Os heróis que não cabem na praça: Tio Turutão, o homem que ensinou Moçambique a sonhar

by Biston Gule

Durante muitos anos, foi assim que o dia acabava para milhares de crianças moçambicanas. Não terminava quando o relógio atingia determinada hora, nem quando  os adultos decidiam apagar a luz. Terminava quando aquela voz entrava em casa e nos dizia, com uma ternura que não precisava de pedir licença, que chegara a hora de dormir. Para quem nasceu naquele tempo, Tio Turutão não era apenas um homem da rádio. Era quase um parente sem fotografia na parede. Conhecia-nos sem nunca nos ter visto, falava connosco sem saber os nossos nomes e conseguia uma coisa rara: fazer com que uma criança sentisse que a rádio inteira tinha sido inventada para ela. Chamava-se Ernesto Edgar de Santana Afonso. Mas conhecemo-lo como se conhecem certas pessoas que entram cedo demais na nossa vida para precisarem de nome completo. Era o Tio Turutão.

O homem que sabia tudo, ou pelo menos sabia aquilo que mais importava quando ainda éramos pequenos: ensinar sem humilhar, corrigir sem assustar, fazer rir sem diminuir e transformar a hora de dormir numa promessa de que o mundo continuaria lá na manhã seguinte. Né Afonso nasceu em Quelimane, a 23 de Fevereiro de 1950. Começou a tocar piano aos cinco anos, ensinado num primeiro momento pela irmã mais velha. O pai queria que todos os filhos aprendessem aquele instrumento. Tentou a disciplina formal de uma escola de música dirigida por religiosas, mas as pautas e as colcheias tiveram de disputar o rapaz com o futebol e com a rua. A música acabou por ficar, mas ficou à maneira dele: menos obediente ao papel, mais próxima da vida. Aos 12 anos já tocava nos Jovens Apaches. Passou depois pelos Lordes e pelos Blue Twisters, num tempo em que Quelimane tinha uma vida musical intensa, feita de bailes, conjuntos, carnavais, salas cheias e músicos que aprendiam o ofício diante do público. Acompanhou artistas conhecidos da época e compôs “Chitato”, mais tarde gravada por Natércia Barreto.

Há uma parte da sua vida que diz muito sobre o homem em que viria a tornar-se. Aos 16 anos já colaborava na programação infantil do Emissor Regional da Zambézia. Antes de existir Tio Turutão, portanto, já existia em Né Afonso essa inclinação para conversar com crianças sem lhes falar de cima. Quando se mudou para Lourenço Marques, encontrou uma cidade maior, mais dura e muito diferente da sua Quelimane. Estudou Educação Física durante o dia e tocou de madrugada em lugares como o Topázio, a Cave e o Pinguim. Saía do palco às três da manhã, dormia algumas horas e regressava às aulas. Concluiu o curso sem abandonar a música. O homem que mais tarde embalaria o sono de um país começou por aprender a viver roubando horas ao próprio descanso. Foi na Rádio Moçambique que nasceu Tio Turutão. Não como simples pseudónimo, mas como personagem inteira, com voz, humor, música e autoridade afectiva. Num país jovem, saído há pouco da dominação colonial, ainda a tentar reconhecer-se na sua própria voz, Né Afonso percebeu uma coisa que nem sempre os adultos compreendem: a independência também tinha de chegar às crianças. Era necessário criar canções em que elas reconhecessem a escola, o país, as brincadeiras, as férias e o Dia da Criança.

Era necessário falar-lhes numa linguagem que não fosse uma cópia mal disfarçada dos adultos. Era necessário dar à infância moçambicana uma banda sonora que lhe pertencesse. Foi desse entendimento que nasceu, em 1984, o disco “Bons Sonhos”. Ali estavam “A Minha Escola”, “Conhece o Teu País”, “Marrabentinha”, “Boneca de Trapos”, “Meninos Vamos Brincar” e outras canções que ensinavam sem se transformarem em lições. No ano seguinte, gravou “Dez Anos”, assinalando a primeira década da independência. Convém perceber a dimensão desse trabalho. Moçambique atravessava uma época duríssima. Havia guerra, escassez e famílias separadas. Muitas casas não tinham televisão. Os livros infantis eram poucos e chegavam a muito pouca gente. A rádio era, para milhões de moçambicanos, o grande lugar comum. Entrava onde a estrada não chegava, atravessava paredes de caniço e reunia pessoas que nunca se encontrariam. Foi dentro dessa realidade que Tio Turutão criou um território para a infância. Enquanto o país falava de produção, guerra, vigilância e sobrevivência, ele lembrava que havia meninos que precisavam de brincar, cantar, aprender e adormecer sem levar para a cama todo o peso dos adultos. Mas seria injusto reduzi-lo ao homem de “Bons Sonhos”. Né Afonso foi também escritor, actor, adaptador, tradutor, encenador e dirigente do teatro radiofónico.

Coordenou o sector responsável pelo programa “Cena Aberta”, criado por Leite de Vasconcelos, e ajudou a levar literatura e teatro a um público que raramente tinha acesso ao palco ou ao livro. Foi responsável por adaptações radiofónicas que ficaram na memória dos ouvintes. Escreveu “Eu Não Sou Eu e Outras Peças de Teatro”, publicado em 1981, e foi autor do seriado “Unahiti, o Guerrilheiro”. Em cada uma dessas tarefas havia o mesmo princípio: a cultura não devia permanecer fechada numa sala, reservada aos instruídos ou aos habitantes da capital. A rádio podia transformar o país inteiro numa plateia. Também participou na criação de uma orquestra infantil. Não lhe bastava cantar para as crianças. Queria que elas próprias aprendessem a tocar, a construir música e a descobrir aquilo de que eram capazes. Dessa experiência, desenvolvida com outros músicos e educadores, nasceu o embrião de uma escola de música inicialmente ligada à Rádio Moçambique. Mais tarde trabalhou na Deutsche Welle, na Alemanha. Regressou depois a Moçambique e continuou ligado à rádio, ao jornalismo, à produção de programas e à divulgação do jazz na Rádio Cidade. Nunca deixou de ser um homem de cultura, embora o país o tenha guardado sobretudo naquela personagem que sabia tudo. Morreu em Portugal, a 13 de Maio de 2016, depois de doença prolongada.

A notícia passou, como passam quase todas as notícias sobre os homens que ajudaram a construir silenciosamente este país. Houve homenagens, palavras sentidas e, no ano seguinte, um tributo musical promovido pela banda TP50 em parceria com a Rádio Moçambique. Depois, o silêncio voltou a ocupar o lugar que tantas vezes reservamos aos nossos melhores. Talvez o mais doloroso seja percebermos que uma parte significativa da sua obra continua dispersa. Programas, peças, gravações, adaptações, histórias e vozes permanecem escondidos em arquivos ou entregues à fragilidade da memória de quem os ouviu. Um país que não preserva aquilo que ofereceu imaginação às suas crianças empobrece duas vezes. Perde a obra e perde a possibilidade de explicar às novas gerações de onde veio. Hoje, muitas crianças moçambicanas crescem a cantar canções produzidas longe daqui, com sotaques, personagens e mundos que pouco lhes dizem sobre o lugar onde nasceram. Não há mal nenhum em conhecer o mundo.

O problema começa quando se conhece o mundo inteiro sem encontrar Moçambique dentro da própria infância. Tio Turutão compreendeu essa falta antes de muitos de nós. Percebeu que uma nação não se constrói apenas com hinos, heróis militares, discursos e grandes datas. Também se constrói com histórias contadas antes de dormir, com uma marrabentinha feita para crianças, com uma boneca de trapos, com o nome do país pronunciado sem solenidade e com a voz de um adulto capaz de se baixar até à altura de um menino sem se tornar menor por isso. Talvez seja essa a sua verdadeira grandeza. Tio Turutão não ensinou apenas músicas. Ajudou milhares de crianças a sentirem que também eram destinatárias de Moçambique.

Nunca teve uma praça. Não conheço avenida, escola pública importante ou grande instituição cultural que carregue o seu nome. Mas durante anos teve qualquer coisa mais íntima do que uma estátua. Teve lugar dentro das casas, à cabeceira das camas e naquele instante delicado em que uma criança fecha os olhos acreditando que amanhã haverá outra vez mundo. As praças pertencem muitas vezes aos homens que comandam adultos. Tio Turutão ficou no lugar onde a pedra não chega: na memória das crianças que ajudou a adormecer e que hoje, já envelhecidas, ainda reconhecem a sua voz. Né Afonso não cabe na praça. Cabe na infância inteira de um país.

Fonte: Magazine Independente

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