Mostrado em documentos norte-americanos: O plano secreto de lavagem de imagem de Chapo e Matlombe

Estávamos em Dezembro de 2024. Moçambique estava a ferro e fogo. As manifestações contra a gigantesca fraude eleitoral que haviam transformado o partido Frelimo e Daniel Chapo em vencedores, haviam tomado o país. A ordem havia sido suspensa, e Venâncio Mondlane literalmente dirigia o país, através das famosas “lives”, e o regime estava por um fio.  

A partir dos Estados Unidos da América, Daniel Chapo havia montado um esquema para convencer a comunidade internacional de que havia ganho as eleições e de que o processo eleitoral havia sido transparente. E a “mídia” internacional é que devia fazer parte desse esquema pago para publicarem notícias de que a Frelimo e Chapo haviam ganho as eleições quando estava claro para meio-mundo que o que havia acontecido era um golpe eleitoral e o povo estava nas ruas a protestar e as Forças de Segurança a matarem indiscriminadamente os manifestantes. Ainda é viva a memória de um blindado das Forças Armadas a passar por cima do corpo de uma jovem manifestante na Av. Eduardo Mondlane.  

Nessa altura, Daniel Chapo contratou um cidadão de nome Unik Ernest para, em seu nome, fazer “lobby” a partir dos Estados Unidos junto das principais órgãos de informação para fazer garantir a publicação de notícias que, em suma, dariam a entender ao público de que as eleições haviam sido justas e que não havia razões para as manifestações. Em resumo: o objectivo era que os principais órgãos de comunicação internacional destorcessem ou fizessem uma contra-informação sobre o que realmente se estava a passar em Moçambique.  

E porque nos Estados Unidos essa actividade requer registo e publicação de relatórios de actividades e financeiros, Daniel Chapo tinha de se registar sob a Lei dos Agentes de Interesses Estrangeiros denominada “Foreign Agents Registration Act”. É uma Lei Federal, promulgada em 1938, que exige que indivíduos e entidades que actuam nos EUA em nome de Governos, partidospolíticos ou empresas estrangeiras, comumente designados como “mandantes estrangeiros”, se registem no Departamento de Justiça e divulguem publicamente suas actividades, receitas e despesas.  

O objectivo principal da Lei é garantir a transparência e informar ao Governo norte-americano e ao público norte-americano sobre a influência estrangeira na política e na opinião pública do país. O “Foreign Agents Registration Act” abrange “lobistas”, consultores de relações públicas, empresas de advocacia, Fundações e outros que realizam actividades políticas, buscam moldar a percepção pública ou distribuem fundos em apoio a interesses estrangeiros nos EUA.  

Os agentes registrados devem enviar relatórios periódicos detalhando as suas relações com a entidade estrangeira, o trabalho realizado e o fluxo financeiro.   O “lobby” de Daniel Chapo deu entrada e foi registado no dia 20 de Dezembro de 2024, três dias antes de o Conselho Constitucional declarar Daniel Chapo vencedor. Chapo foi registado como “mandante estrangeiro”. E nos formulários do “Foreign Agents Registration Act” é indicado como governador da província de Inhambane, o que não constituía verdade, uma vez que já havia sido exonerado do cargo para concorrer e já havia concorrido às eleições e até já era secretário-geral interino do partido Frelimo desde Maio de 2024.

O endereço de Daniel Chapo nos documentos da “Foreign Agents Registration Act” é uma vivenda que está localizada na zona do Museu, na Polana Cimento “A”, na Rua dos Lusíadas, N.o 248. Esse endereço também falso. O Canal de Moçambique esteve nessa vivenda e descobrimos que nunca foi endereço de Daniel, ou seja, essa informação é também falsa.  

O “lobista” João Matlombe

Juntamente com o formulário foi submetido ao Departamento de Justiça norte-americano uma estratégia de comunicação que detalha como seria levada a cabo a campanha de lavagem de imagem a partir dos Estados Unidos. A estratégia foi elaborada por uma empresa designada “Lokee Worldwide Productions” empresa criada por Unik Ernest em Outubro de 2000 em Nova York. Na sua página a “Lokee Worldwide Productions” apresenta-se como uma empresa multidisciplinar especializada em agenciamento de talentos, “branding” estratégico, turismo cultural de luxo e consultoria de entretenimento.  

A estratégia, de cinco páginas, de gestão da fraude eleitoral, apesar de ter o timbre da “Lokee Worldwide Productions”, foi elaborada por João Matlombe, estava desempregado e que, mais tarde, foi nomeado ministro dos Transportes, Comunicações e Logística e é uma espécie de super-ministro do actual Governo.   Segundo a referida estratégia, o objectivo era promover a aceitação dos resultados eleitorais (fraude eleitoral) e do processo democrático e desencorajar os protestos e manifestações, propagando estabilidade e unidade através dos meios de comunicação internacionais.  

No sumário executivo do documento refere-se que Moçambique está num momento importante da sua jornada democrática. E toda a fraude eleitoral e os protestos são descritos como “desafios do processo que levaram a tensão”. João Matlombe escreveu no documento que a tensão pós-eleitoral estava a ter impacto em Moçambique e nos seus vizinhos e na percepção global.  

Assim, o objectivo da campanha de desinformação que iria ser levada a cabo sobre a fraude eleitoral tinha quatro objectivos: (1) reafirmar a legitimidade dos resultados fraudulentos através de uma lente global nos Estados Unidos e minimizar a cobertura global negativa, (2) construir uma confiança na liderança governamental destacando vozes globais de líderes que apoiam o processo democrático em Moçambique e África, (3) encorajar diálogo no lugar de protestos (4) destacar o momento posterior com uma governação estável.   Através de uma combinação estratégica dos meios de comunicação e engajamento da comunidade e enquadramento de narrativa pretendia-se inspirar unidade nacional e desencorajar agitação.  

Mensagens principais a ser lançadas na imprensa

Segundo o documento na posse do Canal de Moçambique, as principais mensagens que seriam lançadas na imprensa seriam para pôr em destaque a legitimidade do processo democrático de Moçambique e o esforço de transparência levado a cabo para as eleições livres e justas, destacar os esforços governamentais para promover desenvolvimento económico, melhorar infra-estruturas e melhoria das condições de vida dos cidadãos, indicar a importância da unidade na diversidade exortando os cidadãos a trabalharem juntos para um Moçambique pacífico e próspero, encorajar a resolução pacífica das diferenças através do diálogo e não com protestos que vão pôr em perigo a estabilidade nacional.  

Segundo a estratégia, a audiência escolhida para estas mensagens são as cadeias internacionais de comunicação social, designadamente, a Fox, Reuters, Newsweek, Forbes, CNN, NBC e Bloomberg, cidadãos moçambicanos, particularmente os jovens, e toda a demografia inclinada para a oposição, organizações da “sociedade civil” e líderes comunitários, observadores internacionais e parceiros de cooperação.  

A estratégia

Segundo a estratégia, os consultores iriam precisar de e usar citações de porta-vozes governamentais e observadores credíveis para reafirmarem que as eleições tinham diso livres e justas. Nos jornais internacionais seriam plantadas opiniões pagas destacando o progresso de Moçambique e a necessidade da unidade. Os consultores também se comprometeram a arranjar entrevistas exclusivas para o representante do Presidente, que seria o elemento de contacto para a “media” internacional. Nas redes sociais seriam promovidas campanhas para promover paz em vez de protestos, e isso seria feito também nas universidades, para aceitarem a democracia. Aceitar a democracia equivale a aceitar a fraude eleitoral.  

A mesma estratégia incluía a divulgação de histórias de sucesso de pessoas que foram ajudadas por iniciativas do Governo. No campo cultural, seriam usados artistas para divulgarem mensagens de paz e unidade. As igrejas também seriam envolvidas para ampliar mensagens de paz, desencorajando protestos contra a fraude eleitoral. E contratar as organizações internacionais para validarem as eleições.   Toda esta campanha custou 4,8 milhões de meticais pagos no final do processo, segundo os documentos submetidos pelo “lobista” de Daniel Chapo.  

A maior parte das principais actividades vertidas nessa estratégia foi realizada. Basta recordar as entrevistas repentinas de Daniel Chapo na “media” internacional. Eram operações compradas, segundo a estratégia submetida nos Estados Unidos.   O “Canal de Moçambique” contactou a Presidência da República, na pessoa do adido de imprensa, Adilson Adinane, mas, até ao fecho desta edição, não respondeu às nossas solicitações. Também contactámos o ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, que não respondeu às nossas perguntas.  

Venâncio Mondlane diz que Chapo mentiu aos norte-americanos e pede esclarecimento  
Venâncio Mondlane, contra quem a estratégia de desinformação aprovada seria implementada, submeteu à Presidência da República um pedido de informação sobre os documentos que agora foram tornados públicos. Segundo Venâncio Mondlane, esses factos documentados suscitam legítimas preocupações de ordem ética, jurídica e de reputação para o nosso país.  
Venâncio Mondlane considera que da análise dos documentos emergem incongruências graves que carecem de uma clarificação, concretamente a incoerência factual nas declarações oficiais perante autoridade estrangeira.  

“Vossa Excelência renunciou formalmente ao cargo de Governador a 22 de Maio de 2024 para se dedicar à corrida eleitoral. Portanto, a 20 de Dezembro de 2024, data da submissão do documento no DOJ, Vossa Excelência já não exercia essas funções oficiais”.   Sobre o direcionamento estratégico e os “media” internacionais, Venâncio Mondlane refere que à oposição preocupa o facto de se estruturarem acções dispendiosas de “lobby” externo com o intuito de condicionar ou moldar as linhas editoriais visando a validação externa da legitimidade do processo eleitoral de 2024, em detrimento da transparência real exigida internamente pelos cidadãos.   No seu pedido de esclarecimento, o presidente do partido ANAMOLA aponta para o facto de um chefe de Estado manter um canal de “lobby” irregular ou associado a declarações falsas num Departamento de Justiça estrangeiro.  

“O documento constitui prova inequívoca de que foram mobilizados expedientes artificiais de engenharia de percepção pública, centralizados no estrangeiro, com o claro intuito de branquear o contestado processo eleitoral de 2024”, lê-se.

Fonte: Canal de Mocambique

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