Rosário Fernandes com discurso cáustico na Primeira Convenção do ANAMOLA: “O inimigo é apenas um. O partido Frelimo”

by Sérgio Tinga
Foi, mais vez, por procuração. Que Rosário Fernandes, que foi presidente da Autoridade Tributária voltou a tomar parte em mais uma reunião magna do partido de Venâncio Mondlane.

Na primeira convenção da Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) que teve lugar entre os dias 20 e 22 de Junho, na cidade de Nampula, Rosário Fernandes, falou por interposta pessoa, enviando a sua intervenção para que fosse lida. Já o tinha feito em Setembro de 2025, na reunião da Convenção Nacional, na Beira.   Desta vez, Rosário Fernandes apresentou um discurso muito mais cáustico e estratégico para o ANAMOLA. “O inimigo principal do ANAMOLA é apenas um. O partido Frelimo. Não se deve perder tempo com querelas de atritos e confrontações no seio da oposição quando se quer mesmo vencer o pleito eleitoral. Uma oposição inteligente supõe-se esclarecida, nunca dividida em libélulas acusatórias entre pares é sempre unida e solidária diante das urnas da votação. Em todo o mundo é assim”, refere o documento de Rosário Fernandes lido por Edson Mapsanganhe, membro do Conselho Jurisdicional do ANAMOLA.  

Disse que o ANAMOLA deve focar-se no combate ao uso dos meios do Estado pela Frelimo. “Neste caso, o uso abusivo, sistemático e discricionário do erário e recursos públicos, mormente em períodos de campanha eleitoral, como se de propriedade privada e pessoal se tratasse em atentado contra o discursivo combate ao despesismo e à verbosa promoção racionalidade económica à escala institucional e nacional”, afirma.  

Intitulada “Carta independente à Primeira Reunião Nacional do Partido Anamola – a uma sugestão de paradigma”, a carta de Rosário Fernandes foi efusivamente saudada pelos membros, e pelo seu interesse, publicamos aqui os trechos mais relevantes.   “Na perspectiva de um futuro Governo Anamola, que prioridades estratégicas, tácticas e metodológicas e factores de sustentabilidade? Uma sugestão de paradigma.  

Permitam-me antecipadamente cumprimentar e saudar Sua Excelência, o Presidente Interino do Partido Anamola, bem como o colégio de direcção e representação deste, no território nacional e na diáspora, assim como todos os Exmos. participantes e convidados desta magna primeira reunião nacional do Partido Anamola.  

A minha contribuição é independente e não presencial, mas é eivada de toda a maior solidariedade ao evento de elevada relevância nacional e internacional. Esta modesta mas sistemática contribuição assentará em pilares de maior vulto no actual xadrez de competitividade partidária, em que Anamola se vê demarcando por sinais claros de diferença e qualidade de ensaio de políticas públicas para uma melhor governação alternativa.  

Prioridades estratégicas Anamola deve demarcar-se por uma maior capacidade de focalização e clareza de objectivos estratégicos, mas nunca respondendo às acções ardilosas ou provocações do inimigo, porque responder é deliberadamente desfocalizado. Os procedimentos costumeiros de intimidação e incriminação judicial são armas políticas clássicas do poder.  

Prioridades tácticas Principal inimigo político. Em política, os equívocos de retórica pagam-se com facturas elevadas e irracionais. Se não há clareza sobre qual é o inimigo principal, numa peleja ideológica e metodológica, perdes as batalhas e, finalmente, a guerra de emancipação da causa.  

O inimigo principal do Anamola é apenas um. Quem? O inimigo principal do Anamola é apenas um. A Frelimo.  

Não se deve perder tempo com querelas de atributos e confrontações no seio da oposição quando se quer mesmo vencer o pleito eleitoral. Uma oposição inteligente supõe-se esclarecida, nunca dividida em libélulas acusatórias entre pares. Deve estar sempre unida e solidária diante das urnas da votação. Em todo o mundo é assim.  

Hoje, a Zona Euro e os Emirados Árabes Unidos, mais que nunca, unem-se por blocos regionais de aliança para mitigar os impactos de Hormuz. A África, dividida ou não, vem explorando rotas comuns de acesso aos derivados de petróleo do resto do mundo ou das suas próprias refinarias, mesmo diante dos diferendos políticos que a dividem em variadas geografias políticas. A união estratégico-táctica faz absoluta diferença diante de um inimigo principal comum.  

Discutem-se as opções de políticas públicas, bem como os pelouros de governação, mal vencidas as eleições, primeira prioridade táctica, não se perdendo o tempo precioso em libélulos acusatórios mútuos e conflitos fúteis no seio da própria oposição que aspira a ser governo.  

Principais erros do inimigo principal, o que a oposição, com a Anamola ao leme, deve condenar e evitar no seu governo, é a falta de sintonia entre o manifesto político da campanha e a práxis governativa. A práxis acabou introduzindo o chamado Diálogo Nacional Inclusivo, gerado por força dos controversos resultados eleitorais de 9 de outubro de 2024, à margem do programa de construção do manifesto eleitoral da Frelimo.  

Presidencialismo exacerbado, onde a figura do primeiro-ministro é meramente cosmética, e sem qualquer expressão relevante, exceptuando os encargos com salários e regalias. Excessiva conflitualidade entre a figura do Presidente do Partido, entenda-se Frelimo e do Presidente da República que superintende o Estado Soberano, a Nação de todas as etnias, raças, credos e filiações e o país de todos sem excepção.  

A improbidade é tal que o Estado se confunde com o partido Frelimo cujas reuniões envolvem funcionários superiores desse mesmo Estado abrangem as horas normais de trabalho sem desconto nos salários.  

O uso abusivo, sistemático e discricionário do erário e recursos públicos, mormente em períodos de campanha eleitoral, como se de propriedade privada e pessoal se tratassem em atentado contra o discursivo combate ao despesismo e à verbosa promoção racionalidade económica à escala institucional e Nacional.   Portanto, estamos ainda a falar do principal inimigo político. Proliferação de instituições e unidades orgânicas supérfluas, Universidades segmentadas, de âmbito Provincial ou local, Institutos, Direcções Nacionais, Fóruns redundantes em qualidade e despesista.  

Algumas são abrupta e irracionalmente criadas, sem fundamento científico e o estudo de viabilidade prévio limitando-se a acomodar propósitos obscuros ou supostas figuras incómodas, como mecanismo discreto e silencioso de abafar a livre expressão e a crítica social de determinados vetores de força mediática activa.   O regionalismo, amiguismo e o compadrio, alvos históricos de Samora Machel, hoje restaurados como coramina de recrutamento, com enfoque especial nos chamados sabujos e lambe-botas, que se infiltram e se dividem nas hostes partidárias e do aparelho do Estado de forma articulada, o que justifica que raramente ou quase nunca sejam removidos ou neutralizados de forma efetiva.  

Critérios de filiação e novos ingressos
As boas práticas internacionais de filiação partidária são recomendadas. A pior infiltração nas telhas de cobertura não se enxerga a olho nu, porque a rotura maior reside nas fissuras presas às próprias telhas, achando-se inamovíveis na tenda partidária. O recrutamento deve ser selectivo, bem não excludente.  

A reciclagem pacífica dos renegados configura uma táctica de recrutamento. Os novos ingressos e os retornados devem sempre ser bem-vindos e festejados de forma proporcional diante dos símbolos do programa e dos estatutos partidários. A filiação, por métodos tecnológicos avançados, deve ser, em qualquer caso, sempre voluntariamente coerente e nunca coagida ou induzida.  

Prioridades metodológicas Garantir sempre que os prazos de execução sejam cumpridos em tempo útil, em toda espiral hierárquica, desde a presidência do partido aos órgãos de coordenação provinciais, Distritais e Sectoriais. A identidade partidária deve marcar a diferença substantiva, ideológica e metodológica em relação aos demais partidos, sem prejuízo de eventuais elos, uniões ou pactos de conveniência, enquanto concorram para os superiores interesses do Estado, da Pátria e da Nação.  

O chamado modus operandi ou Modus Faciendi caracteriza a maneira contemporânea de ser, estar e fazer da organização diante de uma fórmula comum de procedimentos, sobretudo quando se trata de avaliações e contratos quantitativos.   Quanto mais homogénea e coesa a organização, maior a credibilidade dos órgãos em toda a esfera de comando e execução.

Os símbolos, desde o hino do partido, o emblema, a indumentária e o logótipo, não são sequer sinais cosméticos. Exprime a identidade partidária, mas também o compromisso solene com a verdade material, a honestidade, a boa postura, a incorruptibilidade, a imparcialidade diante de entes proporcionais e a probidade como critérios sagrados de estabilidade da militância partidária.   A maioria dos partidos políticos no poder na região austral de África tem falhado nesses indicadores, com destaque para o ANC, a ZANU-PF, o MPLA e claramente a FRELIMO.

Os cartões de membro com os símbolos do partido impregnado são negociados a troco de favores mútuos. O exemplo das canetas da FRELIMO ilustra-o com clareza uma caneta simbólica por um milhão de meticais. O método, como dizia Francis Bacon, é a lanterna mágica que ilumina o caminho. A escuridão, em contrapartida, que equivale à ignorância social induzida, ofusca-o concorrendo para o atraso na realização prática do foco. Sustentabilidade partidária Indicação clara de fontes de financiamento auditáveis. As fontes de financiamento precisam de estar claramente definidas e tornadas públicas no seio da organização, caso a caso, incluindo as contribuições voluntárias de membros simpatizantes e cidadãos em geral.  

As mesmas devem ser obrigatoriamente auditáveis sempre que obscuras, mal ou não esclarecidas para dissipação de dúvidas ou omissões. O membro do partido se paga regularmente as suas cotas, tem direito à informação tempestiva e de igual forma o acesso às contas do seu partido no mínimo seis meses, ou de seis em seis meses, ou anualmente. A poupança e o revestimento produtivo.  

Lemas clássicos das administrações de recursos logísticos e financeiros. Devem ser mecanismos de capitalização com impacto a médio e longo prazo na modernização crescente da organização. A cultura da racionalidade orçamental converte-se, assim, em catecismo cúmplice do gestor financeiro e tesoureiro, em prol do desenvolvimento e expansão da organização partidária.  

A disciplina económica e financeira é vertical, devendo ser observada em toda a hierarquia do partido, desde a presidência até os escalões basilares no distrito e localidade. Transparência na execução financeira. É prestação regular de contas o que obriga a que todas as despesas sejam visualizadas e transparentes na plataforma digital desta organização, sujeitando-as às despesas sejam quais e de onde forem.  

A prestação regular de contas em sessões plenárias.

Todos os fundos de origem doméstica ou externa devem ficar igualmente sujeitos à prestação regular de contas, obrigando-se à fiscalização preventiva antes de qualquer auditoria interna ou externa. Anamola gerará cada vez maior credibilidade e confiança junto dos seus membros e simpatizantes e da comunidade nacional e internacional, quanto mais estiver exposto ao escrutínio público, marcando diferença abissal relativamente aos seus mais directos concorrentes.

Deste modo, membros e simpatizantes do Anamola, no país e na diáspora, exaltarão com solenidade o lema emblemático ‘Temos orgulho de ser Anamola, por ser diferente, hoje, amanhã e sempre.’ Muito obrigado. Viva Moçambique! Viva! Viva! Viva!”

Fonte: Canal de Mocambique

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