Noite cultural indo-moz: Música e dança sem fronteiras

by Biston Gule

O Relógio aproximava-se das 18.00 horas quando os primeiros convidados começaram a ocupar os lugares do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane. À entrada, mulheres vestidas de elegantes saris de seda, em tons dourados, vermelhos e azulturquesa, cruzavam-se com moçambicanos trajados de capulanas de cores vibrantes e fatos tradicionais. O aroma suave do incenso misturava-se com o perfume das flores que ornamentavam o palco, enquanto um murmúrio de vozes em português, inglês, hindi, gujarati e outras línguas indianas preenchia o espaço, anunciando uma noite de celebração, reencontros e partilha. Não era apenas mais um espectáculo. Era a sétima edição da Noite Cultural Indo-Moz, um evento que, ao longo dos anos, se transformou num dos maiores símbolos da amizade entre Moçambique e a Índia, celebrando uma convivência construída através do comércio, da migração, da cultura e das relações humanas.  Organizada pela Associação Cultural Indiana, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura e o Alto-Comissariado da Índia em Moçambique, a iniciativa reuniu mais de 150 artistas, distribuídos por cerca de 15 apresentações, num espectáculo que percorreu diferentes regiões do subcontinente indiano e várias expressões da cultura moçambicana. As luzes do auditório diminuíram lentamente. O silêncio instalou-se.

No centro do palco, ornamentado com tecidos coloridos, flores e elementos decorativos inspirados na cultura indiana, foi colocada uma pequena lâmpada cerimonial. A secretária de Estado das Artes e Cultura, Matilde Muocha, o alto-comissário da Índia em Moçambique, Robert Shetkintong, o presidente da Associação Cultural Indiana, Nandkumar Nair, e outras personalidades aproximaram-se para o tradicional acendimento da chama. Logo depois, o auditório levantou-se para entoar os hinos nacionais de Moçambique e da Índia. As vozes ecoaram num ambiente marcado pelo respeito mútuo. Muitos elementos da comunidade indiana acompanharam emocionados o hino do seu país de origem, a seguir, juntaram-se aos moçambicanos para interpretar “Pátria Amada”, num momento que arrancou os primeiros aplausos da noite. Um palco de cores Quando a cortina se abriu, o palco transformou-se numa explosão de cores, vestidos bordados com fios dourados reflectiam a luz dos projectores.

Pulseiras tilintavam ao ritmo da música. Colares, turbantes, tornozeleiras e lenços completavam figurinos cuidadosamente preparados para representar diferentes regiões da Índia. De Kerala chegavam movimentos delicados, marcados pela elegância das mãos e pela expressividade do olhar. Do Punjab, surgiam coreografias vigorosas, acompanhadas por batidas rápidas que convidavam à celebração. Gujarat apresentou danças circulares repletas de energia, enquanto artistas de Rajasthan encheram o palco com giros constantes, saias coloridas e movimentos que pareciam desenhar círculos no ar. Entre uma apresentação e outra, mudavam também os cenários, as melodias e os figurinos, revelando a diversidade cultural de um país com dezenas de línguas, tradições e identidades. Mas não era apenas a Índia que desfilava diante da plateia, quando os tambores começaram a marcar um ritmo familiar, percebeu-se imediatamente que era a vez de Moçambique ocupar o centro do palco. O som das percussões fez vibrar o auditório.

Alguns espectadores acompanharam espontaneamente o compasso com as mãos, enquanto outros sorriam ao reconhecer melodias que fazem parte da memória colectiva do país. A estreia da Escola Nacional de Dança constituiu um dos momentos mais aguardados da noite. Os bailarinos apresentaram uma coreografia inspirada em diferentes manifestações culturais moçambicanas, numa combinação de movimentos tradicionais e linguagem contemporânea. As capulanas coloridas ondulavam ao ritmo da música, criando um efeito visual que arrancou sucessivos aplausos. Em seguida, foi a vez da dança n’yambalo, expressão tradicional da província da Zambézia ligada aos rituais de iniciação feminina. Os passos firmes, os movimentos sincronizados e o som dos tambores transportaram o público para o universo das tradições ancestrais moçambicanas.

Durante alguns minutos, o auditório deixou de estar no centro de Maputo para viajar simbolicamente pelas aldeias da Zambézia, onde esta dança continua a desempenhar um papel importante na transmissão de conhecimentos e valores culturais. Uma partilha inusitada Se houve um momento capaz de resumir o verdadeiro espírito da noite, foi aquele em que jovens moçambicanos e indianos dividiram o mesmo palco. Não havia barreiras linguísticas. Não havia diferenças de origem. Apenas música e dança. Enquanto bailarinas indianas executavam movimentos delicados das mãos, jovens moçambicanos respondiam com a energia das danças tradicionais nacionais. Em poucos segundos, os dois estilos fundiram-se numa única coreografia, construída a partir do respeito e da curiosidade pela cultura do outro. Os aplausos sucediam-se ao ritmo das apresentações. Muitos espectadores registavam cada momento com os telemóveis, enquanto outros preferiam apenas contemplar o espectáculo. Entre o público encontravam-se diplomata, representantes do Governo, académicos, empresários, estudantes e famílias inteiras, unidos pela mesma curiosidade de descobrir como duas culturas, separadas por milhares de quilómetros, conseguem dialogar através da arte.

Foi precisamente essa fusão que mais emocionou quem assistia. Ao longo de mais de duas horas, o palco deixou de pertencer a um país ou a outro. Tornou-se um espaço comum, onde a tradição e a modernidade conviviam, onde o clássico encontrava o contemporâneo e onde a dança servia de linguagem universal. Quando o último acorde de uma das apresentações se dissipava no auditório, o silêncio era rapidamente substituído por uma salva de palmas. Não eram aplausos de circunstância. Eram gestos espontâneos de um público que reconhecia, em cada actuação, horas de ensaios, dedicação e o compromisso de preservar tradições que atravessaram oceanos para ganhar um novo palco em Maputo. Atrás da cortina, enquanto uma coreografia terminava, outra começava a ganhar forma. Bailarinas retocavam discretamente a maquilhagem, jovens trocavam de figurino em poucos minutos e voluntários organizavam adereços para que o espectáculo mantivesse o ritmo. O movimento era constante, mas quase imperceptível para quem assistia na plateia. Foram cerca de três meses de preparação para que tudo decorresse ao detalhe.

A coordenação envolveu dezenas de voluntários, coreógrafos, músicos e famílias inteiras que encontraram na Noite Cultural Indo-Moz uma oportunidade para mostrar às novas gerações as tradições herdadas dos seus antepassados. Homenagem ao “Mundial” Quando as primeiras notas da música começaram a ecoar no auditório, o ambiente ganhou uma energia diferente. Em poucos instantes, o grupo da Associação Cultural de Canto e Dança Ungassoly tomou conta do palco, transformando-o numa celebração da maior festa do futebol mundial. Vestidos com camisolas de diferentes selecções que participaram no Campeonato do Mundo, os bailarinos surgiram transportando bolas de futebol, que rapidamente passaram a fazer parte da coreografia. Entre passos sincronizados, acrobacias e jogos de bola executados ao ritmo da música, a actuação evocou o espírito de união que caracteriza o “Mundial”, onde culturas, línguas e nacionalidades se encontram em torno de uma paixão comum.

As bolas circulavam de mão em mão, eram lançadas ao ar e recuperadas com precisão, acrescentando dinamismo a uma apresentação que prendeu a atenção da plateia do princípio ao fim. Mais do que uma homenagem ao futebol, a coreografia destacou o desporto como uma linguagem universal, capaz de aproximar povos e ultrapassar fronteiras. A escolha de camisolas de diferentes equipas simbolizou a diversidade e o respeito pelas diferenças, valores que também marcaram toda a Noite Cultural Indo-Moz. No final da actuação, o entusiasmo do público fez-se ouvir numa prolongada salva de palmas, premiando uma apresentação que conseguiu unir arte, criatividade e desporto num dos momentos mais vibrantes da noite. Aproximando povos ENTRE bastidores e palco, era evidente que a cultura não se apresentava apenas como entretenimento. Ali, assumia-se como memória, identidade e pertença. Quando subiu ao palco para usar da palavra, a secretária de Estado das Artes e Cultura, Matilde Muocha, começou por agradecer à Associação Cultural Indiana e ao AltoComissariado da Índia pela organização de um evento que, ao longo de sete edições, se consolidou como uma referência na agenda cultural da cidade de Maputo.

Para a governante, a noite representava muito mais do que uma sucessão de espectáculos artísticos. Segundo afirmou, o Governo de Moçambique continua a encarar a cultura como um instrumento estratégico para preservar o património nacional, estimular as indústrias criativas e promover a inclusão social, criando oportunidades para que os jovens artistas possam desenvolver o seu talento e dialogar com outras culturas. A participação, pela primeira vez, da Escola Nacional de Dança foi apresentada como um passo importante nesse caminho. Ao juntar-se às companhias e grupos culturais da comunidade indiana, a instituição demonstrou que a valorização da cultura nacional não se faz em isolamento, mas através da troca permanente de experiências.

O presidente da Associação Cultural Indiana, Nandkumar Nair, explicou que essa é precisamente uma das principais missões da organização. “A associação reúne famílias oriundas de diferentes estados da Índia, permitindo que cada comunidade preserve as suas danças, músicas, línguas e costumes sem perder a ligação ao país que hoje considera casa”, disse. A essência da Noite Cultural Indo-Moz está precisamente na possibilidade de construir algo em conjunto. “A música e a dança conseguem unir pessoas de uma forma que poucas linguagens conseguem. Quando vemos moçambicanos a interpretar danças indianas ao lado de indianos, percebemos que a amizade entre os nossos povos é uma realidade viva.” Segundo Nair, a comunidade indiana residente em Moçambique, estimada em cerca de 20 mil pessoas, entre cidadãos de origem indiana e nacionais indianos, continua profundamente integrada na vida económica, social e cultural do país, contribuindo para reforçar uma convivência construída ao longo de várias gerações.

O alto-comissário da Índia em Moçambique, Robert Shetkintong, disse que a Noite Cultural Indo-Moz simboliza precisamente convivência, demonstrando que a arte consegue aproximar pessoas de diferentes origens sem apagar as identidades de cada uma. O diplomata destacou ainda o papel desempenhado pela Associação Cultural Indiana na preservação desse património comum, considerando que a organização se tornou uma referência na promoção do diálogo intercultural. No encerramento, foram entregues troféus de reconhecimento aos coreógrafos, bailarinos, patrocinadores e voluntários que contribuíram para o sucesso da iniciativa. A sétima edição da Noite Cultural Indo-Moz terminou como começou: sob o signo da diversidade.

Fonte: Jornal Notícias

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