Durante décadas, a geografia foi um dos principais argumentos económicos de Moçambique. Os portos de Maputo, Beira e Nacala, as linhas férreas que ligam o interior da África Austral ao Oceano Índico e os corredores logísticos que atravessam o país alimentaram a ideia de que a posição geográfica podia transformar-se em vantagem competitiva.
Na abertura da Quinta Conferência Nacional das Comunicações, Daniel Chapo recuperou essa narrativa e acrescentou-lhe uma nova dimensão. Ao apresentar a visão do Governo para a transformação digital, afirmou que Moçambique pretende tornar-se um “hub energético, logístico e digital da região da África Austral”.
Poucos minutos depois, a Secretária-Geral da União Internacional das Telecomunicações (UIT), Doreen Bogdan-Martin, tinha deixado 23/06/2026 uma mensagem que ajuda a compreender a importância atribuída pelo Governo a esta agenda.
Depois de um encontro com Chapo, a responsável da agência das Nações Unidas para as telecomunicações afirmou que a transformação digital ocupa hoje um lugar central nas prioridades do Executivo.
“O Presidente colocou no topo da sua agenda a transformação digital para todo o país”, declarou, referindo-se igualmente aos avanços na preparação de uma estratégia nacional para a inteligência artificial.
A dirigente manifestou ainda o compromisso da UIT em apoiar a visão de um “Moçambique totalmente digital”, onde escolas, instituições de saúde e comunidades tenham acesso às tecnologias de informação e comunicação.
O encontro decorreu num momento em que a digitalização passou a ocupar um lugar central nas estratégias de desenvolvimento de vários países africanos.
O lançamento do 5G foi o anúncio mais visível da conferência, mas esteve longe de ser o único tema abordado. Ao longo da sua intervenção, Chapo falou de inteligência artificial, satélites de baixa órbita, protecção de dados, infra estruturas críticas, conectividade rural e economia digital.
A expressão “Moçambique totalmente digital”, utilizada pela responsável da UIT, encontra eco em várias passagens do discurso presidencial.
“Estamos perante uma transformação comparável às grandes revoluções que moldaram a história da Humanidade”, afirmou Chapo, evocando a máquina a vapor e a electrificação para ilustrar a dimensão das mudanças em curso.
A agenda apresentada em Maputo vai muito além da expansão das telecomunicações. Inclui a criação de novas instituições ligadas à transformação digital, a elaboração de uma estratégia nacional de inteligência artificial, a expansão da conectividade rural, o licenciamento de operadores de satélite e a construção de novas infra-estruturas de ligação internacional.
“O futuro das nações no mundo dependerá, cada vez mais, da sua capacidade de produzir conhecimento, gerar inovação e transformar talento em prosperidade”, declarou o Presidente perante reguladores, operadores, académicos e representantes de organizações internacionais reunidos na conferência.
A mesma preocupação atravessa actualmente grande parte do continente africano. Em diferentes países, a atenção deslocou-se das infra-estruturas tradicionais para os centros de dados, os serviços digitais, a inteligência artificial, o comércio electrónico e a produção de conhecimento.
“Queremos que Moçambique não seja apenas consumidor de tecnologia produzida noutras geografias globais, mas também produtor de soluções, conhecimento e inovação para responder aos desafios nacionais e regionais”, afirmou Chapo. Nacala-Lobito conectados por um cabo submarino.
A ambição anunciada em Maputo encontra uma das suas expressões mais concretas no projeto do cabo submarino Nacala Lobito, apresentado pelo Presidente como uma infra-estrutura destinada a reforçar a capacidade internacional de ligação à Internet e a posicionar Moçambique como corredor digital na região da SADC.
“Queremos ser um hub energético, logístico e digital da região da África Austral”, afirmou Daniel Chapo na parte final da sua intervenção. A frase surgiu quando o Presidente descrevia a posição que pretende para Moçambique numa economia cada vez mais dependente da circulação de dados, da capacidade de processamento e das infra-estruturas digitais.
Entre os projectos referidos encontra-se o Cabo submarino Nacala Lobito, actualmente em fase de concepção. Segundo Chapo, a ligação deverá aumentar a capacidade internacional de acesso à Internet, reduzir custos de comunicação e reforçar o papel de Moçambique na rede regional de telecomunicações.
A aposta não acontece isoladamente. Nos últimos anos, vários países africanos aceleraram investimentos em cabos submarinos, centros de dados e serviços digitais. A procura por capacidade de transmissão cresce à medida que aumentam o consumo de dados, a utilização de plataformas digitais, os serviços financeiros electrónicos e as aplicações associadas à inteligência artificial.
Em Maputo, a discussão sobre estas transformações ultrapassou largamente a introdução do 5G. Os organizadores da conferência colocaram na agenda temas como comunicações de emergência, inter-operabilidade, identidade digital, gestão do espectro radioeléctrico, inclusão digital e impacto dos desastres naturais sobre as redes de comunicação.
“Vamos discutir a integração de novos serviços da quinta geração, o impacto dos desastres naturais no ecossistema nacional de comunicações e questões ligadas às tarifas e aos modelos concorrenciais”, explicou Salomão David, porta-voz do evento, na apresentação da conferência.
A agenda da conferência reflecte uma mudança de escala no debate sobre comunicações. A presidente do Conselho de Administração do INCM, Helena Fernandes, tem defendido que a expansão das infra-estruturas digitais exige um equilíbrio permanente entre inovação e interesse público.
“A regulação deve proteger o interesse público na mesma proporção que fomenta a inovação e o investimento”, afirmou recentemente.
O posicionamento do regulador coincide com a fase de implementação do 5G em Moçambique. As condições associadas à consignação do espectro incluem obrigações de cobertura em zonas rurais, periurbanas e áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento económico e social.
Os números ajudam a medir a dimensão da tarefa. Os programas Internet para Todos e Conectividade Rural têm como meta alcançar 90 por cento da população até 2030.
Nas zonas mais afastadas dos grandes centros urbanos, a conectividade continua a ser um dos principais obstáculos identificados pelo sector. A promessa da distância mais curta.
A discussão sobre cabos submarinos, satélites e redes de nova geração pode parecer distante da vida quotidiana da maioria dos moçambicanos. Daniel Chapo procurou aproximar essa realidade do terreno recorrendo a exemplos concretos.
“Queremos que um estudante em Mueda tenha as mesmas oportunidades de acesso ao conhecimento que um estudante na Cidade de Maputo; que um estudante em Mavago tenha as mesmas oportunidades que um estudante na Matola; que uma agricultora em Gurué possa aceder à informação de mercado e comercializar melhor a sua produção; que um pescador em Angoche receba informação útil para proteger a sua actividade pesqueira”, afirmou.
Ao longo dos últimos anos, a expansão da cobertura móvel alterou a forma como milhões de moçambicanos se comunicam, transferem dinheiro, acedem a serviços financeiros e procuram informação.
A agenda apresentada na conferência pretende ir além dessa primeira fase de conectividade. O Governo anunciou investimentos associados à iniciativa Internet para Todos, ao Programa de Conectividade Rural e à ligação de instituições de ensino. Segundo o Presidente, estão em curso investimentos destinados a expandir a cobertura móvel para mais de 300 localidades e a beneficiar cerca de 4,4 milhões de cidadãos.
A aposta inclui também a conectividade escolar. “Queremos que todas as escolas estejam ligadas à Internet de qualidade”, afirmou Chapo, que recordou a distribuição de mais de cinco mil computadores a estudantes do ensino superior e os investimentos previstos em laboratórios de informática e conteúdos digitais.
A visão encontra eco nas declarações da Secretária-Geral da UIT. Depois da audiência com o Presidente, Doreen Bogdan-Martin afirmou que a organização pretende apoiar um “Moçambique totalmente digital”, onde “todas as escolas estejam ligadas” e “todas as instituições de saúde estejam ligadas”.
A promessa de uma transformação digital inclusiva acompanha um desafio conhecido. Em muitas zonas do país, o acesso à rede continua condicionado pela distância, pela qualidade das infra estruturas ou pelo custo dos serviços. A velocidade com que essa realidade mudará será um dos indicadores mais visíveis da estratégia apresentada em Maputo.
A outra face da conectividade Entre os vários temas abordados na conferência, houve um que regressou em diferentes momentos do discurso presidencial: a segurança das redes, dos dados e das infra-estruturas digitais. “A soberania das nações já não se mede apenas pela integridade das suas fronteiras físicas”, afirmou Daniel Chapo.
“Mede-se igualmente pela capacidade de proteger os seus cidadãos e dados, desenvolver competências tecnológicas, assegurar infra-estruturas digitais resilientes e participar activamente na economia do conhecimento.”
Mais adiante, o Presidente voltou ao tema ao referir que o Governo está a consolidar instrumentos destinados a assegurar “a protecção dos cidadãos, dos seus dados e das infra-estruturas críticas nacionais”, ao mesmo tempo que expande a conectividade e promove a transformação digital.
Os números ajudam a enquadrar essa preocupação. Dados divulgados este ano apontam para 39.625 incidentes cibernéticos registados em Moçambique durante 2025. Relatórios recentes da Procuradoria-Geral da República assinalam igualmente o crescimento dos crimes informáticos e dos mecanismos utilizados para atingir cidadãos, empresas e instituições públicas.
O crescimento da economia digital coloca igualmente novos desafios às instituições encarregadas da investigação criminal. Fraudes electrónicas, roubo de identidade, invasão de sistemas, extorsão digital ou ataques contra infra-estruturas críticas exigem competências diferentes das tradicionalmente associadas à criminalidade convencional.
Nos últimos anos, o SERNIC tem vindo a reforçar a cooperação internacional e a capacidade técnica em matérias ligadas ao crime cibernético.
Ainda assim, a velocidade da transformação digital coloca questões que vários países continuam a enfrentar: a disponibilidade de peritos forenses, a capacidade de recolha e preservação de prova digital, a cooperação transfronteiriça e a investigação de crimes cometidos através de servidores, plataformas e contas localizadas fora do território nacional.
O desafio não é exclusivamente moçambicano. Em praticamente todos os países que aceleraram os processos de digitalização, os investimentos em conectividade foram acompanhados por investimentos em cibersegurança, protecção de dados e investigação especializada.
A avaliação da capacidade nacional de prevenção e resposta aos crimes cibernéticos tornou-se uma prioridade para várias instituições do sector. Nos últimos meses, o Instituto Nacional das Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC) trabalhou com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) na elaboração de um relatório destinado a apoiar o desenvolvimento de mecanismos de investigação, coordenação institucional e responsabilização criminal.
O tema esteve igualmente presente na própria agenda da conferência. Entre os painéis anunciados pelos organizadores figuram matérias ligadas à identidade digital, inter-operabilidade, comunicações de emergência, gestão do espectro radioeléctrico e resiliência das redes.
Na apresentação do encontro, o porta-voz do evento, Salomão David, explicou que a conferência iria discutir “o impacto dos desastres naturais no ecossistema nacional de comunicações”, além dos desafios associados à introdução dos serviços de quinta geração e à evolução do sector.
A referência ganha particular relevância num país que enfrenta regularmente ciclones, cheias e outros fenómenos extremos. No discurso de abertura, Chapo recordou que, em períodos de emergência, “a capacidade de manter ou restabelecer comunicações torna-se essencial para salvar vidas, coordenar operações de socorro e apoiar comunidades temporariamente isoladas”.
Foi nesse contexto que o Presidente incluiu entre as prioridades nacionais temas como comunicações de emergência, conectividade rural, satélites de baixa órbita, resiliência digital, gestão do espectro radioeléctrico e segurança das redes. A expansão da conectividade ocupa o centro da estratégia apresentada em Maputo.
O discurso deixa igualmente claro que a protecção dessa conectividade passou a fazer parte da mesma agenda. Quem produzirá o futuro digital? Ao longo da conferência, Daniel Chapo falou várias vezes de infra estruturas, conectividade e investimento. Mas algumas das passagens mais reveladoras do discurso foram dedicadas às pessoas.
“O futuro das nações no mundo dependerá, cada vez mais, da sua capacidade de produzir conhecimento, gerar inovação e transformar talento em prosperidade”, afirmou perante representantes de operadores, reguladores, universidades e organizações internacionais.
A frase surge num momento em que a transformação digital começa a alterar o perfil das competências procuradas pelas economias.
A expansão das redes exige engenheiros, programadores, especialistas em cibersegurança, gestores de sistemas, técnicos de telecomunicações, analistas de dados e investigadores capazes de acompanhar a velocidade da mudança tecnológica.
A preocupação aparece também noutra passagem do discurso: “Queremos que Moçambique não seja apenas consumidor de tecnologia produzida noutras geografias globais, mas também produtor de soluções, conhecimento e inovação para responder aos desafios nacionais e regionais”, declarou Chapo.
A ambição coloca um desafio que ultrapassa a construção de antenas, centros de dados ou cabos submarinos. Produzir conhecimento exige universidades, centros de investigação, empresas tecnológicas e um ambiente capaz de transformar ideias em produtos e serviços. Foi precisamente nessa direcção que a Secretária-Geral da União Internacional das Telecomunicações procurou apontar durante a sua visita a Maputo.
Doreen Bogdan-Martin destacou o envolvimento dos jovens moçambicanos na adopção de tecnologias digitais e considerou que o país dispõe das condições necessárias para consolidar os progressos alcançados.
“Penso que o futuro de Moçambique é radiante, especialmente o futuro digital. É excelente ver como os jovens estão a adoptar as tecnologias digitais”, afirmou a responsável da UIT. A mesma preocupação está presente nas medidas anunciadas pelo Governo.
O Presidente referiu investimentos superiores a 20 milhões de dólares na conectividade escolar, abrangendo o ensino básico, técnico-profissional e superior. Recordou igualmente a distribuição de mais de cinco mil computadores a estudantes universitários e anunciou a criação de laboratórios de informática, a digitalização de conteúdos e o reforço das competências digitais.
“Queremos que um estudante em Mueda tenha as mesmas oportunidades de acesso ao conhecimento que um estudante na Cidade de Maputo”, afirmou. A frase remete para uma das questões que atravessam toda a estratégia apresentada na conferência.
A transformação digital pode reduzir distâncias geográficas, mas não elimina automaticamente as diferenças de acesso ao conhecimento, à formação e às oportunidades económicas. É nesse terreno que se decidirá uma parte importante dos resultados da agenda agora apresentada. As redes podem transportar dados.
A inovação continua a depender da capacidade de formar pessoas capazes de os transformar em conhecimento, produtos, serviços e actividade económica.
Fonte: Evidências