Após a desaceleração registada na actividade económica durante o primeiro trimestre, o sector empresarial prevê uma recuperação gradual no segundo trimestre de 2026. Esta expectativa é sustentada pela estabilização do ambiente macroeconómico, retoma progressiva das actividades produtivas nas regiões afectadas por eventos climáticos extremos e pela aprovação de leis consideradas estratégicas para a melhoria do ambiente de negócios. Apesar deste cenário encorajador, muitas empresas continuam em reconstrução e reorganização das suas operações na sequência das cheias que afectaram várias regiões do país no início do ano. Paralelamente, os efeitos residuais das manifestações ocorridas em 2024 continuam a afectar diversos sectores da economia nacional.
Estes dados foram apresentados, na semana passada, em Maputo, durante o briefing económico sobre a dinâmica de negócio no primeiro trimestre de 2026 e análise da conjuntura actual. Na ocasião, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) reconheceu que persistem desafios significativos relacionados com o acesso ao financiamento, a inflação, a disponibilidade de divisas e a produtividade empresarial. Ainda assim, considera que a implementação de reformas estruturais poderá contribuir para dinamizar o investimento privado e criar condições mais favoráveis à actividade empresarial. As perspectivas apontam para um crescimento moderado da actividade nos sectores da agricultura, hotelaria e restauração, bem como nas indústrias criativas e culturais. Adicionalmente, a expansão dos projectos ligados à indústria de petróleo e gás poderá desempenhar um papel determinante na recuperação económica, à medida que mais empresas iniciem processos de contratação e instalação de operações no país.
Contudo, a CTA alertou para diversos factores de risco que poderão limitar o ritmo da recuperação económica. Dos quais destaca-se o aumento dos custos de financiamento. O Banco de Moçambique manteve a taxa MIMO em 9,25 por cento e reforçou os requisitos de reservas obrigatórias dos bancos comerciais, reduzindo a liquidez disponível no sistema financeiro. Esta situação poderá resultar em condições de crédito mais restritivas e em taxas de juro mais elevadas para as empresas. A inflação continua igualmente a preocupar o sector privado. A recente subida dos preços dos combustíveis tem vindo a pressionar os custos de produção e transporte, provocando reflexos nos preços dos bens de consumo, sobretudo dos produtos de primeira necessidade. Outro constrangimento apontado pela CTA é o acesso a divisas. A organização considera que este problema deixou de ser conjuntural para assumir características estruturais, comprometendo a capacidade das empresas de importar matérias-primas, equipamentos e outros insumos essenciais para as suas operações. Mercado sob pressão No que respeita à empregabilidade, a situação permanece desafiante.
As empresas ainda não retomaram um ritmo significativo de contratação, cenário que poderá ter implicações económicas e sociais nos próximos meses. Neste contexto, o sector privado defende a implementação de medidas de apoio à recuperação empresarial como forma de estimular a criação de postos de trabalho e acelerar o crescimento económico. A produtividade empresarial também continua condicionada por factores estruturais, com destaque para as dívidas do Estado aos fornecedores. Embora o Governo tenha anunciado recentemente uma estratégia para a liquidação destes passivos, o plano prevê um horizonte de execução de até sete anos, situação que continuará a afectar a tesouraria e a capacidade operacional de várias empresas. As questões logísticas e a necessidade de reabilitação e manutenção de infra-estruturas permanecem também entre as principais preocupações do empresariado, uma vez que influenciam directamente os custos operacionais e a competitividade das empresas Por outro lado, o sector privado acompanha com atenção a crescente aprovação de legislação sectorial. Embora reconheça a importância destes instrumentos para orientar e regular a actividade económica, existe preocupação quanto à eventual introdução de novas taxas e encargos para as empresas.
Um dos exemplos apontados é a Lei do Conteúdo Local, cuja implementação prevê mecanismos de financiamento associados à entidade responsável pela sua gestão. Perante este cenário, a CTA considera que o sucesso da recuperação económica dependerá da capacidade de equilibrar os esforços de regulação e desenvolvimento com medidas que promovam a competitividade empresarial, o investimento privado e a criação de emprego. Estes elementos são considerados fundamentais para consolidar o crescimento económico de Moçambique ao longo de 2026. O representante do Pelouro da Política Monetária e Serviços Financeiros na CTA, Belmiro Belchior, sublinhou que a actividade económica empresarial enfrenta um conjunto de desafios estruturais que exigem medidas urgentes para garantir a estabilidade macroeconómica e impulsionar o crescimento sustentável.
Entre os principais constrangimentos apontados estão a crescente pressão inflacionária, os riscos climáticos recorrentes, a elevada dívida pública e as dificuldades de acesso à moeda estrangeira. Dados mais recentes, segundo Belmiro Belchior, indicam que a taxa de inflação homóloga atingiu 7,2 por cento em Maio, enquanto a inflação mensal situou-se em 2,63 por cento e a acumulada em cinco por cento, reflectindo o aumento dos preços da energia nos mercados internacionais e a consequente subida dos preços dos bens alimentares importados consumidos no país. “A elevada dívida pública continua a representar um factor negativo, não apenas pela pressão exercida sobre as finanças do Estado, mas pelos impactos já visíveis nos resultados financeiros de algumas instituições bancárias no mercado nacional”. As perspectivas de crescimento continuam fortemente associadas ao desenvolvimento da indústria de petróleo e gás, considerada um verdadeiro “game changer” para o país.
O actual contexto de valorização dos preços da energia nos mercados internacionais oferece uma oportunidade para que Moçambique se afirme como um parceiro estratégico no sector energético global e maximize os benefícios da exploração dos seus recursos naturais. Contudo, a reflexão proposta vai além do potencial do gás natural. A principal preocupação reside na necessidade de repensar-se no modelo económico nacional e preparar-se o futuro através da diversificação da economia. Para isso, a fonte defendeu a priorização do investimento e do financiamento em sectores produtivos capazes de gerar valor acrescentado no mercado, de modo a ampliar a base produtiva nacional e reduzir a dependência dos grandes projectos extractivos. “A aposta em sectores alternativos poderá ser determinante para construir uma economia mais resiliente, inclusiva e capaz de proporcionar um crescimento ao longo prazo”. Por sua vez, o Governo defendeu que a consolidação fiscal em Moçambique deve assentar num equilíbrio entre o reforço das receitas públicas e a racionalização das despesas, como forma de garantir a sustentabilidade das contas do Estado e criar espaço para investimentos estratégicos nos sectores produtivos.
De acordo com o director nacional de Análise Fiscais e Financeiras, Alfredo Mutombene, o Executivo está a implementar acções para melhorar a eficiência na arrecadação fiscal, através da simplificação de procedimentos, digitalização dos processos tributários e reforço dos mecanismos de controlo da evasão fiscal. A medida visa elevar gradualmente o actual rácio fiscal, situado em cerca de 24 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), aproveitando o potencial de contribuição de segmentos da economia que ainda operam fora do sistema formal. A informalidade, que representa uma parcela significativa da actividade económica nacional, é vista como uma das principais fontes de crescimento futuro das receitas públicas. Entretanto, o Governo reconhece que a consolidação fiscal não pode ser alcançada apenas pelo lado da receita. O controlo da despesa pública é, igualmente, considerado fundamental para restaurar o equilíbrio macroeconómico e permitir uma maior capacidade de investimento do Estado. “Nos últimos anos, o peso crescente da massa salarial e do serviço da dívida pública tem reduzido o espaço disponível para despesas de investimento nos sucessivos Orçamentos do Estado. Como consequência, sectores considerados prioritários para a transformação económica, como a agricultura e a indústria, têm enfrentado limitações no acesso a recursos públicos”, disse.
Neste contexto, está em curso uma revisão do Código de Benefícios Fiscais, com o objectivo de avaliar incentivos específicos capazes de estimular o investimento produtivo. Contudo, as autoridades reconhecem que os obstáculos ao desenvolvimento destes sectores não são apenas de natureza fiscal. As infra-estruturas continuam a ser apontadas como um dos principais desafios à competitividade da economia, sobretudo no que diz respeito ao escoamento da produção e à integração dos mercados internos. Por essa razão, uma parte significativa das receitas provenientes da exploração do gás natural está a ser canalizada para projectos estruturantes. “Dos recursos gerados pelo sector, 60 por cento das receitas destinadas ao Plano Económico e Social e Orçamento do Estado deverão ser aplicados em infra-estruturas consideradas estratégicas para impulsionar as transacções comerciais e melhorar as condições de produção no país”, sublinhou. Apesar destas medidas de curto prazo, o Governo reconhece que persistem desafios estruturais que exigem investimentos de maior dimensão. Entre as prioridades destacam-se a modernização da agricultura, o fortalecimento da indústria nacional, a substituição de importações e a promoção das exportações, factores considerados essenciais para diversificar a economia e assegurar um crescimento sustentável a longo prazo.
Governo aposta na industrialização O Governo defendeu a necessidade de reforçar a cooperação com o sector privado como forma de aumentar a resiliência da economia moçambicana e criar condições para um crescimento sustentável e inclusivo. Segundo o ministro da Economia, Basílio Muhate, a melhoria do ambiente de negócios continua a depender da existência de previsibilidade, estabilidade e de um conjunto de reformas claras e consistentes que reforcem a confiança dos investidores e estimulem a actividade económica. Neste contexto, o Governo está a promover a elaboração do Plano de Acção para a Melhoria do Ambiente de Negócios (PAMAN II), instrumento que irá definir as principais reformas destinadas a impulsionar a competitividade, atrair investimento e promover o desenvolvimento do sector privado. As autoridades apelaram à participação activa do empresariado na elaboração do plano, através da apresentação de propostas e contributos nos mecanismos de consulta criados pelo Ministério da Economia. O governante reiterou, outrossim, a aposta na industrialização e na adopção de tecnologias digitais como estratégias para acelerar a recuperação e o crescimento das Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME).
A iniciativa visa modernizar todas as cadeias produtivas e criar um ecossistema que permita aos pequenos negócios integrarem-se nos sectores estratégicos da economia. CTA defende reformas estruturais O presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Álvaro Massingue, considera que, apesar dos sinais positivos a serem registados proximamente, a trajectória de recuperação continua dependente da capacidade de enfrentar desafios estruturais que têm condicionado o desempenho do sector privado ao longo dos últimos anos.
Durante o evento, o presidente da CTA destacou os principais desafios que continuam a afectar o sector empresarial moçambicano, com destaque para as dificuldades de acesso ao financiamento, os atrasos nos pagamentos do Estado às empresas, a escassez de divisas e as limitações das infraestruturas económicas. O dirigente defendeu, igualmente, a necessidade de acelerar a implementação de reformas estruturais que reforcem a competitividade da economia nacional, considerando que a superação destes constrangimentos é fundamental para impulsionar o investimento privado, estimular a produção e promover a criação de emprego. “A superação destes constrangimentos será determinante para estimular o investimento privado, aumentar a produção nacional e promover a criação de emprego”.
A organização manifestou a confiança de uma visão partilhada entre o Governo, sector privado e os parceiros de desenvolvimento para transformar os actuais desafios em oportunidades, contribuindo para a construção de uma economia mais forte, competitiva e resiliente. As perspectivas apontam para um crescimento moderado da actividade nos sectores da agricultura, hotelaria e restauração, bem como nas indústrias criativas e culturais. Adicionalmente, a expansão dos projectos ligados à indústria de petróleo e gás poderá desempenhar um papel determinante na recuperação económica, à medida que mais empresas iniciem processos de contratação e instalação de operações no país.
Fonte: Jornaldomingo