Purga atinge Gaza e Maputo Chapo reconfigura máquina partidária

by Biston Gule

Sem apontar os critérios ou metas não atingidas em Gaza e cidade de Maputo, Pedro Guiliche diz que a CP fez uma “avaliação do desempenho” A pouco mais de dois meses da 11ª Conferência Nacional de Quadros, um dos principais espaços de reflexão estratégica da Frelimo, a Comissão Política (CP) promoveu uma vassourada nas suas estruturas da província de Gaza e cidade de Maputo, uma intervenção incomum no partido governamental. A reunião de quadros da Frelimo realiza-se entre os dias 21 e 23 de Agosto deste ano, na cidade de Chimoio, província de Manica, um evento político-partidário que não se realiza há mais de dez anos.

Gaza é um reduto histórico da Frelimo, onde o partido governamental tem ganho com números norte-coreanos, conseguindo angariar mais votos do que o número de eleitores. A Frelimo, através do seu porta-voz, Pedro Guiliche, explicou que a purga tão ampla em Gaza e cidade de Maputo, que atingiu estruturas desde o nível local até à liderança provincial, é o culminar de um processo de “avaliação de desempenho” feita pela CP, sem, no entanto, avançar os critérios ou metas não atingidas. Mas ao que o SAVANA apurou, pelo menos em Gaza, lutas internas entre alas afectas à governadora provincial, Margarida Mapandzene, e ao primeiro secretário provincial, Daniel Matavele, poderão estar por detrás da vassourada.

Niquice e Matavele
Os atingidos pelas mexidas promovidas pela CP são António Niquice e Daniel Matavele, primeiros-secretários da Frelimo ao nível da cidade de Maputo e de Gaza, respectivamente. Com eles também seguiram todos os órgãos do topo até à base. Os substitutos de Niquice e Matavele deverão ser conhecidos até ao próximo dia 10 de Agosto.

Ao SAVANA, Pedro Guiliche disse que as destituições resultam de uma avaliação de desempenho feita pela CP. Os substituídos chegaram àquelas posições pelas mãos de Filipe Nyusi, na altura presidente do partido e da República. Isto sugere que Daniel Chapo, após pouco mais de um ano virado para a pacificação do país e na busca de legitimidade interna e externa colocada em causa pelas manifestações em protesto contra os resultados eleitorais de Outubro de 2024, começou agora a marcha para montagem da sua própria máquina político-partidária.

Esta é segunda queda, aparentemente, inesperada de António Niquice da liderança das estruturas do partido. António Rosário Niquice foi eleito em Março de 2024, durante a III Sessão Extraordinária do Comité da Frelimo na cidade de Maputo em substituição de Rasaque Manhique, que foi para presidente de Município de Maputo. Chegou ao cargo vindo do Parlamento, onde ocupava a confortável posição de presidente da Comissão de Plano e Orçamento, a segunda Comissão mais importante da Assembleia da República.

António Niquice também teve a mesma queda política quando passou pelo Secretariado do Comité Central, onde era responsável pela Mobilização e Propaganda e porta-voz do partido. Assumiu o cargo em Fevereiro de 2016 e “caiu” em Setembro de 2017. Portanto, muito antes de completar dois anos. Por ser o principal centro económico do país, a cidade de Maputo também é um polo de profundas desigualdades sociais. Esta situação tem aumentado focos de descontentamento e redução da popularidade do partido no poder. Este cenário fez com que mesmo o processo de recenseamento dos membros do partido não tivesse resultados desejados e Niquice não conseguiu devolver essa harmonia, facto ajuntado à segregação dos membros, onde havia grupos privilegiados em detrimento da maioria ignorada.

Caso de Daniel Matavele
O primeiro-secretário da Frelimo na província de Gaza, Daniel Matavele, também já não é o “todo-poderoso”. Foi deposto, semana passada, do cargo. Para além de Matavele, foi também destituído todo o Secretariado Provincial e todas as estruturas de base.

Funcionário do sector da justiça, Daniel Matavele chegou à liderança da Frelimo na província de Gaza em Setembro de 2017, depois de ter passado 17 anos no Parlamento, como Deputado da Assembleia da República, onde entrou em 2000.

Amigo pessoal de Roque Silva e homem de confiança política de Filipe Nyusi, Matavele foi destacado para aquela província para arrumar o partido que estava completamente desorientado. Foi substituir Roque Silva, em 2015, que havia sido indicado para ocupar o cargo de vice-ministro de Administração Estatal.

Matavele veio renovar o mandato em 2022, nas vésperas do 10º Congresso da Frelimo. Contudo, foi a partir deste mandato que Matavele começou a enfrentar adversidades de vária ordem.

Pouco antes das maratonas eleitorais internas visando a escolha de candidatos da Frelimo para deputados da Assembleia da República, bem como para membros das assembleias provinciais nas eleições gerais de 2014, Filipe Nyusi viu-se obrigado, num comício popular realizado no campo do Ferroviário de Gaza, na cidade de Xai-Xai, a apelar os membros do partido a se unirem e prestarem apoio ao primeiro-secretário, porque este é que era a figura legítima para conduzir o partido naquela parcela do país. Nyusi disse que as intrigas e o divisionismo podiam fragilizar o partido e beneficiar o adversário.

Eram os primeiros sinais de protestos em relação à liderança de Matavele em Gaza. Os mesmos ganharam eco durante as eleições internas, onde uma candidata do partido à Assembleia da República, pelo distrito de Massingir, denunciou a manipulação.

A fonte referiu que quem estava a estragar Gaza era o primeiro-secretário provincial do partido e a secretária provincial da OMM, Alice Tamele, incluindo o secretário provincial dos Combatentes que não defenderam os interesses da lista da renovação da mulher e dos combatentes.

Na mesma ocasião, a candidata supostamente injustiçada, disse que arranjaram artimanhas para justificar coisas estranhas, subvertendo a directiva para defender os seus interesses, incluindo a inclusão dos nomes do filho, sobrinhos, amigos e afilhados do primeiro-secretário e da secretária da OMM.

Hoje, o filho de Daniel Matavele, Ivan Matavele é deputado da Assembleia da República. Nas eleições de Outubro de 2024, a Frelimo perdeu dois lugares em Gaza a favor do PODEMOS, um partido liderado por Albino Forquilha, mas que chegou ao Parlamento na boleia de Venâncio Mondlane. Foi a primeira vez na história das eleições em Moçambique que a Frelimo perdeu deputados em Gaza, um bastião onde ganhava com números norte-coreanos. A remodelação também pode ter em vista a preparação dos próximos ciclos eleitorais, numa província com os índices de descontentamento em alta e onde o partido ANAMOLA, de Venâncio Mondlane, está a ganhar apoiantes.

Filipe Nyusi
Se a CP liderada por Filipe Nyusi ignorou as denúncias da referida candidata, a actual direcção liderada por Daniel Chapo e Chakil Aboobacar não deixou passar a recente tensão entre o antigo primeiro-secretário e a governadora provincial, Margarida Mapandzene.

Trata-se de um conflito que vem desde as eleições gerais de 2024 e que, segundo fontes próximas ao SAVANA, tomou proporções alarmantes com as polémicas detenções relacionadas com o desvio de donativos destinados às vítimas das cheias, que devastaram a província na última época chuvosa.

Na realidade, segundo as mesmas fontes, a Frelimo em Gaza tinha duas direcções. Uma leal ao primeiro-secretário e outra à governadora provincial.

As mesmas fontes afiançaram ao jornal que, por exemplo, as detenções da administradora de Xai-Xai, Argélia Chissano; da chefe do gabinete da governadora provincial, Dora Artur, e outras figuras influentes ao nível do topo no governo provincial por alegado esquema de desvio de donativos humanitários resultou de uma denúncia feita por uma das alas como forma de vingança, visto que a retirada dos produtos dos armazéns do Instituto Nacional de Gestão do Risco e Calamidades (INGD) para as residências dos referidos arguidos resultou da concertação dos membros da Frelimo ao nível local.

Consta que a logística em causa era para apoiar a reunião dos membros do partido ao nível provincial visando a preparação da reunião nacional de quadros.

Revitalização regular
Abordado sobre o assunto, Pedro Guiliche, porta-voz do partido, disse que a decisão da CP de determinar a cessação de funções dos secretariados provinciais de Maputo Cidade e de Gaza enquadra-se numa rotina regular de revitalização de órgãos do partido ao nível base.

Explicou que a estrutura máxima do partido, no intervalo das reuniões do Comité Central, avalia periodicamente o desempenho dos seus órgãos e, caso chegue à conclusão de que há necessidade de os revitalizar, toma as devidas medidas. Portanto, frisa Guiliche, foi o desempenho que fez com que a direcção máxima do partido tomasse medidas visando a introdução de nova dinâmica.

O porta-voz da Frelimo recusou pronunciar-se sobre a teoria de intrigas internas, limitando-se a dizer que tudo se enquadra no processo de revitalização, que é um acto comum dentro da organização.

Fonte: Savana

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