libertação da África do Sul, é agora respondida com discursos que legitimam a violência contra os seus filhos.
O histórico de ódio e as desculpas de fachada
Não é a primeira vez que Jacob Zuma recorre à retórica xenófoba. A 27 de Abril de 2015, em pleno Dia da Liberdade e numa altura em que a África do Sul enfrentava uma severa vaga de violência contra imigrantes africanos, o então presidente culpou publicamente os países vizinhos pela imigração maciça.
“A minha opinião é que esses problemas devem ser discutidos na União Africana porque, se temos um problema de xenofobia, os países, nossos irmãos, contribuíram para ele. Por que é que os seus cidadãos não estão nos respectivos países?”, questionou Zuma na altura, gerando uma crise diplomática que levou a Nigéria a chamar o seu embaixador e motivou apelos de boicote a produtos sul-africanos por todo o continente. Na ocasião, lembre-se, a situação era tão caótica que o exército teve mesmo de ser mobilizado para conter a barbárie nas ruas.
O teatro diplomático em Maputo
Semanas após as polémicas declarações, a 20 de Maio de 2015, Jacob Zuma aterrou em Maputo para uma visita de Estado de dois dias. Logo à chegada, apressou-se a fazer um acto de contrição. “Achamos importante pedir desculpas em nome duma pequena minoria de sul-africanos que protagonizou estes actos macabros. Pois, temos em conta que os povos da África do Sul e Moçambique estão juntos desde há séculos e nunca tiveram problemas”.
Volvidos mais de 10 anos, o tempo parece provar, através das mais recentes declarações, que o pedido de desculpas não passou de um mero acto protocolar e de cosmética diplomática, mantendo-se intacta a agenda de usar estrangeiros como bodes expiatórios para os profundos problemas socioeconómicos de que o próprio Zuma, na qualidade de antigo Presidente, é co-responsável.
Fonte: Dossiers e Factos