Mais de 500 empresas em sufoco: PME denunciam acesso desigual às divisase alertam para falências

O ambiente de negócios em Moçambique continua a deteriorar-se, com centenas de pequenas e médias empresas (PME) a enfrentarem dificuldades para manter as suas operações devido à escassez de divisas. A situação está a comprometer a importação de matérias-primas, a reduzir a capacidade produtiva, a provocar encerramentos de empresas e a agravar o desemprego, num contexto em que o sector empresarial já enfrenta outros constrangimentos, como o atraso nos pagamentos do Estado. Ao Evidências, o Presidente Honorário da Associação das Pequenas e Médias Empresas (APME), Inocêncio Paulino, afirmou que o principal problema não se limita apenas à falta de moeda estrangeira, mas sobretudo a desigualdade no acesso às divisas entre empresas de diferentes dimensões. Segundo explicou, enquanto as grandes empresas conseguem, com maior facilidade, obter moeda estrangeira junto do sistema financeiro, as pequenas e médias empresas enfrentam enormes restrições, sendo muitas vezes obrigadas a recorrer ao mercado informal, onde as divisas continuam disponíveis, mas a preços significativamente mais elevados, o que não é sustentável para as PME. “Falamos de um acesso diferenciado às divisas. As pequenas e médias empresas têm muito mais limitações, enquanto as grandes empresas não enfrentam o mesmo problema.

Ao mesmo tempo, verifica-se que há moeda estrangeira no mercado informal, o que demonstra que as divisas existem, mas não chegam de forma equitativa às empresas”, explicou. Para Inocêncio Paulino, o impacto da escassez de divisas torna-se ainda mais grave porque Moçambique continua fortemente dependente das importações para abastecer a sua economia. Segundo o empresário, mais de 98% do tecido empresarial nacional é constituído por pequenas e médias empresas, responsáveis por grande parte da produção, comércio e geração de emprego. Sem acesso à moeda estrangeira, muitas destas empresas deixam de conseguir importar matérias-primas, equipamentos e outros insumos indispensáveis ao funcionamento dos seus negócios. “Estamos a fragilizar cada vez mais a nossa capacidade produtiva. As empresas produzem menos, geram menos rendimento e isso afecta directamente as famílias, porque é nas pequenas e médias empresas onde a maioria dos moçambicanos encontra emprego”, advertiu.

Na sua avaliação, caso a situação persista, o país poderá enfrentar um crescimento económico cada vez mais lento e pouco sustentável, com consequências directas sobre o emprego, o consumo e a arrecadação de receitas fiscais. APME revela que os efeitos da crise cambial já são visíveis no tecido empresarial De acordo com Inocêncio Paulino, há cerca de três meses a associação monitorava mais de 500 pequenas e médias empresas com sérias dificuldades de acesso às divisas, parte das quais já foi obrigada a suspender ou encerrar as actividades. “Há pouco tempo nós tínhamos um acompanhamento de mais de 500 empresas, digamos, com dificuldades sérias de acesso a divisas e também parte delas tiveram que encerrar as portas. Imagine uma empresa que depende da importação de matéria-prima. Se não consegue comprar divisas, deixa simplesmente de produzir. Isso interrompe completamente o ciclo normal das operações e compromete a sobrevivência do negócio”, lamentou.

Apesar do cenário preocupante, Paulino acredita que o Governo, o Banco de Moçambique, a banca comercial e outras instituições financeiras já reconheceram a gravidade da situação e espera que sejam adoptadas medidas para melhorar o acesso das empresas às divisas. “Nós esperamos que o cenário melhore. O Governo conhece este problema, o regulador conhece este problema e as instituições financeiras também. O que esperamos agora são soluções concretas”, afirmou. As dificuldades do sector privado não se limitam à escassez de divisas. O sector da construção civil enfrenta igualmente uma grave crise financeira provocada pelo atraso no pagamento de obras executadas para o Estado. Governo acumula uma dívida superior a 16 mil milhões de meticais junto das empresas de construção O presidente da Federação Moçambicana de Empreiteiros, Bento Machaila, denunciou que o Governo acumula uma dívida superior a 16 mil milhões de meticais junto das empresas de construção, situação que está a provocar sucessivos encerramentos de empresas. Segundo Machaila, a federação recebe semanalmente informações sobre empresas que cessam actividades por falta de liquidez, incluindo firmas tradicionalmente consideradas sólidas.

“Em média, doze empresas encerram actividade todos os meses, empresas que empregam entre 500 e 800 trabalhadores”, alertou. A federação recorda que já em Outubro de 2025 havia denunciado uma dívida superior a 14 milhões de meticais, acumulada desde 2015, sem que o problema tenha sido resolvido de forma definitiva. Perante este cenário, representantes do sector empresarial defendem que a recuperação do ambiente de negócios depende da normalização do mercado cambial e da regularização dos pagamentos do Estado às empresas. Na visão dos empresários, sem liquidez, acesso às divisas e previsibilidade financeira, as pequenas e médias empresas continuarão a perder capacidade de investimento, produção e geração de emprego, comprometendo o crescimento económico do país e agravando as dificuldades enfrentadas pelas famílias moçambicanas. Refira-se que desde 2024, a persistente falta de divisas está a sufocar a economia nacional, consequentemente, levando ao encerramento de mais empresas nacionais e internacionais, para além do encerramento de mais 15 mil postos de trabalho, segundo a agremiação empresarial (CTA).

Fonte: Jornal Evidências

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