A arte, como a fé, pode mover montanhas e curar as mais profundas feridas da alma. Ernesto Tembe, artisticamente conhecido por Neto, não só acredita nestas palavras, bem como as coloca em prática, ao fazer da pintura uma forma de terapia e refúgio.
O pintor está enfermo. Luta, há alguns anos, contra uma doença que lhe tem causado perda gradual da visão. Diante desta situação, vê-se obrigado a dar uma pausa na pintura para salvaguardar a saúde.
É esta fé e vontade de vencer a doença que o moveram à galeria do BCI, na cidade de Maputo, onde expõe “Arte que acolhe, mãos que ajudam”, mostra de pintura realizada em solidariedade a si mesmo. Com o dinheiro a ser adquirido com a venda das obras, Neto pretende custear as despesas médicas.
“Gostaria de poder visualizar tudo isso algum dia e voltar aqui, nesta mesma sala, com uma nova exposição para transmitir às outras pessoas que tropeçar e cair não é o fim”, comentou.
A mostra é composta por 20 telas produzidas com recurso a técnicas como óleo sob a tela e mista. São pinturas extremamente coloridas e praticamente a luzir, que exploram diversos temas inspirados no quotidiano dos moçambicanos.
Trata-se de obras produzidas, na sua maioria, entre 2019 e 2020, quando a visão não era um grande obstáculo e o país e o mundo enfrentavam uma das maiores pandemias da história recente, a Covid-19. Ainda assim, os trabalhos distanciam-se daquela terrível realidade caracterizada pelo distanciamento físico, máscaras, recolher obrigatório, entre outros protocolos sanitários e de segurança que fizeram dos convívios uma raridade.
Destaca-se, neste sentido, o lado social da moçambicanidade, como se nota em títulos como “Até que a morte nos separe”, um quadro que faz alusão ao casamento, uma das cerimónias mais concorridas de sempre.
O mesmo se pode perceber quando Neto fala da “Época do Canhú” e “Nguva ya Uputsu”, telas que remetem a festas de toma de bebidas tradicionais.
Celebra-se, igualmente, a diversidade cultural moçambicana, sem se distanciar do meio social do artista plástico. Para uma melhor compreensão, produziu o quadro “Beldades Ronga”, sobre a beleza da mulher ronga, um grupo etno-linguístico do Sul do país.
A obra é também uma espécie de viagem para 1978, quando realizou um trabalho de campo de investigação cultural em diversas províncias do país, sobre música tradicional, canto, dança e tradição oral. Ou seja, Neto também fala de si mesmo, enquanto artista nascido em Maputo, no tempo colonial, quando a capital ainda se chamava Lourenço Marques.
Aqui fez-se artista e formou-se profissional e academicamente, tendo frequentado cursos de animação e preservação cultural no Centro de Estudos Culturais, onde adquiriu conhecimentos em história de arte, música, fotografia, teatro, pintura, cerâmica, desenho, batik e xilografia.
Dalguma forma, a mostra faz alusão àquele artista que de 1981 a 1984 trabalhou com a arte em museus de Maputo e Nampula como monitor de técnicas de montagem de exposições e métodos de conservação de obras de arte e etnografia. Tal aconteceu antes de, como instrutor, colaborar com a TBARN na Universidade Eduardo Mondlane e com o extinto Instituto Nacional do Livro e do Disco, tendo ilustrado dois livros infantis.
Estes caminhos levaram-no à primeira individual, em 1991, em Maputo, e a participar em várias exposições em Moçambique e no estrangeiro, nomeadamente a “Homenagem a Picasso”, na capital do país, em 1981, colectivas em Lisboa e no Porto (1983), em Berlim, Moscovo e Pyongyang (1984), na Argélia e Eswatini (1986) e Angola (1988). Está igualmente representado no Museu Nacional de Arte (MUSART) e em várias colecções particulares nacionais e internacionais.