ENZ: De orgulho nacional a símbolo de desleixo estatal

“Esta obra vai catapultar o desenvolvimento do turismo, promover oportunidades de negócio, impulsionar a indústria desportiva, criar emprego e aumentar as receitas do Estado.” A promessa foi feita, em 2011, pelo então vice-ministro da Juventude e Desportos, Carlos de Sousa, durante a cerimónia de entrega do Estádio Nacional do Zimpeto (ENZ), na presença do diplomata chinês Huang Songfu, que entregou simbolicamente as chaves da infra-estrutura ao Governo moçambicano. 15 Anos depois, o cenário é bem diferente. Construído com financiamento chinês, avaliado em cerca de 70 milhões de dólares, o maior recinto desportivo do País transformou-se num dos exemplos mais evidentes das dificuldades do Estado em assegurar a manutenção do património público.

Desde 2021, foi interditado por quatro vezes pela Confederação Africana de Futebol (CAF), obrigando a selecção nacional a disputar vários jogos internacionais fora de portas. Quando foi inaugurado, o ENZ surgiu como um símbolo de modernidade e de afirmação do desporto moçambicano. Com capacidade para cerca de 42 mil espectadores, previa-se que impulsionasse o turismo, dinamizasse a economia e reforçasse a indústria desportiva nacional. A expectativa era igualmente que o recinto contribuísse para afirmar Moçambique no panorama desportivo africano e servisse de palco para grandes competições internacionais, o que, de reste, aconteceu nesse mesmo ano, quando foi o epicentro dos Jogos Pan-Africanos. Entretanto, ao longo da última década, a realidade foi se alterando drasticamente.

Desde 2021, o estádio tem sido sucessivamente reprovado pela CAF, que aponta deficiências no relvado, balneários, sanitários, iluminação, sistemas de segurança e manutenção geral. Na sequência da primeira interdição, os Mambas foram obrigados a disputar, fora do País, os jogos das eliminatórias africanas para o Mundial do Qatar 2022, incluindo os encontros frente à Costa do Marfim e aos Camarões. A situação repetiu-se em 2023, afectando as eliminatórias do CAN 2025 e do Mundial de 2026, obrigando Moçambique a “receber” selecções como Argélia, Somália e Uganda em estádios sul-africanos. Em Dezembro de 2024, a CAF voltou a interditar o recinto pela terceira vez em menos de cinco anos, comprometendo igualmente a realização dos jogos internacionais previstos para 2025.

Já em Março de 2025, uma nova inspecção voltou a reprovar o estádio, levando novamente os Mambas a jogar fora do País. Milhões investidos, problemas persistentes Perante as sucessivas interdições, o Estado tem canalizado verbas significativas para trabalhos de recuperação da infraestrutura. Segundo dados divulgados pela Carta de Moçambique, entre 2020 e 2022 foram investidos cerca de 47,5 milhões de meticais em obras de reabilitação e apetrechamento do ENZ. Desse montante, aproximadamente 39,7 milhões de meticais foram aplicados em 2020. Em 2021, o Fundo de Promoção Desportiva (FPD) executou integralmente 1,2 milhões de meticais destinados ao estádio, enquanto, em 2022, foram utilizados mais cerca de 6,6 milhões de meticais. 

As intervenções incluíram a substituição do relvado natural, instalação de torniquetes electrónicos, recuperação da iluminação, manutenção dos geradores, reabilitação dos balneários, sanitários públicos, sistemas sonoros e reforço da vedação exterior. Em 2023 voltaram a ser inscritos 51,9 milhões de meticais para novas obras, embora apenas uma parte tenha sido executada. Já no Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) de 2025 foram previstos mais 35 milhões de meticais para novas intervenções. Apesar destes investimentos, muitos dos problemas apontados pela CAF continuam por resolver. Um retrato marcado pela degradação Quem visita actualmente o ENZ encontra sinais evidentes de deterioração. Nas paredes exteriores observam-se manchas de humidade, fungos e degradação da pintura. A cobertura metálica apresenta focos de ferrugem e, em vários pontos, vegetação espontânea cresce sobre a estrutura. Os corredores de acesso acumulam lixo e ervas daninhas, enquanto zonas próximas das entradas apresentam águas estagnadas, sistemas de drenagem obstruídos e maus cheiros persistentes.

O contraste entre o estado actual da infra-estrutura e o estatuto de principal palco do futebol moçambicano é evidente. CAF continua a mostrar o “cartão vermelho” Os problemas do ENZ vão além da imagem física. Nas sucessivas inspecções realizadas desde 2021, a CAF tem identificado praticamente os mesmos constrangimentos: relvado inadequado, iluminação insuficiente, balneários degradados, sanitários sem condições, falhas de segurança e deficiências operacionais. Alguns especialistas ouvidos pela nossa reportagem entendem que parte das limitações poderá resultar de problemas de concepção da própria infra-estrutura. “Penso que aquele estádio foi construído com demasiada pressa. Há compartimentos que nunca chegaram a ser devidamente concebidos”, referiu uma das fontes, apontando, entre outros aspectos, a inexistência de uma sala adequada para conferências de imprensa e limitações em algumas áreas de apoio.

Na opinião destas fontes, as obras realizadas ao longo dos últimos anos têm respondido sobretudo às exigências imediatas da CAF, sem atacar as causas estruturais que originam as sucessivas reprovações. Defendem igualmente que, caso fosse devidamente valorizado, o recinto poderia constituir também um importante ponto de atracção turística, potencial actualmente comprometido pelo estado de conservação da infra-estrutura.  Privatização continua a dividir opiniões Perante os elevados custos de manutenção e a degradação progressiva do estádio, algumas vozes defendem que chegou o momento de discutir um novo modelo de gestão, incluindo a possibilidade de uma parceria com o sector privado.

No entanto, o ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse, já se pronunciou sobre essa hipótese, afastando, para já, essa possibilidade. “Temos moçambicanos com competências para manter o nosso estádio em dia”, afirmou. Para o governante, a solução passa pelo reforço da capacidade de gestão e por um maior compromisso das instituições públicas com a preservação da infra-estrutura. “Primeiro, temos de ter coragem e determinação. É uma infraestrutura que merece o nosso carinho e dedicação e faremos o que estiver ao nosso alcance para que continue preservada”, garantiu.

FPD ignora Dossiers & Factos Na preparação desta reportagem, a equipa do Dossiers & Factos contactou, no dia 4 de Junho, a directora-geral do Fundo de Promoção Desportiva (FPD), Sílvia Langa, que manifestou disponibilidade para prestar esclarecimentos sobre a conservação do ENZ. Todavia, posteriormente orientou que o pedido fosse formalizado junto do Ministério da Juventude e Desportos, por razões de coordenação institucional. A carta foi submetida ao Ministério no dia 10 de Junho. Contudo, até ao fecho desta edição, nem o Ministério da Juventude e Desportos nem o FPD haviam respondido às questões colocadas pela reportagem.

Fonte: Dossiers & Factos

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