Mais de uma centena de cidadãos malawianos chegaram, nesta terça-feira, ao Terminal Rodoviário Interprovincial da Junta, na Cidade de Maputo, em trânsito para o Malawi, depois de abandonarem a África do Sul na sequência dos recentes episódios de hostilidade e manifestações xenófobas dirigidas a imigrantes.
Entre os repatriados encontram-se homens, mulheres e crianças que procuram regressar aos seus países de origem perante o agravamento das tensões anti-imigração em território sul africano.
A maioria segue viagem, desde esta quarta-feira, para a província de Tete, de onde continuará o percurso até ao Malawi. O clima de insegurança e medo motivou a decisão de muitos estrangeiros de deixarem a África do Sul, mesmo em zonas onde não foram registados ataques directos.
“Estamos apenas com medo, porque nos estão a dizer que devemos regressar aos nossos países. É por isso que estamos a voltar para casa.
Na zona onde eu vivia, não houve episódios de xenofobia, mas havia receio, porque nos diziam constantemente que devíamos regressar às nossas casas”, relatou um dos cidadãos malawianos em trânsito por Maputo.
Entre os que regressam encontram-se igualmente moçambicanos que residiam na África do Sul e que afirmam ter sido afectados pelo ambiente de crescente hostilidade contra estrangeiros. Jossias Samuel, cidadão moçambicano que decidiu abandonar o país vizinho, descreveu um cenário marcado por perseguições, destruição de bens e frequentes operações de fiscalização. “As coisas não estão boas na África do Sul.
Exigem-nos documentos constantemente e há uma forte hostilidade contra os estrangeiros. Tudo foi destruído, incluindo as nossas casas, e muitas pessoas ficaram sem um lugar para viver. Tentámos fugir, mas os sul-africanos perseguiam-nos constantemente. Até mesmo quem utilizava o transporte público era mandado parar nos bloqueios de estrada para a apresentação e verificação de documentos”, afirmou.
A afluência de passageiros ao Terminal da Junta levou os operadores de transporte a reforçarem as ligações rodoviárias entre Maputo e Tete, numa tentativa de responder à crescente procura. Contudo, a situação tem colocado desafios logísticos significativos. Muitos dos viajantes chegam com grandes quantidades de bagagem e sem recursos financeiros suficientes para custear as deslocações.
Segundo Paulo Mutisse, representante da Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO), os operadores foram obrigados a mobilizar meios adicionais para garantir a evacuação dos passageiros.
“A maior parte são cidadãos malawianos. Nós transportámo-los até Tete, e depois eles prosseguem viagem para o país de origem. São pessoas que recebemos com dificuldades sérias para o pagamento, mas, devido ao elevado número de passageiros que se encontrava no Terminal da Junta, mobilizámos os nossos associados para ajudar na evacuação. Hoje de manhã (quarta-feira), saíram cerca de 15 autocarros com destino à província de Tete”, explicou.
Mutisse sublinhou ainda que a crise não afecta apenas cidadãos malawianos, mas também moçambicanos que regressam da África do Sul em condições semelhantes. “É o máximo que podemos fazer para apoiar esta causa, que não afecta apenas os malawianos, mas também os moçambicanos.
Estando estas pessoas no nosso território, não tínhamos alternativa senão prestar o apoio necessário”, acrescentou. Até à tarde desta quarta-feira, dezenas de cidadãos malawianos permaneciam no terminal à espera de transporte para prosseguirem viagem. A chegada destes grupos ocorre num contexto de crescente preocupação regional perante o recrudescimento das tensões anti-imigração na África do Sul.
Vários governos da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) acompanham a situação e procuram prestar assistência aos seus nacionais afectados pelos incidentes .
Fonte: O País