Xiquitsi leva timbila a palcos internacionais

O Programa Xiquitsi está a afirmar instrumentos e sonoridades moçambicanas nos principais palcos nacionais e
internacionais, formando jovens músicos e transformando timbila num dos símbolos da presença cultural moçambicana
no mundo, partilhando palcos até com instrumentos clássicos.

“Estamos realmente a fazer a diferença enquanto Moçambique, enquanto moçambicanos e Xiquitsi, que é
colocar os nossos instrumentos, as nossas tradições, aquilo que nos enriquece que nos identifica, além-fronteiras”, conta
à Lusa a directora do programa, Eldevina Materula.

No Cine-Teatro Scala, baixa de Maputo, dezenas de crianças e jovens ocupam-se em torno do palco de ensaio e formação,
onde se cruzam violinos, violoncelos, contrabaixo, instrumentos de sopro, coro, percussão e a timbila,
instrumento da família dos xilofones, típico do sul de Moçambique.

Criado em 2013 pela Associação Kulungwana, o Xiquitsi, nome de outro instrumento tradicional, nasceu como um
programa de ensino colectivo de música e cresceu até se ornar uma das principais iniciativas de formação artística do país.

Actualmente, acolhe gratuitamente crianças e jovens dos cinco aos 20 anos, oferecendo formação em cordas, coro,
composição, teoria musical, sopros, percussão e instrumentos tradicionais moçambicanos.

Entre partituras, instrumentos alinhados e grupos concentrados nos ensaios, o espaço acolhe um trabalho que procura utilizar a música como ferramenta de transformação social e de valorização da identidade cultural moçambicana.
Eldevina Materula – Kika, como todos a conhecem – foi ministra da Cultura e Turismo entre 2020 e 2025, mas nunca
deixou o projecto, que iniciou com aulas de violino, viola, violoncelo e contrabaixo, tendo integrado posteriormente
novas áreas para responder ao crescimento do interesse dos jovens pela música.

“Começámos com violinos, violas, violoncelo e contrabaixo. Um pouco mais à frente trouxemos a classe de coro. Um
pouco ainda mais à frente introduzimos a classe de sopro, clarinete e o oboé […], e este ano, em 2026, introduzimos a
classe de saxofone”, recorda.

O objectivo foi sempre utilizar a música como instrumento de inclusão social e de desenvolvimento humano, formando
jovens capazes de interpretar, criar e compreender diferentes linguagens musicais, sem perder a ligação às suas raízes
culturais.

Ao longo dos últimos 13 anos, o programa desenvolveu um trabalho de aproximação entre instrumentos associados à
tradição erudita europeia e sonoridades moçambicanas, com especial destaque para a timbila, considerada um dos
principais símbolos culturais do país, utilizada pelo povo Chopi (Inhambane, no Sul).

Desde 2005 que o instrumento, composto por lâminas de madeira (árvore mwenje) montadas sobre cabaças de
ressonância, é classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês).

Para Materula, a valorização que o projecto também tem dado à típica timbila demonstra que os instrumentos moçambicanos podem ocupar espaços tradicionalmente reservados à música clássica internacional.

A componente prática é complementada pelo ensino de teoria musical, leitura de partituras e história da música. Estêvão
Chissano, antigo aluno e actualmente professor do programa, explica que a formação procura desenvolver uma
compreensão mais ampla do fenómeno musical.

Fonte: Jornal Notícias

Related posts

Cidade nas mãos: Periferia como espaço de inspiração artística

Sérgio Langa e Joana Matenga criticam pobreza semântica e sensacionalismo das televisões moçambicanas em novo livro

“KIBWE”: Animação moçambicana no festival de Annecy