O filósofo e académico Severino Ngoenha diz que os partidos políticos transformaram as eleições de 2028 no seu principal objecto e o medo de perder o poder está associado ao receio de que sejam reveladas riquezas cuja origem não pode ser justificada. Ngoenha falava semana passada durante a “Conferência sobre Arquitectura de Paz em Moçambique”. Disse que o foco principal dos partidos políticos desde a Frelimo até ANAMOLA passou a ser as eleições de 2028. “A primeira razão do conflito foi a eleição. Logo a seguir houve manifestação de descontentamento generalizado na maneira como vivíamos em conjunto, sobretudo como os bens eram distribuídos. As eleições são importantes num quadro político nacional, mas são um momento. As eleições não são um objectivo final da política. A política é viver juntos e construirmos um bem comum de todos e somos obrigados a passar por processos eleitorais”, disse. Ngoenha questiona e responde: “Como é vai se chegar em 2028, com que forças, com que país, com que fracturas.
O que me custa mais é constatar que o tecido social moçambicano vai se fragmentando. Uns preparam-se para ganhar a todo custo, outros, preparam-se para que se os resultados são favoráveis, haja transparência a todo custo. Fizemos de processos eleitorais o ponto central do exercício da cidadania e da vida colectiva”. Outra constatação do filósofo é que não se está a resolver os problemas que provocaram as manifestações que é a transparência, a discrepância social, a fome, a miséria em que habitam mais de 90 porcento dos concidadãos. “Estamos centrados e concentrados nas eleições e não estamos a procurar soluções para aquilo que faz com que as manifestações possam existir e este encaminhamento é perigoso”. Novas confrontações à vista Severino Ngoenha diz que parece estar-se a preparar para uma nova confrontação, com a compra de mais armas para o exército e para a polícia.
Nos bairros, as pessoas preparam-se, os partidos da oposição lutam para ter maior transparência para vingar e chegar ao poder e tudo parece estar a convergir a um novo conflito, a uma pancadaria ainda maior, a um morticínio ainda maior do que aquilo que se viu nas manifestações que foi terrível. “Temos que tirar o medo de alguns em perder o poder porque se saíssem do poder, imaginam que seriam vítimas de perseguições. Estava a falar com alguém num desses dias e ele dizme assim, sabe professor, a gente até concorda, mas nós, os ricos de Moçambique não podemos permitir toda a transparência que vocês pedem porque não teríamos como justificar a nossa riqueza.”, disse.
Afirmou que este elemento provoca medo para aqueles que são detentores da riqueza porque pensam que o dia que novas políticas, novos partidos, novas forças chegarem ao poder, as riquezas deles seriam denunciadas, os mecanismos pelos quais se tornaram ricos serão denunciadas. “Podemos continuar a falar de processos eleitorais, de transparência eleitorais, de mudança da maneira como fazemos as eleições. Podemos aumentar ou diminuir os anos da presidência, podemos falar de mudança de instituições, mas se não temos a coragem de meter o dedo naquilo que é a razão fundamental dos conflitos, não estaremos a resolver os nossos problemas”, alertou.
Segundo o académico, o principal problema que existe é a discrepância social que se bate com muito vigor nas classes mais pobres da sociedade moçambicana. “Não haverá paz, concórdia enquanto não formos capazes de criar mecanismos, não para fazer com que todos sejam iguais, mas fazer com que todos sejam menos desiguais possível. Que se acudam os que estão na maior miséria que é mais de 90 por cento. O que as pessoas pretendem é ter uma vida condigna. Aquilo que chamamos política, Estado, só merece esse nome se cumpre com a função da redistribuição equitativa daquilo que supostamente deveria pertencer a todos”.
“Reconciliação passa por reconhecer os tombados” – CDD O director do Centro para Democracia e Desenvolvimento, (CDD), Adriano Nuvunga, disse que o país precisa ir em frente, mas para tal, é necessária uma reconciliação que passa por reconhecer os tombados. “Precisamos ir para frente com o reconhecimento dos problemas do passado, com o reconhecimento daqueles que tombaram. Mesmo que aqueles que tombaram, sejam aqueles que não gostamos”, disse.
Fonte: Canal de Moçambique