Bobole: à espera de uma tragédia

by Sérgio Tinga

Ao longo da Estrada Nacional Número 1 (EN1), a única via rodoviária, que liga o país do sul ao norte, localiza-se, há 50 quilómetros da cidade de Maputo, Bobole, um povoado situado no posto administrativo de Marracuene-sede, distrito do mesmo nome, na província de Maputo, sul de Moçambique. O local foi amplamente conhecido como o epicentro das manifestações pós-eleitorais entre 2024 e 2025, mas que desta vez outra página negra está prestes a ser escrita. Há uma tragédia à vista em Bobole sob olhar impávido das autoridades competentes.

No entanto, há menos de 20 km, a caminho da vila da Manhiça, fica Tavira (Maluana), onde está erguida uma placa com escritas perturbadoras: “Aqui morreram 32 pessoas”. Em Bobole, vendedores abandonaram o mercado e invadiram a estrada disputando o mesmo espaço com o movimento intenso de veículos que cruzam o local. A Administração Nacional de Estradas (ANE) e os responsáveis do mercado dizem que perderam o controlo da situação, enquanto o governo de Marracuene ficou por dar explicações. No entanto, ao longo da EN1 (Ponta de Ouro até Pemba), há vários boboles, com vendedores a ocuparem uma das faixas de rodagem para comercializarem os seus produtos. Muitos dirigentes de alta cilindrada e, às vezes, com escolta, mas, aparentemente, assobiam para o lado. Entre o intenso tráfego automóvel, buzinas intermináveis e o perigo iminente, centenas de vendedores informais tomaram o controlo das faixas de rodagem na EN1 no povoado de Bobole, numa autêntica luta pela sobrevivência.

“Não passa uma semana sem o registo de, pelo menos, um atropelamento ou choque entre motorizada/peão/carro aqui, porque ninguém obedece às regras de segurança rodoviária. Dentro do mercado, há muitas bancas vazias, mas os vendedores não aceitam ocupar alegando que a clientela está na rua. Mais de 80% dos vendedores do mercado Bobole abandonaram as bancas para vender na estrada e os nossos apelos no sentido de retornar são ignorados. Há vezes que nós, como responsáveis do mercado, recebemos ameaças quando sensibilizamos as pessoas a ocupar bancas”, disse Rafael Manhiça, responsável do mercado de Bobole.

É um cenário triste e lamentável que coloca centenas de cidadãos moçambicanos numa situação de risco, mas que é ignorado por quem de direito. Os vendedores informais tomaram conta da EN1, ocupando uma das faixas de rodagem, obrigando as viaturas que fazem o sentido norte-sul a seguirem em contramão. Enquanto isso, outros vendedores deambulam de uma faixa para outra à caça de clientes.

Em Bobole, a faixa de rodagem norte-sul deixou de servir para o tráfego de veículos e passou a servir como campo de vendas de diversos produtos. São centenas de vendedores informais que, no asfalto da estrada, colocaram mesinhas, estenderam sacos e capulanas onde vendem todo o tipo de produtos, que vão desde roupa usada, hortícolas e verduras (couve, alface, folhas de abóbora, de batata-doce e feijão-nhemba), tubérculos (mandioca e batata-doce), feijões, sal, cebola, tomate, carvão, produtos alimentares, de limpeza, pão, mariscos, entre tantos outros. Os vendedores dividem o pátio da estrada com os clientes, que também ignoram o risco.

“Há resistência”

Quem também ficou sem ideia para demover os informais das bermas da EN1 em Bobole é o delegado da ANE na província de Maputo, Dady Mendes.

Em conversa com o SAVANA, o dirigente disse que a ANE tem conhecimento da invasão da estrada pelos vendedores informais em Bobole, mas esforços no sentido de convencê-los a sair não têm surtido resultados desejados. Explica que há renitência das pessoas aos apelos das autoridades e que, como a ANE não tem poder para usar a força, está completamente dependente do governo distrital.

As nossas equipas estão sempre no terreno a consciencializar as pessoas sobre os riscos que correm por estarem naquele local. Como ANE, até fizemos questão de colocar barreiras metálicas para delimitar a área da estrada, mas isso não nos valeu. As pessoas continuam lá. Contactámos o governo distrital para nos ajudar. Sabemos que tem feito algum trabalho, mas, infelizmente, os resultados não aparecem”, lamentou Mendes. Sublinha que, há uns anos, tinham sido retirados todos os vendedores do local e demolidas as bancas. Porém, todos voltaram em peso.

Diz que a ANE não tem poder para requisitar a força policial a fim de actuar no local. Por isso, é do governo do distrito que se espera a solução definitiva. Dady Mendes lamenta e frisa que é com muita tristeza que, enquanto autoridades, assistem impávidos a um cenário que amanhã pode desembocar numa tragédia e, depois, serão chamados a responder.

Na semana passada, no dia 1, o SAVANA esteve no gabinete da administradora do distrito de Marracuene, Teresa Mauaie, tendo sido informado de que esta cumpria uma agenda de trabalho no terreno. Após contacto, ficou acordado que a entrevista teria lugar na sexta-feira, dia 3. Contudo, na data marcada, a governante não atendeu às nossas solicitações. Nesta quarta-feira, o jornal voltou a contactar a dirigente, mas esta informou que se encontrava numa reunião e que nos contactaria no fim da sua agenda, facto que não se concretizou até ao fecho desta edição. 

Defronte das barracas que circundam o mercado de Bobole, a ANE colocou barreiras metálicas a fim de delimitar a área reservada à estrada do espaço destinado aos peões; contudo, essa barreira é completamente ignorada. Nalguns pontos, nota-se uma tendência para a remoção da mesma.

O “espectáculo” que se assiste naquele local não só coloca em risco a vida dos vendedores, como também a dos transeuntes, pois a movimentação destes também fica limitada às faixas de rodagem, ou seja, ao mesmo local onde circulam viaturas.

Importa lembrar que a EN1 lidera o ranking do número de mortes derivadas de acidentes de viação. No dia 3 de Julho de 2021, a menos de 30 quilómetros de Bobole, mais concretamente na localidade de Tavira, distrito de Manhiça, registou-se um aparatoso acidente que culminou na morte de 32 pessoas e no ferimento de outras 40. Ainda no distrito de Marracuene, o executivo moçambicano viu-se obrigado a transferir as celebrações das cerimónias de Gwaza Muthine para o interior da vila , quando, há 26 anos, um camião desgovernado ceifou vidas de mais de três dezenas de moçambicanos que celebravam a efeméride nas bermas da EN1.

Além de acidentes iminentes, a concentração de vendedores ao longo da via cria outra situação. Os informais produzem quantidades enormes de lixo que, no fim de cada jornada, não são removidas para locais apropriados. O lixo é concentrado ao longo da via, agudizando ainda mais o risco de acidentes.

Por outro lado, devido à natureza de alguns produtos vendidos no local, os informais usam água que depois despejam na via. São águas sujas que, além de provocarem cheiros nauseabundos, também aceleram a degradação da estrada. Nos pontos de asfalto onde se concentram vendedores informais, é notável a abundância de buracos provados pelas águas que diariamente são lançadas sobre o asfalto.

Os vendedores até estão cientes do perigo que correm com os seus actos, mas apresentam diversas desculpas.

Não obstante ser uma actividade que não é publicamente reconhecida pelas autoridades, as mesmas cobram taxas aos informais. Em Bobole, cada uma das bancas instaladas no asfalto da EN1 é cobrada, diariamente, uma taxa de cinco meticais pela ocupação do espaço.

Luta pela sobrevivência

A falta de emprego e as dificuldades financeiras são apresentadas como principais razões para que um crescente número de cidadãos arrisque as suas vidas à procura de alternativas de sobrevivência, sobretudo no comércio informal.

Zinha Nhampule é uma das vendedeiras que ocupou parte do asfalto com a sua banca de venda de hortícolas. Diz que está ciente do perigo que corre, mas que, entre morrer de fome com os filhos em casa e estar naquele local, debaixo de todo o tipo de vicissitudes, prefere arriscar e ganhar algo para alimentar a família.

Diz que são os clientes que obrigam os vendedores a concentrarem-se na estrada, já que não entram no mercado. “Sei que este é um local perigoso para eu vender, mas não tenho como, uma vez que é o único local onde posso encontrar clientes”.

A fonte conta que a culpa não é apenas dos vendedores, mas também das autoridades, que dificultam o acesso às bancas. Frisa que há pessoas que chegam ao mercado com intenção de ocupar bancas vazias, mas não conseguem, pois os chefes do mercado cobram taxas infundadas para quem tenciona iniciar um determinado negócio. Nhampule coloca como condição para a saída da estrada a retirada de todos os vendedores para o mercado, porque, se uns entram e outros permanecem na estrada, os que estiverem dentro ficarão prejudicados.

Explica que a maior parte dos clientes que adquirem produtos no mercado de Bobole são passageiros e estes, muitas vezes, não abandonam as viaturas. O vendedor é que deve ir ao encontro deles. Assim, uma vez que uns estarão no interior do mercado e outros fora, os beneficiários serão os que estiverem fora, pois terão contacto directo com os passageiros.

Violeta Magaia, de 27 anos e mãe de dois filhos, é uma das pessoas que, debaixo de frio ou calor intenso, estende os seus sacos no asfalto quente da EN1 e coloca os seus produtos à venda. Ao SAVANA, conta que exerce aquela actividade há mais de cinco anos e que é frequente ver cenários de atropelamento de vendedores e transeuntes que, sem prestar atenção, atravessam a estrada de um lado para o outro sem o devido cuidado. Também sabe que, a qualquer momento, uma viatura desgovernada pode despistar-se e criar uma verdadeira tragédia. Contudo, tudo isso não está acima da fome que poderá passar se não acordar e for sentar-se naquele lugar perigoso.

Diz que, embora não seja com alguma frequência, têm recebido algumas autoridades públicas que procuram sensibilizá-los a deixar o local por causa dos perigos que correm por ali permanecerem, mas esses apelos não são acatados, uma vez que: “eles só vêm falar e depois entram nas suas viaturas e vão embora. Não nos apresentam nenhuma alternativa”, disse.

Sheila Tamela, outra vendedeira informal de Bobole, explica que há um comportamento dúbio da parte das autoridades porque, por um lado, dizem que vendemos num lugar impróprio e que devemos abandoná-lo para irmos para o interior do mercado; por outro lado, cobram taxas de mercado todos os dias. “Como é que você vai cobrar taxa de mercado para quem está a vender ilegalmente? Para quem está no sítio impróprio?”, questiona Tamela, secundada por Alice Chivite.

Fenómeno nacional

O assalto às estradas nacionais pelos vendedores informais não é um cenário que se limita ao povoado de Bobole, mas estende-se a todas as vilasatravessadas pelas principais estradas. Alexandre Nhampossa, presidente da Associação Moçambicana de Vítimas de Insegurança Rodoviária (AMVIRO), explicou que o cenário de Bobole também se vive na vila-sede de Marracuene, no Zimpeto e noutros cantos do país. Nhampossa diz que há todo um conjunto de práticas que colocam em risco a segurança dos cidadãos, mas que estão a ser normalizadas.

Sublinha que, no país, virou prática as pessoas venderem nas bermas da estrada e ninguém faz nada para inverter a situação. Para o presidente da AMVIRO, esta prática é facilitada pela forma como foram projectados os mercados nas principais vilas cortadas por grandes estradas, pois, na maioria dos casos, os mercados foram erguidos nas bermas das estradas e, com o êxodo demográficopara os centros urbanos, ficam sem capacidade para albergar mais vendedores, levando os restantes a optarem pela rua.

Sobre as consequências, Nhampossa fala de atropelamentos constantes que, para além de adultos, matam e mutilam crianças inocentes.

Frisa que é uma anomalia conhecida por todos, mas que, no dia em que um camião ou autocarro desgovernado criar um massacre, serão ordenadas comissões de inquérito, cujo desfecho nunca será conhecido.

Nhampossa destaca que as campanhas de educação e sensibilização sobre os acidentes de viação devem continuar porque são importantes, mas dificilmente serão a solução. Sublinha que tudo passa por uma estratégia abrangente, que inclui o redesenho dos projectos de implantação de mercados longe das principais vias.

Ameaçam nos “welar”

O “assalto” dos informais às faixas de rodagem da EN1 não é um fenómeno recente. Começou há muitos anos, sobretudo quando o bairro de Bobole registou os primeiros sinais de explosão demográfica.

Em Agosto de 2022, o governo do distrito de Marracuene, na altura liderado por Shafee Sidat, em coordenação com a ANE e a Polícia da República de Moçambique (PRM), desencadeou uma mega-operação que culminou com a dinâmica de retirada dos vendedores da estrada.

Na altura, Shafee Sidat justificou a operação alegando que o governo do distrito de Marracuene compreendia que as pessoas que vendiam nas bermas da estrada saíam das suas casas à procura de rendimento para alimentar e educar as suas famílias. Mas, prosseguiu, entre a busca de rendimento e a vida havia que fazer um balanço, tendo-se concluído que a vida era o bem maior e que devia ser preservada, já que o número de acidentes mortíferos no local crescia todos os dias.

A ideia do governo distrital era alocar esses vendedores num mercado novo localizado no interior da localidade de Ngalunde, no bairro Gimo O’Cossa. Contudo, os vendedores recusaram, argumentando que o local ficava longe da estrada.

Como alternativa, ficou acordado que o governo distrital iria organizar o campo local de futebol, também localizado nas bermas da EN1, para a colocação de bancas e posterior transferência de todos os vendedores retirados da estrada.

A proposta que Shafee Sidat apresentou aos jovens de Bobole era que, com a ocupação do campo, o governo de Marracuene disponibilizaria outro campo, em melhores condições, para a prática de futebol. Sucede que o campo de futebol onde seriam alojados os novos vendedores situa-se ao lado de uma escola que não está vedada, sendo que muitas crianças estudam debaixo das árvores. A presença de vendedores no local iria perturbar o curso normal das aulas e a ideia não avançou.

Como solução, o governo distrital avançou com a construção de 60 novas bancas dentro do mercado, facto que veio a consumar-se em Janeiro de 2023. Com a entrega destas infra-estruturas, alguns vendedores saíram da estrada e ocuparam as bancas, mas, como o número de alpendres era insuficiente e os que não couberam, por sinal a maioria, permaneceram na estrada.

Isso fez com que os que tinham ocupado as bancas regressassem à estrada. No seu êxodo, também arrastaram outros vendedores que ainda estavam no mercado e, consequentemente, o mercado ficou vazio.

É nessa luta para convencer os informais a regressarem às bancas do mercado que Rafael Manhiça e a sua equipa enfrentam dificuldades, incluindo ameaças.

O responsável do mercado de Bobole estima em cerca de 300 vendedores que todos dias disputam espaço com o trânsito rodoviário nas bermas da EN1.

Sublinha que a situação veio agudizar-se com as manifestações pós-eleitorais, onde as autoridades perderam parte do seu poder.

“Sempre que saímos para convencer as pessoas a ocupar suas bancas aqui no mercado há um grupo de jovens, que se presume que sejam do ANAMOLA, que agitam as pessoas a ficarem e até nos ameaçam. O assunto é do conhecimento da Polícia ao nível do sector de Bobole, mas não tomam nenhuma medida”, lamenta. Rafael Manhiça explica que, como forma de advertir os vendedores sobre os perigos de vender na estrada, a ANE colocou barreiras de delimitação da estrada e a zona de circulação de peões. Contudo, o sinal é completamente ignorado. Sublinha que os informais também prejudicam os agentes económicos já que, estes bloqueiam o acesso às lojas. Além dos informais, a fonte falou de outro fenómeno que tem surgido nos últimos tempos que tem a ver com os moto-taxis. Diz que são jovens sem noções mínimas das regras de trânsito, que fazem manobras perigosas transportando pessoas, o que muitas vezes resulta em acidentes.

Fonte: Savana

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