Depois da Reunião Nacional de Quadros Vem A Dança De Cadeiras: Frelimo discute renovação das lideranças e cresce pressão por modelo “50-50″entre continuidade e novos quadros

by Biston Gule

Comité Central logo a seguir à RNQ pode definir data de congresso e directiva das internas A FRELIMO entra, este mês, numa das fases mais decisivas da sua reorganização interna. Entre 21 e 23 de Agosto, a cidade de Chimoio, província de Manica, acolhe a XI Conferência Nacional de Quadros, um fórum estratégico convocado para definir orientações políticas e organizacionais que deverão influenciar tanto a governação como o futuro do próprio partido. Um dia depois do encerramento da Reunião Nacional de Quadros, o partido deverá reunir o Comité Central para aprovar o roteiro das eleições internas, incluindo a directiva eleitoral que vai orientar a renovação das estruturas partidárias. Acredita-se que, entre os temas em debate, estará uma proposta de abandono da actual fórmula de 60% de continuidade e 40% de renovação e adoptar um modelo de 50% de renovação e 50% de continuidade, uma exigência defendida por uma franja considerável de militantes que entende ser chegada a hora de abrir espaço para novos quadros sem perder a experiência dos históricos.

A cidade de Chimoio, província de Manica, poderá transformar-se no ponto de partida para uma nova arquitectura interna do partido Frelimo que, para além de um encontro de reflexão política, tem a reunião como um momento em que a organização procurará redefinir a sua estrutura, actualizar a sua base militante e preparar-se para um novo ciclo político. Convocada pela Comissão Política da Frelimo, sob liderança do Presidente do partido e da República, Daniel Chapo, a conferência é antecedida por um amplo processo de mobilização e debate iniciado nas estruturas de base, incluindo células, círculos e outros órgãos intermédios, ao mesmo tempo em que decorria um processo de recenseamento de raiz dos seus membros, numa tentativa de reorganizar a sua base e garantir maior controlo sobre a sua estrutura interna. Agendado para 21 a 23 de Agosto, para além da avaliação do funcionamento da máquina partidária, o encontro poderá estabelecer orientações que vão influenciar o processo eleitoral interno rumo ao próximo Congresso do partido. Um dia depois do encerramento da conferência, a Frelimo deverá reunir o Comité Central, órgão responsável por transformar em decisões políticas as principais conclusões do encontro e aprovar o roteiro das eleições internas.

É nesse momento que poderá ganhar forma a nova directiva eleitoral que vai orientar a escolha dos delegados e a composição dos futuros órgãos do partido. Para além da directiva, o Comité Central deverá indicar a data e convocar o XIII Congresso da Frelimo. O Congresso da Frelimo é convocado e agendado pelo Comité Central do partido. De acordo com os estatutos da organização, cabe a este órgão definir a data exacta e o local de realização do evento, que ordinariamente ocorre a cada cinco anos. Nos corredores da FRELIMO, a expectativa é que a reunião de quadros produza uma fotografia clara sobre o futuro da organização, incluindo a necessidade de renovação das lideranças, reorganização das estruturas e possíveis ajustes na governação. A palavra de ordem que começa a ganhar espaço entre vários sectores do partido é renovação, mas sem ruptura com a experiência acumulada pelos antigos dirigentes.

Nos bastidores, porém, o debate já começou e gira em torno daquilo que muitos militantes classificam como a inevitável “dança de cadeiras”, um processo que deverá desencadear uma profunda movimentação nas estruturas partidárias, desde a base até aos órgãos nacionais. Fontes ouvidas pelo Evidências explicam que as eleições internas começarão pelas células, seguindo depois para os círculos, zonas, localidades, distritos, províncias e culminando no Congresso, onde serão escolhidos os novos órgãos dirigentes. É neste processo que cresce um movimento favorável a uma renovação mais profunda das estruturas. Militantes defendem “50-50” para abrir espaço para novos rostos e ideias É neste processo que poderá ser formalizada uma das propostas mais polémicas dos últimos tempos: abandonar a actual fórmula de 60% de continuidade e 40% de renovação e avançar para um modelo de 50% de renovação e 50% de continuidade.

A proposta, defendida por uma franja considerável de militantes, pretende alterar a lógica tradicional de distribuição de lugares dentro do partido, abrindo espaço para novos quadros e reduzindo a influência de figuras que permanecem há vários anos nas estruturas de decisão. Fontes internas ouvidas pelo nosso jornal revelam que o debate ganhou força nos últimos meses e deverá ser uma das matérias sensíveis da agenda política interna. A iniciativa é associada aos jovens que defendem maior abertura das estruturas para uma nova geração de dirigentes. “As pessoas querem 50% de renovação e 50% de continuidade. Acham que é mais justo”, revelou uma fonte ligada ao processo, adiantando que a proposta pretende preservar a experiência dos quadros históricos sem fechar espaço à ascensão de uma nova geração de dirigentes. O debate interno também está a expor um crescente desconforto com a permanência prolongada de alguns dirigentes nos órgãos do partido e do Estado.

Deputados com vários mandatos consecutivos, membros do Comité Central que permanecem há décadas e a presença recorrente de familiares nos mesmos círculos de poder são apontados como exemplos de uma renovação que tarda em acontecer. “Há deputados que estão há vinte anos na Assembleia da República. Outros já fixaram a reforma e continuam. Não faz sentido serem sempre as mesmas pessoas. Temos pai, filha, mãe, filho, sobrinhos. Parece que não existem outros moçambicanos capazes de contribuir”, desabafou. Mudanças poderão reflectir-se no Governo Embora oficialmente a Conferência Nacional de Quadros tenha como objectivo discutir estratégias políticas e fortalecer a organização do partido, dirigentes admitem que as conclusões do encontro poderão influenciar futuras alterações na governação, num contexto em que Daniel Chapo é criticado por até agora não ter mexido na estrutura do seu partido.

Embora muito provavelmente sairá de Chimoio sem domínio e nem controlo da actual comissão política que só poderá cair no próximo Congresso, Chapo poderá sair com mais legitimidade interna e alguma, ainda que mínima, autonomia para mexer no seu xadrez de governação. A leitura dominante é que a reunião servirá para medir o sentimento das bases sobre o desempenho dos dirigentes, identificar novos quadros e construir consensos em torno da renovação das lideranças. Por isso, muitos militantes acreditam que, concluída a conferência e iniciado o ciclo das eleições internas, poderão surgir mudanças não apenas nos órgãos da FRELIMO, mas também em cargos governativos considerados estratégicos. De resto, Chapo já deu sinal, semana finda, com a prova oral aos ministros e secretários de Estado.

Fonte: Jornal Evidências

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