Em guma, na Massinga: Posto da PRM confunde-se com capoeira Em guma, na Massinga: Posto da PRM confunde-se com capoeira

by Sérgio Tinga

À primeira vista, parece uma capoeira destinada à criação de galinhas. Só depois se percebe que se trata de um posto da Polícia da República de Moçambique (PRM). Em Mapanguela, localidade de Guma, distrito de Massinga, província de Inhambane, os agentes da corporação trabalham em instalações precárias, que eles próprios classificam como indignas para uma instituição responsável pela manutenção da ordem e seguranças públicas.

A infraestrutura foi construída com estacas de simbire e lacalacas, sendo coberta por chapas de zinco já consumidas pela ferrugem e repletas de furos. Sempre que chove, a água entra por todos os lados, obrigando os agentes a interromper o trabalho e a procurar refúgio nas salas de aula da escola vizinha para proteger os processos-crime e outro expediente.

“Quando começa a chover, é cada um por si. Somos obrigados a pegar nos processos e correr para a escola ao lado. É humilhante. Vestimos a farda, juramos defender a Pátria, mas nem um tecto digno temos”, lamentou, sob anonimato, um agente colocado naquele posto há seis anos.

É naquele edifício improvisado que são registadas ocorrências, instaurados processos-crime e coordenadas as operações de manutenção da ordem pública. Os próprios agentes recordam que são chamados a intervir sempre que ocorrem manifestações ou situações de violência, regressando, no entanto, a um posto que, segundo dizem, não oferece as mínimas condições de trabalho.

“Sempre que há distúrbios somos nós que vamos para a linha da frente, com gás lacrimogéneo, balas de borracha ou até munições reais. Depois voltamos para esta barraca. À noite quase não dormimos. O vento entra pelas frinchas e há dias em que receamos que o tecto seja levado”, contou outro polícia, também sob condição de anonimato, por receio de represálias.

A situação foi denunciada pela população durante a recente visita do governador de Inhambane, Francisco Pagula, à localidade de Guma. O governante deslocou-se ao posto policial, constatou o estado de degradação das instalações e comprometeu-se a mobilizar parcerias para a construção de um novo edifício que devolva dignidade às condições de trabalho dos agentes.

As dificuldades de Guma, porém, não se resumem ao posto policial. Apesar de já existirem postes e cabos instalados, a energia eléctrica continua por chegar à localidade devido à inexistência de um Posto de Transformação (PT). Sem uma previsão para a conclusão da obra, os moradores continuam a recorrer a velas, candeeiros a petróleo e lanternas de telemóvel para iluminar as suas casas.

“Para carregar um simples telefone temos de percorrer vários quilómetros. É um sofrimento diário”, contou uma vendedeira de 43 anos.

Também a estrada de acesso continua a contribuir para o isolamento da localidade. A partir do Cruzamento de Guma ou da zona de Pedras, o percurso é feito por uma via estreita, de terra batida e fortemente degradada, tornando a circulação difícil, sobretudo durante a época chuvosa.

“Quem passa por esta estrada acaba sempre por ter prejuízos. Ou avaria a viatura ou estraga a saúde”, afirmou um transportador semicolectivo que assegura a ligação à localidade duas vezes por semana.

Governo reconhece dificuldades, mas não aponta prazos
Contactada pelo Dossiers & Factos, uma fonte do Comando Provincial da PRM em Inhambane reconheceu que a situação do posto policial de Guma é do conhecimento das autoridades e garantiu existir um plano de requalificação gradual das infra-estruturas policiais nas zonas rurais, condicionado, contudo, pela disponibilidade orçamental. A fonte não avançou qualquer calendário para o início das obras.

Enquanto o novo posto permanece apenas como promessa, os agentes continuam a trabalhar entre processos encharcados, paredes frágeis e um tecto que pouco protege da chuva.

“Dizem que somos a autoridade”, desabafou um dos polícias, apontando para as chapas perfuradas. “Mas nem autoridade sobre a chuva nós temos.”

Fonte: Dossier e Factos

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