Um desejo cumpriu-se, entre as lágrimas de consternação dos mais próximos e as palmas dos que o admiraram em vida. O corpo de Paíto Tcheco, um dos mais respeitados instrumentistas da música moçambicana, foi ontem entregue às chamas no crematório do Cemitério de Lhanguene, numa cerimónia carregada de simbolismo e de sentimentalismo.
Não era para menos. O baterista (baterista e muito mais) era (é) amado por gente que lhe era próxima e pelos demais, aqueles que simplesmente o conheciam. Do palco ou das cavaqueiras, ele que as adorava ao ponto de, às vezes, chegar a divertir-se à brava com gente que não conhecia, mas que o conhecia a si e muito bem através do que ele fazia de melhor: música.
O adeus a Paíto Tcheco não se fez sem o habitual em cerimónias fúnebres. As palavras elogiosas de ocasião, lidas ou espontaneamente proferidas, entremeadas por canções religiosas. Outras, sem o protocolo imposto pela praxe, iam sendo proferidas a dois, ou a três ou quatro, por entre ali multidão presente. “Este gajo não era um qualquer”, alguém disse, para a concordância dos que lhe estavam por perto.
Mas Paíto era qualquer e, ao mesmo tempo, não era. Era um de nós, comum mortal, com defeitos e com virtudes, que complementavam o seu ser para além dos palcos. Bem disposto e amigo dos seus amigos, capaz de virar um ambiente para gargalhadas dos demais e, também, de, sem papas na língua, apontar o que lhe desagradava com a mesma espontaneidade com que rompia um protocolo para contar uma piada.
Onde não era qualquer era em palco ou em estúdio, onde acompanhou inúmeros artistas deste país e não só, onde granjeou respeito e admiração que lhe fizeram pontificar na restrita galeria dos bons, dos sublimes quando se trata de música. Os testemunhos dos colegas artistas desaguavam nesse reconhecimento. Paíto fez-se baterista e muito outra coisa para dar timbre a “n” gravações e a “n” espectáculos em que participou ora com bandas ora artistas a solo.
Deu timbre e alma, para gáudio não só daqueles que com ele trabalharam, como dos que – e sobretudo – souberam desfrutar da sua existência na música. Os depoimentos de ontem no recinto do crematório hindu do Cemitério de Lhanguene convergiram em muito no enaltecer das qualidades artísticas e humanas de Paíto Tcheco. Ao “Notícias”, Wazimbo, um dos muitos veteranos da música moçambicana presentes, vê na morte do baterista, com quem trabalhou em muitas ocasiões, o abrir de uma brecha que nunca se vai tapar. “Esqueçamos que não há insubstituíveis, a brecha que se abriu na música moçambicana com a morte dele é mesmo impossível de fechar. Ele era um músico único”, destaca.
Fadir, líder da banda Homba Mo, outro dos presentes, destacou a versatilidade de Paíto Tcheco. “Ele tocava quase todos os instrumentos. Para mim foi um privilégio algumas vezes ter tocado com ele, um músico de quem aprendi muito. Acredito que muitos músicos, seja de que instrumentos forem, se forem instrumentistas, também aprenderam bastante com o Paíto. Quando se sentava na bateria, era um baterista bom. Quando pegava no baixo, era um baixista bom, idem na guitarra, nas congas e em qualquer outro instrumento em que pegava. Perdemos um grande músico, um grande talento”, testemunha Fadir.
Paíto Tcheco pertence a uma geração marcante de artistas moçambicanos, a dos que se destacaram a partir dos primeiros anos da independência nacional. Nasceu numa família de músicos, sendo irmão mais novo de Zeca Tcheco, que faleceu em 2016 depois de ter também feito uma carreira brilhante.
António Daniel Tcheco, de seu nome completo, morreu na segunda-feira em Maputo, sua terra natal, a cerca de dois meses de chegar aos 67 anos, ele que nasceu a 7 de Agosto de 1959 em Maputo. O seu último adeus incluiu o desejo de ser cremado. Ao som de aplausos, pouco antes das 10.30 horas de ontem, o caixão com o seu corpo, envolto em lenha e flores, foi conduzido ao forno do crematório, marcando o fim da primeira parte das exéquias. A segunda foi a concentração, sobretudo de colegas artistas, na Associação dos Músicos Moçambicanos, onde foi de novo enaltecida a figura do artista.
As baquetas de Paíto Tcheco pousaram-se para sempre mas vão para sempre ecoar na memória dos que guardam as suas virtudes como um músico que foi mais do que música. Escalou também o cinema, ao participar no filme “O Grande Bazar”, de Licínio Azevedo. Ecoará também uma frase que gostava de repetir, eternizada na sua página no Facebook: “a minha paixão é a música. Vivo a vida sendo aberto e sincero”.
Fonte: Jornal Notícias