Jeremias nguenha: A eterna voz do povo

Não era membro das Forças Armadas e sequer pastor, mas subia ao palco trajado de farda militar e segurando uma Bíblia. Sobre o Livro Sagrado, justificava o seu uso em palco para não só marcar a diferença como artista, mas também com vista a convidar a sociedade a enveredar pela justiça e pela paz.

Assim era Jeremias Nguenha, um músico irreverente, de forte presença em palco, explorando manifestamente a expressão corporal e gestual, sensível aos problemas sociais de então e, por isso, merecedor de admiração e veneração por parte do povo moçambicano, de Norte a Sul, pese embora cantasse na língua xichangana. 19 anos após a sua morte, Jeremias Nguenha foi homenageado por Albino Nguenha e Banda Q10, num concerto cheio de emoção, música e memórias, que decorreu no dia 24 do mês corrente no Centro Cultural Municipal Ntsindya, na cidade de Maputo.

O artista, que nasceu a 19 de Março de 1972 e veio a falecer a 3 de Maio de 2007, com apenas 35 anos de idade, iniciou a sua carreira musical na Igreja Assembleia de Deus, onde sonhava um dia ser pastor.

Naquela congregação, através do canto coral, a sua veia musical fortificou-se, daí que, por volta de 1994-95 deu o salto para a música ligeira moçambicana, denunciando o egoísmo, a hipocrisia e a corrupção que, do seu ponto de vista, enfermavam a sociedade. Jeremias Nguenha era um músico das massas e assumia-se como “a voz do povo”, o que, a olhar para o teor das suas canções, não era para menos.

As temáticas dele passavam por uma forte intervenção social, sobretudo no que concerne ao desnível e exclusão financeira. O músico falava sem filtros sobre a realidade das vivências dos moçambicanos, as suas letras retratavam problemas dos cidadãos comuns, que dia e noite clamavam por uma sociedade mais justa. Era um dos mais importantes nomes da sua geração e conquistava a paixão do público também pelo facto de ser um artista que se conectava verdadeiramente com os fãs.

Em 2002, aquando do lançamento do disco “La Famba Bicha” foi à cadeia civil oferecer bolas de futebol, material discográfico, um televisor e um vídeo-reprodutor. Igualmente, um dia antes do espectáculo de lançamento, visitou o Hospital Central de Maputo (HCM), onde doou um cheque no valor de quatro milhões de meticais (recordando que foi antes de o Banco de Moçambique introduzir a nova família do Metical, que suprimiu três zeros à antiga moeda), mais de 20 lençóis, sabonetes e dezenas de cassetes áudio.

As visitas tinham como objectivo aproximar-se dos fãs, que, pela sua condição de reclusão ou de saúde, não poderiam estar no seu concerto. Entretanto, as polémicas também o perseguiam, a título de exemplo, o facto de ter esbofeteado um fotógrafo durante um espectáculo. Na altura, o músico justificou-se, dizendo que não gostava que o fotografassem sem a sua permissão, sobretudo porque sabia que alguns fotógrafos faziam dinheiro à sua custa.

Nguenha considerava que a sua imagem era de alto valor, avaliando-a entre 15 e 20 milhões de meticais, valor facial da antiga moeda.

Mensagens que continuam actuais Lá se vão dezenas de anos desde que hits como “La Famba Bicha” e “Vha da Voxe” foram lançados, contudo, nos dias que correm as mensagens destas obras continuam a fazer sentido.

Em “La Famba Bicha”, por exemplo, fala do elevado custo de vida no país e critica a subida galopante de diferentes produtos sem que os salários tenham um crescimento à altura de satisfazer as necessidades da maior parte das pessoas.

A música soa como uma crítica e também a um pedido de socorro. Quando diz “tekani ni le ndzaku” (levem-nos aqui atrás também), clama por mais justiça social e oportunidades para aqueles que, pretensamente, se encontram numa “bicha” que não anda.

Num outro verso, “wo dla pau la nwana” (estás a comer pão da criança), remete-nos a um adulto que devia dar de comer ou cuidar de uma criança, mas ao invés disso, cuida de si próprio. Jeremias Nguenha é ainda mais profundo quando solta palavras como “mu hi fenyissa mpandla” (estão a fazer-nos pentear a careca) para mostrar o que, na sua opinião, constitui o alógico e incongruente da analogia usada no tema.

Apesar da forte crítica, as suas canções também se equilibram entre as reclamações e “as possíveis soluções”, como vemos em “a nile hinga kweli pau, kwela maylano ni muholo” (não digo para não se subir o preço do pão, mas que aumentem o salário também), apesar de continuar, lamurioso, “hi tirela ku nyika ye wena we chapa” (trabalhamos para pagar o chapa). Jeremias Nguenha foi detentor dos prémios “Canção Mais Popular” do Ngoma 2001, “Personalidade do ano 2001 para a Área da Música”, “Troféu Masséve” da TVM e “Figura do Ano”, na votação do jornal “Notícias”

Fonte: Jornal Domingo

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