O pano caiu sobre a última sala de cinema em funcionamento na capital moçambicana. O Nu Metro, instalado no Gloria Mall e considerado o derradeiro refúgio da sétima arte na cidade de Maputo, encerrou temporariamente as portas, deixando a cidade sem qualquer espaço dedicado à exibição regular de filmes. O anúncio, feito através de um breve comunicado da gerência, reacendeu o debate sobre o progressivo desaparecimento dos equipamentos culturais e o estado da cultura em Moçambique.
A administração limitou-se a informar que o encerramento resulta de “motivos alheios à sua vontade”, sem esclarecer as razões da decisão nem avançar uma data para a retoma das actividades.
“Por motivos alheios à nossa vontade, o cinema encontra-se fechado temporariamente. Agradecemos a compreensão e pedimos sinceras desculpas pelos transtornos causados”, refere o comunicado.
Entre as vozes mais críticas está a do actor e encenador Gilberto Mendes, que considera que o encerramento do Nu Metro é apenas o reflexo mais visível de uma crise cultural que se vem agravando há vários anos.
Segundo o artista, antes de desaparecer o cinema, Moçambique já tinha assistido ao encerramento de salas de espectáculo, companhias de teatro, bandas musicais e outros espaços fundamentais para a criação artística.
Numa publicação nas redes sociais, Mendes questiona o facto de a sociedade apenas reagir agora, quando o processo de degradação do sector cultural decorre há muito tempo, praticamente sem contestação pública.
Para o encenador, a cultura desempenha um papel central na formação da cidadania, no fortalecimento do civismo e na preservação da identidade nacional, deixando um alerta contundente sobre o estado do sector.
“A cultura moçambicana não está doente. Está nos cuidados intensivos. E cada dia que adiamos o tratamento torna a recuperação mais difícil. A pergunta já não é se devemos agir. A pergunta é se ainda vamos a tempo. Entretanto, enquanto discutimos o problema, há quem continue teimosamente a me lutar. Há quem continue a acender luzes em vez de amaldiçoar a escuridão. Há quem continue a acreditar que um povo educado pela cultura será sempre mais forte do que um povo alimentado apenas por estatísticas económicas”, escreveu.
Embora o encerramento tenha sido anunciado como temporário, a ausência de explicações por parte da gerência quanto às causas da paralisação e ao eventual regresso da actividade alimenta a incerteza sobre o futuro da única sala de cinema que permanecia aberta na cidade de Maputo. Para muitos amantes da sétima arte, o apagar das luzes do Nu Metro representa mais do que o fecho de um cinema: simboliza o enfraquecimento de um dos últimos espaços de encontro, criação e fruição cultural na capital.
A suspensão das actividades deixa órfãos milhares de cinéfilos que, nos últimos anos, encontravam no Nu Metro o único espaço para acompanhar estreias nacionais e internacionais numa sala de cinema. Para muitos, o fecho representa mais um sinal do declínio dos espaços culturais no País.
A notícia provocou uma onda de reacções nas redes sociais, onde artistas e agentes culturais alertaram para o contínuo desaparecimento de infra-estruturas dedicadas às artes.
Fonte: Evidencias