Relatório alerta que Estado Islâmico consolida área de influência em Cabo Delgado

by Sérgio Tinga

ACLED diz que grupo jihadista alterou estratégia, aposta na cooptação das comunidades e procura consolidar um enclave ao longo da costa norte de Moçambique

O grupo armado associado ao autoproclamado Estado Islâmico em Moçambique está a consolidar uma área de influência ao longo da costa da província de Cabo Delgado, recorrendo cada vez menos à violência indiscriminada contra as populações locais e privilegiando estratégias de pregação religiosa, coerção e controlo social para fortalecer a sua presença territorial.

A conclusão consta de um novo relatório divulgado pela Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), organização internacional especializada na monitoria e análise de conflitos armados, que sustenta que a insurgência atravessa uma nova fase da sua estratégia militar e política.

Segundo a análise, o grupo desenvolveu um enclave que se estende por mais de 100 quilómetros ao longo da costa de Cabo Delgado e cerca de 50 quilómetros para o interior, abrangendo zonas dos distritos de Mocímboa da Praia, Macomia e Quissanga. Apesar da presença das forças governamentais e de tropas ruandesas, os insurgentes mantêm liberdade de movimentos em partes deste território, onde procuram consolidar uma base de apoio junto das comunidades locais.

O relatório assinala que, desde 2023, a insurgência reduziu significativamente os ataques contra civis nas áreas onde pretende afirmar o seu controlo territorial. Em contrapartida, aumentou as visitas às aldeias para realizar pregações religiosas, desencorajar qualquer colaboração com as autoridades, impor normas inspiradas na sua interpretação da Lei islâmica e controlar a circulação de pessoas através de bloqueios de estrada.

Os investigadores defendem que esta mudança representa uma transformação estratégica do grupo, que procura substituir a violência indiscriminada por formas de cooptação coerciva das comunidades, preservando simultaneamente a capacidade de recorrer à força sempre que considera necessário.

A ACLED considera que esta alteração de estratégia resulta, em grande medida, da pressão ontrol exercida a partir de 2021, quando a intervenção das Forças de Defesa do Ruanda e da então Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral em Moçambique (SAMIM) travou a expansão dos ontrolze, que chegaram a controlar a vila de Mocímboa da Praia e outras localidades estratégicas da província.

Segundo o relatório, a perda de posições obrigou o grupo a ontrolzer-se militarmente e a procurar formas mais sustentáveis de manter influência sobre a população residente nas zonas costeiras.

A análise refere igualmente que a reorganização coincidiu com uma maior integração do grupo na estrutura global do Estado Islâmico, incluindo mudanças na liderança e um reforço da orientação ideológica proveniente da organização jihadista internacional.

Pregação, intimidação e ontrol social

De acordo com a ACLED, a estratégia actualmente seguida pelos insurgentes combina actividades religiosas com mecanismos de pressão sobre as comunidades.

Os combatentes deslocam-se regularmente às aldeias para realizar sessões de pregação, adquirir alimentos, impor determinadas regras de conduta e desencorajar qualquer colaboração com as forças governamentais. Em alguns casos documentados pela organização, os insurgentes terão destruído bebidas alcoólicas e cigarros, desencorajado o ensino laico, incentivado o ensino religioso e advertido os residentes para não participarem em reuniões promovidas pelas autoridades estatais.

A organização considera que estas acções visam construir gradualmente um sistema de controlo social inspirado na ideologia do Estado Islâmico, embora saliente que o grupo ainda está longe de exercer funções de governação semelhantes às observadas em algumas regiões da África Ocidental.

Apesar da redução relativa dos ataques contra civis no interior da área de influência identificada pela ACLED, o relatório sublinha que a violência permanece intensa noutras regiões da província. Segundo os investigadores, os insurgentes continuam a atacar comunidades localizadas mais a sul de Cabo Delgado, sobretudo em zonas associadas à mineração artesanal e comercial, onde procuram controlar recursos económicos, recrutar novos combatentes e manter capacidade ofensiva.

Fonte: Zambeze

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