Crise de combustíveis no país – Estudo aponta associação de factores estruturantes

Um estudo apresentado, esta quinta-feira, pela Fundação da Competitividade Empresarial (FUNDEC) aponta uma associação de factores estruturais na crise de combustíveis que tem afectado com gravidade o país, apesar da actual tendência de estabilização. No concreto, mesmo reconhecendo a contribuição de factores exógenos por detrás da crise, o estudo aponta que internamente o país não soube criar condições para que a crise que se verificou não tivesse sido intensa, a começar pela forma como as políticas macroeconómicas gerem a questão relacionada com disponibilidade e acesso a divisas.

A realidade relacionada com a escassez ou disponibilidade está, de acordo com o estudo, associada a uma realidade antiga do país, caracterizada pela fraca capacidade de gerar divisas, mas também por conta das decisões do Banco de Moçambique, tendo em conta que esta entidade deve, igualmente, ter e desempenhar um papel de estabilização, sem, contudo, posicionar-se como operador e regulador ao mesmo tempo.

Diante da actual realidade, o estudo denominado “Mercado de combustíveis, escassez de divisas, sistema bancário e impactos macroeconómicos em Moçambique (2019 – Maio de 2026) aponta para caminhos que podem contribuir para a criação do que se considera “linha estratégica de liquidez cambial”. Este mecanismo, segundo defende o estudo, seria responsável por garantir recursos que possam garantir a importação de produtos considerados estratégicos, a partir dos próprios combustíveis líquidos.

O economista-chefe da FUNDEC, Clésio Foia, explicou que o problema não esteve apenas relacionado com a evolução dos preços internacionais dos combustíveis, mas também com a dificuldade de acesso a moeda estrangeira para financiar as importações, muito por culpa, não necessariamente dos bancos comerciais, mas por conta das políticas de gestão adoptadas pelo Banco de Moçambique.

Segundo Foia, as empresas distribuidoras arrecadam a maior parte das suas receitas em meticais, enquanto os fornecedores internacionais exigem pagamentos em dólares norte-americanos.

“O combustível é importado em dólar, mas a maior parte das receitas é gerada em meticais. Temos muito metical em carteira, mas não temos dólares suficientes para realizar as importações. Existe um descasamento entre as moedas”, explicou Foia, para quem as características da economia moçambicana a colocam em quase permanente dependência.

O economista referiu que esta situação cria vulnerabilidades significativas para uma economia fortemente dependente de importações, como é o caso de Moçambique.

Para reduzir a exposição a futuras crises de abastecimento, a FUNDEC recomenda a criação de linhas estratégicas de liquidez cambial que permitam garantir o acesso a divisas em períodos de escassez.

“Era preciso criar linhas de financiamento cambial para recursos estratégicos, permitindo que, em situações de escassez pontual, o país consiga assegurar a importação de produtos essenciais”, defendeu.

Além dos combustíveis, a organização alerta que a mesma limitação poderá afectar outros sectores considerados vitais para a economia e para o bem-estar da população.

“Hoje falamos de combustíveis, mas amanhã podemos estar a falar de medicamentos, cereais ou outros bens essenciais. Moçambique continua a ser uma economia com forte dependência de importações”, observou.

Impactos na inflação e na política monetária
A FUNDEC alerta ainda para os efeitos que a subida dos preços dos combustíveis poderá produzir sobre a inflação e sobre a actividade económica.

Segundo Foia, o aumento dos custos dos combustíveis tende a reflectir-se nos preços dos transportes, da produção e da distribuição de bens e serviços, contribuindo para o agravamento das pressões inflacionistas.

“Como consequência da subida dos preços dos combustíveis, vamos ter algum nível de inflação com tendência crescente”, afirmou.

O economista considera que este cenário poderá levar o Banco de Moçambique a manter ou reforçar medidas de política monetária restritiva para conter a escalada dos preços.

Foia recordou que o banco central adoptou recentemente medidas nesse sentido, incluindo o aumento das reservas obrigatórias para passivos em moeda nacional, procurando reduzir a liquidez disponível na economia e controlar a inflação.

Para a FUNDEC, a resolução dos constrangimentos cambiais constitui um passo fundamental para garantir a estabilidade do mercado de combustíveis, reforçar a segurança económica do país e reduzir a vulnerabilidade da economia moçambicana perante choques externos.

Fonte: MediaFax

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