Daniel Chapo concedeu, na sexta-feira, 17 de Julho, uma entrevista à estação de televisão pública portuguesa, a RTP, como parte do pacote da sua visita oficial de quatro dias a Portugal a convite do seu homólogo, José António Seguro. A agenda principal era a sua participação como convidados de honra na sessão de abertura da nona edição do EurAfrican Forum, organizada pelo Conselho da Diáspora Portuguesa. É um evento cinzento em que basicamente Daniel Chapo e José Seguro faziam parte de um painel em que eram questionados sobre a cooperação entre Moçambique e Portugal, pela jornalista Cristina Esteves. E como não haveria de ser, Daniel Chapo já tinha previamente marcado uma entrevista com a RTP, que viria a ser conduzida pelo jornalista Carlos Martins.
Chapo foi questionado sobre a situação política na Guiné-Bissau, um País membro da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), entretanto suspenso que se encontra mergulhada numa crise política desde o golpe de Estado de Novembro de 2025. Mais recentemente um outro episódio de veio temperar o cardápio da instabilidade e ingovernabilidade daquele País com a detenção de Domingos Simões Pereira, líder do partido PAIGC, ocorrido no passado dia 10 de Julho. Fernando Vaz Chapo fez declarações “inocentes” como qualquer um outro Chefe de Estado faria, no limite do politicamente correcto e com os jargões circulantes habitual em situações tais. Sobre a suspensão da Guiné-Bissau da CPLP, Chapo respondeu: “O caso da Guiné-Bissau é um desafio para a nossa comunidade.
Não é pela primeira vez, é um país que tem tido instabilidade política, principalmente nos períodos pós-eleitorais e, como comunidade, achamos que temos que continuar a trabalhar para podermos resolver esta questão política o mais rápido possível, porque é o país que estava a presidir a CPLP”. De seguida, comentou sobre a detenção de Domingos Simões Pereira dizendo: “esta precisa ser analisada e, função disso, podemos analisar qual o trabalho que deve ser feito, quer a nível diplomático ou a nível das relações entre os países da CPLP por forma a encontrarmos uma solução que possa ajudar a comunidade, pois, quando se trata de uma situação em que temos um país que estava a presidir e tem esta instabilidade política, que até hoje não se resolve definitivamente, é uma preocupação para todos nós. O mais importante é que encaramos isto como uma preocupação, como países membros da CPLP, e possamos encontrar uma solução que possa nos colocar numa posição vantajosa. Ultrapassada esta situação, julgo ser importante que situações como estas não possam acontecer na nossa comunidade” disse.
São declarações “normais” porquanto quase que impossível em sã consciência ficar indiferente à situação dramática da Guiné-Bissau, um País completamente sequestrado por agendas mafiosas dos seus militares. As declarações de Daniel Chapo nem foram para além do politicamente correcto, enquadram-se muito bem no protocolo de paninhos quentes habituais que os líderes africanos passam aos regimes militares que têm mantido aquele País numa espiral de ingovernabilidade interminável. Sucede que contrariamente a outros Chefes de Estado que podem comentar sobre GuinéBissau, Daniel Chapo tem um pecado congénito: a memória fresca da sua própria “eleição”.
Guiné Bissau foi o único País da CPLP que enviou o seu Chefe de Estado, o agora depósito Umaro Sissoko Embaló para a tomada de posse, quando quase todos os países não quiseram estar associados na legitimação da maior fraude eleitoral que alguma vez houve memória no País. Foi Umaro Sissoko Embaló dos poucos que se meteu num avião e aterrou em Mavalane quando Maputo estava cercado de blindados e polícia canina. Nas ruas cheirava a pneu queimado e com muitas famílias a enterrarem os seus ente queridos vítimas da repressão assassina nas violentas manifestações contra a fraude eleitoral.
Daniel Chapo Quando ninguém quis se associar àquela escandalosa eleitoral, foi o presidente da GuinéBissau, ele próprio no poder por meios pouco honrosos que foi até aos Paços do Município na cinzenta tomada de posse de Janeiro de 2025, em que havia mais cães e armamento do que pessoas. Se calhar, é por isso que o “inocente” comentário de Daniel Chapo sobre a Guiné-Bissau, provocou uma reação colérica e arrasadora dos militares que agora controlam aquele País, que se sentiram quase que traído por quem ajudou a legitimar, num passado recente.
Num documento com linguagem cáustica, publicado no domingo, o Conselho Nacional de Transição (CNT), um órgão político, legislativo e de fiscalização da Guiné-Bissau, criado pelos militares na sequência do Golpe de Estado de Novembro de 2025, acusou Daniel Chapo de atrevimento e pretensiosismo. “O CNT – Conselho Nacional de Transição vem, por este meio, manifestar o seu mais profundo repúdio face às patéticas e abusivas declarações do Preside de Moçambique, Daniel Chapo, que num acto de puro de puro atrevimento e pretensiosismo ousou imiscuir-se nas decisões soberanas da nossa justiça e apoiar posições contra o povo guineense”.
Daniel Chapo não tem legitimidade moral e de democracia vindas de quem carece de estofo, legitimidade e autoridade moral, repondo a verdade de política deste indivíduo”, diz o comunicado do órgão. O documento faz uma incursão contextual a ascensão de Daniel Chapo ao posto de Chefe de Estado. “Convém recordar ao mundo a humilhação internacional sofrida por Daniel Chapo na sua própria tomada de posse. Uma cerimónia vergonhosa em que toda CPLP lhe virou as costas, com as ausências declaradas e sonoras dos chefes de Estado do Brasil, Angola, Portugal, Cabo Verde, entre outro único que teve a coragem e dignidade de lá estar, estendendo a mão ao povo moçambicano numa altura em que as ruas ecoavam com tiros, caos e forte contestação popular, foi o Presidente da Guiné-Bissau”.
O CNT acusa Daniel Chapo de pagar com “insulto” a solidariedade mostrada a si por Guiné Bissau. “Em troca dessa solidariedade, a Guiné-Bissau foi alvo de insultos por parte daqueles que preferem ser ‘carneiros’ do politicamente correcto da CPLP. Esta é a ingratidão e a baixa de Daniel Chapo”, diz a nota. Fazendo um paralelismo com outras situações políticas estrangeiras o CNT questiona: “Onde estava Daniel Chapo e a dita “solidariedade” da CPLP quando o Presidente Lula da Silva foi preso no Brasil, num processo amplamente condenado por juristas internacionais como uma perseguição judicial injusta? Onde está a CPLP agora que o ex-Presidente Jair Bolsonaro enfrenta o peso do poder judicial brasileiro? A justiça de uns países é para respeitar, mas a justiça da Guiné-Bissau já deve ser alvo de ingerência? É uma hipocrisia ultrajante e colonialista que já não colhe respeito em Bissau”.
O documento considera ridículo sem precedentes que Daniel Chapo tente apontar o dedo à Guiné-Bissau quando o seu próprio país, Moçambique, está a ferro e fogo, dilacerado por uma guerrilha sangrenta e pelo terrorismo que a sua administração se mostra incapaz de resolver. “É de um ridículo sem precedentes que Daniel Chapo tente apontar o dedo à Guiné-Bissau quando o seu próprio País Moçambique está a ferro e fogo, dilacerado por uma guerrilha sangrenta e pelo terrorismo que a sua administração se mostra incapaz de resolver.
” O documento é arrasador contra Daniel Chapo ao ponto de fazer referências às suas valências: “Um governante que não consegue garantir a segurança, ordem e paz dos seus próprios cidadãos deveria ter a decência de se fechar no seu palácio e trabalhar, em vez de meter nariz nos assuntos de um Estado soberano e estável como a Guiné-Bissau”. Os militares não param por aí. Chegam mesmo a tratar Daniel Chapo por “líder improvisado”. “A Guiné-Bissau não se verga perante cartilhas estrangeiras nem perante a arrogância de líderes improvisados que procuram palcos internacionais (Portugal) para esconder as suas gritantes fraquezas domésticas.
Daniel Chapo revelou-se um político menor, desprovido de memória histórica e de solidariedade institucional. Exigimos respeito mútuo” lê-se. Refira-se que a Guiné-Bissau está suspensa das actividades da CPLP desde 16 de Dezembro de 2025, uma medida oficializada durante a I Conferência Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo, realizada em formato virtual. A resolução, assinada pelos líderes da lusofonia, fundamenta a decisão no artigo 7.º dos Estatutos da CPLP, que prevê sanções perante casos de violação grave da ordem constitucional num Estado-Membro. O documento sublinha que a suspensão vigorará até que se verifique a retoma da ordem constitucional no país.
Fonte: Canal de Moçambique